quarta-feira, 10 de abril de 2019

Lisboa de Manuel Alegre


Lisboa é esta praça com árvores e com pássaros
Merlos piscos toutinegras rouxinóis
E barcos inconcretos nos telhados onde
O azul do céu é já um mar do avesso
Um reflexo do Tejo ou talvez um
Pressentimento de cadete ocaso Cabo Raso
Um navegar só verbo em navio nenhum.
Lisboa é esta janela de onde vejo
Tudo o que se não vê que é o que há mais
Em Lisboa onde se vê mesmo sem ver o Tejo
E onde cada varanda é sempre um cais.
Lisboa é esta praça e esta janela
Minha nau capitânia sobre o insondável
Dentro de casa eu vou de caravela
Bartolomeu Dias neste mar inavegável
Não há Índia perdida que não possa ser achada
Lisboa é esta praça e esta viagem
Esta partida mesmo se parada
Este embarcar no azul até chegar àquela margem
Em cuja linha só o abstracto pensamento passa
A margem única e absoluta não mais que pura imagem
Sem precisar sequer sair da Praça
João do Rio número onze quarto direito
Onde eu Ulisses vou à proa
Além de qualquer cabo e qualquer estrito
Em Lisboa por dentro de Lisboa.


ALEGRE, Manuel, Praça João do Rio ou segundo poema do português errante, Livro de português errante, Lisboa,  Publicações D. Quixote, 2001, pp. 39-40.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Moinho de vento


Um moinho de vento, em sentido restrito, é um moinho que usa as hélices como elemento de captação e conversão da energia eólica para outro tipo de energia apropriada para movimentar outros mecanismos. 
 
As primeiras referências conhecidas a moinhos de vento datam do século V. Prevê-se que os aparelhos movidos a vento eram utilizados para fazer farinha. No Ocidente, terá sido inicialmente aplicada pelos Persas à moagem de cereais. Na Europa, o mais antigo moinho de vento conhecido trabalhava na Inglaterra em 1185. 

Crê-se que os primeiros moinhos de vento possuiriam  eixo vertical com velas dispostas em seu redor. Contudo, essa tipologia acabou por ser substituída pela de eixo horizontal que hoje conhecemos. Em Portugal, a sua existência é citada num documento de 1303, contudo é de admitir que a sua introdução tenha sido anterior a esta data.

O moinho de vento tipo mediterrânico, grupo ao qual pertence a maioria dos moinhos de vento portugueses, tomou uma forma particular, distinta da do norte da Europa. De menor dimensão, são, geralmente, compostos por uma estrutura cilíndrica construída em pedra, com cúpula cónica de madeira (denominada capelo) e um número variável de velas de pano cuja origem se pode associar ao velame das embarcações.
Em muitos dos moinhos de vento do norte da Europa, as pás são orientadas para o vento por rotação de toda a torre, ao passo que nos moinhos de vento de tipo mediterrânico apenas o capelo sofre este movimento permanecendo a restante estrutura fixa.
Com a revolução Industrial e a banalização de outras formas de produção de energia cinética mais eficientes (da qual é exemplo o motor eléctrico), este tipo de tecnologia caiu em desuso, tendo muitos dos moinhos sido demolidos, conservados como atracção turística e até mesmo transformados em residências pessoais. E este lindo moinho fica em Odemira ;)

Fonte: Wikipédia

Praia de Tróia









Sempre bela mesmo num dia nublado

domingo, 7 de abril de 2019

Nas margens de um rio


Hortense
Rio Douro
Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas.

Viajar com Miguel Torga, Guimarães, Opera Omnia, 2015, p. 57.

Banco à sombra

Odemira

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Somos um todo

Molhe de Portimão
Somos o todo, mas somos um todo que vibra com o Sol, com a Lua, com o vento, com a água, com o fogo, com a terra, com tudo o que se vê e o que não se vê.

ESQUÍVEL, Laura, A Lei do amor, Porto, 16.ª edição, Asa Editores, 2006, p. 177.

sábado, 30 de março de 2019

Sol

O sol que ainda não atingiu
O preciso prumo do dia em que a sombra
Se desvanece e o corpo tem o seu
Perfil mais inteiro, num socalco do tempo
Em que a mão do escultor trabalha
O seu recorte de linhas sonoras
Como sílabas, e o fecha nesse instante
Único, antes que a hora o fira
Com as manchas da tarde.

JÚDICE, Nuno, Memória lêveda, Navegação de acaso, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 87.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Telhados de Lisboa









Berlenga lá longe

Hortense
A Ilha da Berlenga dista cerca de 7 milhas do Porto de Peniche, com comprimento e largura máximos de 1500 e 800 metros respectivamente, um perímetro de 4000 metros, 88 metros de altitude máxima e -30 de mínima.

Fonte:  http://www.cm-peniche.pt/turismo_ilhaberlenga

Geraldo Sem Pavor

Geraldo Geraldes, mais conhecido pelo nome de Geraldo sem Pavor foi uma personagem representativa do período de formação das fronteiras de Portugal, no século XII. Durante a conquista da região do Alentejo por D. Afonso Henriques e também da Estremadura espanhola, Geraldo Sem Pavor ofereceu-se como voluntário para tomar a cidade de Évora, bem como outras localidades vizinhas. Utilizando como base de operações o castro hoje conhecido como Castelo do Geraldo - próximo de Valverde, e do qual existem algumas ruínas, introduziu-se nos muros da cidade, executando o governador mouro e entregando a praça ao soberano.


Figura central na iconografia da cidade de Évora, encontra-se representado em posição central no brasão de armas do município, montado a cavalo e empunhando a espada em riste. Em toda a cidade conquistada por este cavaleiro há emblemas a lembrar este acontecimento, estando a representação fotografada da lendária figura de Évora presente na torre norte da Sé de Évora.

Fonte: Wikipédia

quinta-feira, 21 de março de 2019

Poesia de João de Deus

Não sou eu tão tola
Que caia em casar;
Mulher não é rola
Que tenha um só par:
Eu tenho um moreno.
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho um outro maior.

Poema in MÓNICA, Maria Filomena, Cesário Verde - Um génio ignorado, Lisboa, Alétheia Editores, 2007, p. 113.


BOBIN, CHRISTIAN, Francisco e o Pequenino, Braga, Editorial A.O., 2013, p.  20.

Flores na praia




Buarcos

Pôr do sol no Alentejo

Évora

terça-feira, 19 de março de 2019

Interior do Museu Condes Guimarães




























Quando um homem faz um filho

... eu não pretendia ter filhos, e lembro-me que discutimos esse assunto, e discordámos. Disse-te então que não gostaria que ficasse neste mundo sinal algum da minha passagem, a não ser, vagamente, uma imprecisa nostalgia pousada sobre os lugares, as pessoas, os objectos que um dia intensamente amei. Um homem faz um filho e o que acontece? Depressa este lhe dá dois netos, e aqueles quatro bisnetos, e assim por diante, originando um ruidoso caudal de gente que irá com o seu nome atravessar a eternidade. Fazer um filho é gerar um universo.

AGUALUSA, José Eduardo, Nação crioula, 6.ª edição, Alfragide, D. Quixote, 2008, pp.123-124.

Luta

Aquele que luta contra os agentes da punição faz, de algum modo, a própria defesa individual contra uma ordem jurídica que o não respeita nem o protege.

AGUALUSA, José Eduardo, Nação crioula, 6.ª edição, Alfragide, D. Quixote, 2008, p.121.

A importância de um nome

Periquito bonito, periquito bonito.
E assobiava, sorrindo.
Nunca lhe tinha dado nome porque nunca encontrara um nome que lhe assentasse. Um nome tem muita importância, muda a maneira como se olha para o nomeado e, por fim, acaba mesmo por mudar o próprio nomeado.

PEIXOTO, José Luís, Galveias, Lisboa, Quetzal, 2014, p. 96.