sexta-feira, 17 de abril de 2026

O mandrião


 Évora

A um homem do passado

 Estes são os tempos futuros que temia

O teu coração que mirrou sob as pedras,

Que podes recear agora tão fundo,

onde não chegam as aflições nem as palavras duras?


Desceste em andamento; afinal era

Tudo tão inevitável como o resto

Viraste-te para o outro lado e sumiram-se

da tua vista os bons e os maus momentos.

PINA, Manuel António, Desimaginar o mundo - ensaios, Lisboa, Documenta, 2020, p. 24



quinta-feira, 16 de abril de 2026

Quando se está cansado

Quando se está cansado e apraz ser outro

Só porque isso é impossível, há vagar

Para pensar que há um género que é neutro

No latim virgem do sonhar.


PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos,  Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 142.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Crepúsculo no Tejo


 Visto sobre a Ponte 25 de Abril

Cozinha centenária


 Cozinha do Palácio Pimenta, actual Museu da Cidade de Lisboa

Ante meus olhos tudo

Ante meus olhos tudo. Não é muito

para que eu sinta uma existência pronta

a comover-se por saber que existe.


SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 62.

Bater o coração

Enquanto os pássaros batem as asas para voar,

Nós batemos o coração.


CRUZ, Afonso, Paz traz paz, Lisboa, Companhia das Letras, 2019, p. 34.

Quando uma casa parece uma torre


 Évora

terça-feira, 7 de abril de 2026

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Democracia com métodos totalitários?

 (...) existe agora uma tendência generalizada  para afirmar que só é possível defender a democracia com métodos totalitários. Segundo este argumento, se gostamos da democracia, devemos esmagar os seus inimigos? Parece sempre que não dão apenas os que a atacam aberta e conscientemente, mas também os que 'objectivamente' a põem em risco ao propagar doutrinas erradas. Por outras palavras, defender a democracia implica destruir toda a independência do pensamento. Este argumento foi usado, por exemplo, para defender as purgas russas. O mais ardente russófilo dificilmente terá acreditado que todas as vítimas fossem culpadas de todas as coisas de que foram acusadas: mas, ao defenderem opiniões heréticas, elas prejudicaram 'objectivamente' o regime, pelo que foi correcto, não somente massacrá-las, como desacreditá-las com falsas acusações.

ORWELL, George, O Triunfo dos Porcos, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2021, p.p. 141-142.

Com as ondas do mar






Cascais




Com as ondas do mar

Reflito, e respiro

Com o fim de auscultar 

O silêncio que trama

O eco em mantra

Da palpitação 

Marítima.

BUENO, A. B., O sentido litoral, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, pp. 46-47.


Calçada portuguesa




 Aos meus pés em Alcântara

Encostei o corpo à árvore

Cascais



Aproximei o olhar sedento e encostei o corpo à árvore 

Ao lugar onde o tronco solta o leite e amamenta a boca

no silêncio precioso que envolve as águas e a noite

a música da terra 

(...)

RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 28.

O que os separa?

Nenhum homem que se despede é infeliz. E nenhuma mulher que se despede é feliz. O que separa violentamente as mulheres e os homens não é o pénis, a vagina, ou alguns hábitos velhos. O que os separa violentamente é isto. A alegria ou a tristeza com que partem ou vêem partir.

TAVARES, Gonçalo M., Biblioteca,Porto, Campo das Letras, 2004, p. 50.