O Mundo da Hortense
sábado, 14 de fevereiro de 2026
Como há pessoas que se aam tanto
Duas pessoas que procuram a companhia uma da outra unicamente por prazer nunca se amam tanto como duas que trabalhem juntas e sofram juntas também.
BRONTË, Charlotte, O Professor, Matosinhos, Edições Book.it, 2013, p. 284.
Namorar pede pulsação
COUTO, Mia, Tradutor de chuvas, 3.a edição, Alfragide, Editoral Caminho, p. 118.
SOPROS
Saber a água onde a luz flutua:
Um membro, um só músculo teu
Um seio aberto à nudez do ombro
Donde de ti o amor deslize
E a boca resvale ao lento domínio
é o corpo a iniciar o gesto
prolongando a carícia à antemanhã
é preciso saber o lugar, longamente o início de um rio
para dizer o amor
Percorro nos fios de chuva o fio da tua pele
Um círculo de túmidos poros sucumbido ao sopro
Pequenos halos feridos nas tuas mãos brancas
Vencidas já
É preciso descobrir o corpo sílaba a sílaba
Para se amar a sílaba do corpo
Só depois morrer, rigorosamente,
vocábulo a vocábulo,
longamente morrer na alma da palavra
disse-me isto o lento movimento do teu rosto
quando te voltavas a dormir.
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 18.
Saber o amor
É preciso saber o amor
É preciso saber ver o amor
mesmo quando ele passa lesto sem
bater à porta e se aconchega na
casa e no corpo dos outros
é por isso que admiro tanto os poetas que
celebram o amor em cada poro e em cada
Ruga e em cada verso e em todas as estações
porque são precisas muitas linhas e
muitos tombos para dar vida ao amor
e tempo que é presa fácil dos poetas para lhe
dar a alma virgem das páginas por rasgar
é preciso saber o amor
é preciso descer ao fundo dos amantes e
Saber ver o amor
É preciso um poeta que o acolha
um profeta que o escreva
SOUTO, António, A seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 103.
Amor
O amor é que gera carícias (...)
Não terá sido ao mesmo tempo? Amor e carícias?
Ou talvez tenhamos inventado as carícias
Por desejarmos o fogo.
CRUZ, Afonso, Paz traz paz, Lisboa, Companhia das Letras, 2019, p. 25
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Um tempinho
Subi ao sonho como à montanha
Do cimo do sonho a paisagem é quase
sempre mais desafogada e mais etérea
como na gávea de uma caravela
As nuvens tocam-se com os dedos e a
Alma cola-se ao céu como uma estrela do mat
(...)
SOUTO, António, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 78.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
Vinhas do mar
![]() |
| Cascais |
Vinhas do mar, na volta da onda maior
Onda redonda fechada de abraço...
Ia o Sol num sul de entardecer.
Vinhas depressa ao devagar do prazer
De me levares à noite, pelo teu regaço
Embalando as batidas do meu suor.
Vinhas ao instinto do hoje até ao dantes
Molhada pelas águas que se dão ao mar...
Brasava o baú das noites guardadas.
Vinhas do tudo o que foi ao todo dos nadas
À memória do que tínhamos de guardar
Deixado num testamento de amantes.
Vinhas do mar, deusa das águas, luz
Num corpo de rio, rainha do Tejo...
Nascida de um céu emprestado ao chão.
Vinhas num sorriso na palma da tua mão
Tantos cheiros, outros cheiros
Nesse teu leito em que me pus.
(...)
ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2022, p. 28.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Talvez
Talvez o teu sonho
Se tivesse separado do meu
E pelo mar obscuro
Me procurasse
como antes,
Quando ainda não existias,
Quando sem dar por ti
Naveguei por onde andavas,
E os teus olhos procuravam
O que agora
- pão, vinho, amor e cólera -
Te dou às mãos cheias
Porque tu és a taça
Que esperava os dons da minha vida.
NERUDA, Pablo, Poemas de amor, Lisboa, 2.a edição, Publicações D. Quixote, 2019, p. 25.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Uma laranja
Uma laranja é uma bola de fogo incendiado na mão a
Manhã do mundo
É um rosto ardendo de boca cravada na
sumarenta luz do tempo
uma laranja incendeia nas mãos toda a ternura do gesto inicial
é um astro diurno que ilumina na boca o sorriso amanhecido
(...)
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 70.
As horas
As horas que em terno ofício emolduraram
Essa face gentil onde o olhar se demora
Hão-de ser as tiradas de si mesmas, as horas,
Como da fealdade que a perfeição superar.
Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
Ao temível Inverno, para aí o lograr:
A seiva, enregelada, as folhas sem fulgor,
Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
Assim, não fora a essência do Verão conservada,
Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
O fruto da beleza por ela era roubado
E nem memória havia de beleza que fosse.
SHAKESPEARE, William, 31 Sonetos, Lisboa, Relógio de Água, 2015, p. 17.
domingo, 8 de fevereiro de 2026
Quando se exige liberdade de expressão e de imprensa, não se está a pedir liberdade absoluta
ORWELL, George, O Triunfo dos Porcos, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2021, p. 140-141.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Cobardia intelectual
A cobardia intelectual é o pior inimigo que enfrenta um escritor ou um jornalista neste país
ORWELL, George, O Triunfo dos Porcos, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2021, p. 133.
Carta aos meus filhos sobre a guerra na Ucrânia
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso - sabemo-lo hoje?
A História sempre nos faz surpresas, sim,
mas diz-nos também que não mudam os nossos instintos
de presa, de morte, se guerra:
toda a beleza do mundo cabe na explosão de um morteiro,
no eco de uma bala.
E, no entanto, vivemos e dia a sia, acordamos
para todo o esplendor e miséria do mundo.
Não há nem haverá jamais paz perpétua
e a cobiça do lucro poderá destruir toda a Terra:
Mas não morre a beleza do clarinete que se levanta por dentro do
concerto de Mozart
(...)
pois enquanto formos capazes de dizer não
continuaremos a rasgar clareiras de humana vida
na selva escura da obscura morte.
Assim o nosso maior poder é a recusa,
a recusa da comunidade no mal, da visão da morte como suprema beleza
e da guerra como destino.
poderá ser pouca coisa o nosso "não"?
poderá de nada servir face às multidões que morrem? Talvez.
Mas é o nosso grande poder, o nosso único poder,
aquilo que deixamos como penhor à vida.
Luís Filipe de Castro Mendes in A mais frágil das moradas - poemas à memória de Eduardo Lourenço, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, p.p. 89-90.



















































