Évora
As palavras mais nuas
As mais tristes.
As palavras mais pobres
As que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
Para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
Onde não respondessem,
Onde as bocas falassem num murmúrio
Quase feliz,
As palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
Para uma alegria nova,
Que o pequenino corpo
De miséria
Respirações o ar livre,
A multidão dos pássaros escondidos,
A densidade das folhas, o silêncio
E um céu azul e fresco.
ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 26x.
... O malvado do tempo
Faz umas contas tramadas
Não deixa a gente ficar
só mais umas temporadas
(...)
TORDO, Fernando, Não me tapes o caminho em frente, mesmo que não vá dar ao futuro, Lisboa, Editora Guerra e Paz, 2021, p. 31.
A felicidade é o sinal da vertigem.
Concêntrica.
Mesmo no salto mortal e vivo.
Braços abertos, silenciosamente, no ar.
E amando a terra
Cai
E continua.
Deslizando sobre precipícios,
Uma só linha o conduz
E o envolve,
Uma superfície isenta para todos os traços.
Afável e mortal,
Dura e fria.
Renascente,
Extremamente visível.
Um só entusiasmo.
ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, pp. 61-62.
TAVARES, Gonçalo M., Biblioteca, Porto, Campo das Letras, 2004, p. 18.
Pensamos que
Os nossos pais são
Inquebráveis
até que um dia
descobrimos
que não são.
- o que significa realmente perder a nossa inocência.
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 75.
Levo-me na vontade do verso
Ouvindo ao longe as vozes do mar...
E com o mar converso
na paciência que segura a pressa.
Ao som de um velho tambor
preguiçosamente invento o poema
e nesse ouvir de tocar te ouço
e te reinvento
em cada proa
em que me soa
A viagem por onde vens...
com tudo o que tens.
ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2022, p. 30.