sábado, 25 de abril de 2026

Poema do dia

 Abril nasce há muitos anos

Em vozes roucas e envelhecidas


Já o sol vai alto

e é agora

só agora

abril


uma réstia de abril

um abril sem madrugada e

turvo nos olhos de hoje remelados


SOUTO, António, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 20.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Liberdade segundo Cesariny

A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.

Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.

Trocar liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.

Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.

Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.

Do cadáver de um homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro - nunca sairá um escravo.

Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa.

 CESARINY, Mário, As mãos na água, a cabeça no mar, Porto, Assírio e Alvim, 2015.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

A liberdade é como o coala, só tem um alimento: responsabilidade

TORDO, Fernando, Não me tapes o caminho em frente, mesmo que não vá dar ao futuro, Lisboa, Editora Guerra e Paz, 2021, p. 18.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O mandrião


 Évora

A um homem do passado

 Estes são os tempos futuros que temia

O teu coração que mirrou sob as pedras,

Que podes recear agora tão fundo,

onde não chegam as aflições nem as palavras duras?


Desceste em andamento; afinal era

Tudo tão inevitável como o resto

Viraste-te para o outro lado e sumiram-se

da tua vista os bons e os maus momentos.

PINA, Manuel António, Desimaginar o mundo - ensaios, Lisboa, Documenta, 2020, p. 24



quinta-feira, 16 de abril de 2026

Quando se está cansado

Quando se está cansado e apraz ser outro

Só porque isso é impossível, há vagar

Para pensar que há um género que é neutro

No latim virgem do sonhar.


PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos,  Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 142.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Crepúsculo no Tejo


 Visto sobre a Ponte 25 de Abril

Cozinha centenária


 Cozinha do Palácio Pimenta, actual Museu da Cidade de Lisboa

Ante meus olhos tudo

Ante meus olhos tudo. Não é muito

para que eu sinta uma existência pronta

a comover-se por saber que existe.


SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 62.

Bater o coração

Enquanto os pássaros batem as asas para voar,

Nós batemos o coração.


CRUZ, Afonso, Paz traz paz, Lisboa, Companhia das Letras, 2019, p. 34.

Quando uma casa parece uma torre


 Évora

terça-feira, 7 de abril de 2026

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Democracia com métodos totalitários?

 (...) existe agora uma tendência generalizada  para afirmar que só é possível defender a democracia com métodos totalitários. Segundo este argumento, se gostamos da democracia, devemos esmagar os seus inimigos? Parece sempre que não dão apenas os que a atacam aberta e conscientemente, mas também os que 'objectivamente' a põem em risco ao propagar doutrinas erradas. Por outras palavras, defender a democracia implica destruir toda a independência do pensamento. Este argumento foi usado, por exemplo, para defender as purgas russas. O mais ardente russófilo dificilmente terá acreditado que todas as vítimas fossem culpadas de todas as coisas de que foram acusadas: mas, ao defenderem opiniões heréticas, elas prejudicaram 'objectivamente' o regime, pelo que foi correcto, não somente massacrá-las, como desacreditá-las com falsas acusações.

ORWELL, George, O Triunfo dos Porcos, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2021, p.p. 141-142.

Com as ondas do mar






Cascais




Com as ondas do mar

Reflito, e respiro

Com o fim de auscultar 

O silêncio que trama

O eco em mantra

Da palpitação 

Marítima.

BUENO, A. B., O sentido litoral, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, pp. 46-47.


Calçada portuguesa




 Aos meus pés em Alcântara

Encostei o corpo à árvore

Cascais



Aproximei o olhar sedento e encostei o corpo à árvore 

Ao lugar onde o tronco solta o leite e amamenta a boca

no silêncio precioso que envolve as águas e a noite

a música da terra 

(...)

RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 28.

O que os separa?

Nenhum homem que se despede é infeliz. E nenhuma mulher que se despede é feliz. O que separa violentamente as mulheres e os homens não é o pénis, a vagina, ou alguns hábitos velhos. O que os separa violentamente é isto. A alegria ou a tristeza com que partem ou vêem partir.

TAVARES, Gonçalo M., Biblioteca,Porto, Campo das Letras, 2004, p. 50.