sábado, 13 de junho de 2026

Ver no meio do invisível uma coisa é ser filósofo ou alucinado

 TAVARES, Gonçalo M., Biblioteca, Porto, Campo das Letras, 2004, p. 18.

Praia de Caxias







 

Cardume em Caxias


 Praia de Caxias

Câmara Municipal de Sintra



 

Amoroso

Não há nenhuma pele colectiva a não ser a pele de dois, no momento amoroso. E esta é efémera e rápida, enquanto a vida é, normalmente, uma efémera mais lenta.

Poderás também dizer que o acto amoroso é uma vida rápida, e assim terás tantas vidas rápidas quanto os actos amorosos.

TAVARES, Gonçalo M., Biblioteca,Porto, Campo das Letras, 2004, p. 103.


Ausência

Meu amor,

Encontrámo-nos 

Sedentos e bebemos

Toda a água e sangue,

encontrámo-nos

com fome

e mordemo-nos

como morde o fogo,

deixando-nos feridos.


mas espera por mim,

Guarda-me a tua doçura.

Dar-te-ei também 

uma rosa.



NERUDA, Pablo, Poemas de amor, Lisboa, 2.a edição, Publicações D. Quixote, 2019, p. 35.

Amor como em casa

Regresso devagar ao teu

Sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que

Não é nada comigo. Distraído percorro

O caminho familiar da saudade,

Pequeninas coisas me prendem,

Uma tarde num café, um livro. Devagar

Te amo e às vezes depressa,

Meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa

compro um livro, entro no

amor como em casa.


PINA, Manuel António, Desimaginar o mundo - ensaios, Lisboa, Documenta, 2020, pp. 47-48


Igreja de Santo António




 Igreja Matriz de Reguengos de Monsaraz

Amar o mar


 

Azulejo Café - bar


 Sintra

Amor

Busque Amor novas artes, novo engenho,

Para matar-me, e novas esquivar-se,

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que não tenho.


Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temos contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.


Mas, conquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê, 


Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei porquê. 



Andrade, Eugénio, Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 20.