Quando se está cansado e apraz ser outro
Só porque isso é impossível, há vagar
Para pensar que há um género que é neutro
No latim virgem do sonhar.
PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 142.
Quando se está cansado e apraz ser outro
Só porque isso é impossível, há vagar
Para pensar que há um género que é neutro
No latim virgem do sonhar.
PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 142.
Museu do Ar, Alverca
TAVARES, Gonçalo M., Biblioteca, Porto, Campo da Literatura, 2004, p. 66
Ante meus olhos tudo. Não é muito
para que eu sinta uma existência pronta
a comover-se por saber que existe.
SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 62.
Enquanto os pássaros batem as asas para voar,
Nós batemos o coração.
CRUZ, Afonso, Paz traz paz, Lisboa, Companhia das Letras, 2019, p. 34.
(...) existe agora uma tendência generalizada para afirmar que só é possível defender a democracia com métodos totalitários. Segundo este argumento, se gostamos da democracia, devemos esmagar os seus inimigos? Parece sempre que não dão apenas os que a atacam aberta e conscientemente, mas também os que 'objectivamente' a põem em risco ao propagar doutrinas erradas. Por outras palavras, defender a democracia implica destruir toda a independência do pensamento. Este argumento foi usado, por exemplo, para defender as purgas russas. O mais ardente russófilo dificilmente terá acreditado que todas as vítimas fossem culpadas de todas as coisas de que foram acusadas: mas, ao defenderem opiniões heréticas, elas prejudicaram 'objectivamente' o regime, pelo que foi correcto, não somente massacrá-las, como desacreditá-las com falsas acusações.
ORWELL, George, O Triunfo dos Porcos, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2021, p.p. 141-142.
Com as ondas do mar
Reflito, e respiro
Com o fim de auscultar
O silêncio que trama
O eco em mantra
Da palpitação
Marítima.
BUENO, A. B., O sentido litoral, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, pp. 46-47.
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| Cascais |
Aproximei o olhar sedento e encostei o corpo à árvore
Ao lugar onde o tronco solta o leite e amamenta a boca
no silêncio precioso que envolve as águas e a noite
a música da terra
(...)
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 28.
Nenhum homem que se despede é infeliz. E nenhuma mulher que se despede é feliz. O que separa violentamente as mulheres e os homens não é o pénis, a vagina, ou alguns hábitos velhos. O que os separa violentamente é isto. A alegria ou a tristeza com que partem ou vêem partir.
TAVARES, Gonçalo M., Biblioteca,Porto, Campo das Letras, 2004, p. 50.
As palavras esmagam-se entre o silêncio
Que as cerca e o silêncio que transportam
o meu cansaço é só um conceito
Serei capaz
de não ter medo de nada,
Nem de algumas palavras juntas?
As palavras fazem
Sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),
Um sentido justo,
Feito de mais palavras
As palavras depõem
Contra o coração,
que não quer dizer nada
nem ouvir nada
Como saberei o que fazer com tantas palavras,
náufrago de palavras
Na tormenta de antigos sentidos
e de antigas dúvidas,
Sem outra coisa que me proteja
Senão mais palavras?
PINA, Manuel António, Desimaginar o mundo - ensaios, Lisboa, Documenta, 2020, p.p. 199-200.