sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Cobardia intelectual

A cobardia intelectual é o pior inimigo que enfrenta um escritor ou um jornalista neste país

ORWELL, George, O Triunfo dos Porcos, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2021, p. 133.

Carta aos meus filhos sobre a guerra na Ucrânia

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso - sabemo-lo hoje?

A História sempre nos faz surpresas, sim,

mas diz-nos também que não mudam os nossos instintos

de presa, de morte, se guerra:

toda a beleza do mundo cabe na explosão de um morteiro,

no eco de uma bala.

E, no entanto, vivemos e dia a sia, acordamos 

para todo o esplendor e miséria do mundo.


Não há nem haverá jamais paz perpétua 

e a cobiça do lucro poderá destruir toda a Terra:

Mas não morre a beleza do clarinete que se levanta por dentro do 

concerto de Mozart

(...)

 pois enquanto formos capazes de dizer não 

continuaremos a rasgar clareiras de humana vida

na selva escura da obscura morte.


Assim o nosso maior poder é a recusa,

a recusa da comunidade no mal, da visão da morte como suprema beleza

e da guerra como destino.


poderá ser pouca coisa o nosso "não"?

poderá de nada servir face às multidões que morrem? Talvez.

Mas é o nosso grande poder, o nosso único poder,

aquilo que deixamos como penhor à vida.

Luís Filipe de Castro Mendes in A mais frágil das moradas - poemas à memória de Eduardo Lourenço, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, p.p. 89-90.