sexta-feira, 27 de junho de 2025

Jardim de Queluz











 Palácio de Queluz 

Horizonte imediato

 Todos os dias me apoio em qualquer coisa

Ando, como, esqueço 

Alguma coisa aprendo

E desaprender

Alguma coisa limpa nua grave


Surge

Ao lado passa

Eu não sou este desejo

Que às vezes arde

Alto sobre o chão.


ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 68.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

A tristeza

A tristeza é como uma luz acesa no coração.

A escuridão é como um esplendor que ronda a nossa noite.

Não temos mais de acender a pequena luz do luto

Para encontrar o caminho de regresso a casa atravessando a longa e vasta noite,

Como se fossemos sombras.

Bosque, cidade, rua e árvore estão iluminados.

Bem aventurado aquele que não tem pátria,

porque a terá em sonhos.


ARENDT, Hannah, Poemas, s.l., Sr Teste Edições, 2020, p. 26.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor para outro século 

Não posso

Ainda que o grito suficiente na garganta 

Ainda que o ódio estale e crepitar e arda

Sob montanhas cinzentas

E montanhas cinzentas


Não posso adiar este abraço

Que é uma arma de dois gumes

Amor e ódio 


Não posso adiar 

Ainda que a noite pese séculos sobre as costas 

E a aurora indecisa demore

Não posso adiar para outro século a minha vida

Nem o meu amor

Nem o meu grito de libertação 


Não posso adiar o coração 


ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 30.

Dedico-te estes versos XPTO, faz hoje 4 anos que te conheci, numa noite de São João/  apanhaste-me o coração/  mas tive de adiar o coração/ luto por não querer dizer não/  ao professor que chumba por olvidação...

Marchas populares


 Marcha de N. Sra de Machede, Évora 

As minhas ilusões

As minhas ilusões fazem parte de uma lista

Onde até as coisas simples

São fruto de uma conquista.


TORDO, Fernando, Não me tapes o caminho em frente, mesmo que não vá dar ao futuro, Lisboa, Editora Guerra e Paz, 2021, p. 37.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Colorido dos Santos Populares




 Évora 

Oiço

Oiço ainda a minha voz perguntar 

Qual será então o caminho certo

Só que todas as possíveis respostas

Se perderam noutros ouvidos talvez

Mais necessitados do que os meus.


VIEIRA, Alice, Olha-me como quem chove, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2018, p. 19.

sábado, 21 de junho de 2025

Millenials

 Nós somos a geração 

A funcionar a nada mais que a café 

E com três horas de sono.


Nós somos a geração 

A trabalhar com ordenados mínimos 

Com licenciaturas.


Nós somos a geração 

A fazer o dinheiro suficiente 

Para poder sobreviver.


Nós somos a geração 

Que não queriam ver falhar,

Mas asseguraram que assim seria.


- millenials.


 LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 181.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

segunda-feira, 16 de junho de 2025

domingo, 15 de junho de 2025

Não tenhas medo


 Évora não tem medo 😊

Diz-me...

 Não preciso de ouvir

'amo-te' todos os dias 


Nem de acordar a teu lado

todas as manhãs. 


Diz-me apenas que

vês o meu rosto quando

contemplas o pôr do sol


e eu saberei.


REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 69.

sábado, 14 de junho de 2025

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Il ne faut


Il ne faut plus dece schisme abominable!
Il ne faut plus d'enfer ni de paradis!
Il faut l'Amour, meure Dieu, meure le Diable!
Il faut que le bonheur soit seul, je vous dis!
Verlaine

 CESARINY, Mário, As mãos na água, a cabeça no mar, Porto, Assírio e Alvim, 2015, p.44.


Os que se amam nem sempre estão juntos

GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 12.

Dançando o Kunduro


 Praça do Geraldo - Évora 

Sóbrio o teu corpo me pede

Sóbrio o teu corpo me pede 

Penetração: nomes puros:

Os de boca, braços, mãos 

Sobre a terra e sobre os muros.


Sóbrio o teu corpo me pede 

Nomes justos, nomes duros:

Os de terra, fogo e punhos,

Claros, acres, escuros.



ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 57.

O que é?

É sono? É sonho? É ver?

Não sei, nem sei saber...

Há um sol negro no fundo

Do que me sinto ser

E à roda gira o mundo.


PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos,  Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 132.

Lamento do poeta objectivo

Anda-me o amor tomando a própria vida,

Como se, amando, eu existisse mais.

E leva-me o Destino em voz traída,

Como se houvera encontros desiguais.


A multidão me cerca, e renascida,

Já dela terei fome de sinais.

E, mal a noite se demora ardida,

O medo e a solidão me esfriar tais


As cinzas desse amor que sacrificou.

Não é futura a só miséria. A queixa

Também não é: e apenas acontece 


No vácuo imenso que este amor me deixa, 

Quando maior, quando de si mais rico,

se dá de mundo em mundo, e lá me esquece.


SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 23

Bailarico de Verão


Praça do Geraldo em noite de Santo António 

Sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo

Publico este verso porque esta noite sonhei com o teu beijo Xpto, o único milagre que o Santo António fez...

ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 37.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Brilha... o mar é perto

Praia da Rocha, Portimão 


Brilha o teu tecido circular,

A terra é um átrio: o mar é perto.

Há passos de mulher descalça.

O mundo é novo.

A terra clara.


Eu sou o homem que te ama e escuta

concentradamente no calor dum muro.

Cerrado, oiço a tua unidade plural,

vejo teus dedos grossos,

tuas marcas fêmeas, tua elegância dolorosa.

Teus seios me nutrem, olhando-te.


Mastigo-te, raiz, e quase te oiço.

Construo um músculo verbal em teu ouvudo,

alimento-me do teu mar visual e lento:

renasço pouco a pouco no teu horizonte dado.

Revejo-me num corpo ao pé do mar.


Silêncio no teu olhar, na tua boca.

Em tua língua primitiva o mar se olha.

É o deserto e falas, boca brusca

De ignorado alento.

Não te construo, constróis-me, construo-te

Construo-te, mar,

Parede pura,

Criada.


Aqui onde o sol se acende em carne,

Onde a casa é um nome de mar,

E os frutos e os espelhos 

Amadurecem o corpo solidário:

É Verão.


Aqui tu és 

Lenta verdade no sossego do sangue:

Circulação de nomes e de peixes.


Aqui, à fome dos nomes e dos seres,

Respondes, corpo do mar, coluna real

E teus acidentes se cumprem como ondas.

Aqui te palco, vela, aqui te vejo, pomo,

Formas meus braços, se te enleio,

Desato simplesmente os teus anéis,

bebo-te sem te extinguir e sem me esperares.

Amanhã serás tu, sendo já hoje.


Recebendo-te como outra, outra nasces

e a ti mesma te igualas, porque és mar.

Teu corpo denso se aproxima, ora se afasta.

Há um perfume de uma noite inextinguível

nas tuas coxas claras.



ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, pp. 52-53.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

As árvores têm palavras

Portimão 



As árvores 

Têm palavras 

Que o vento 

Não consegue carregar,

Então temos nós 

De escrever

 nelas

As suas histórias 

Até que não hajam

Mais nenhumas

Para elas

Contarem.


- escreve a história.


 LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 172.

terça-feira, 10 de junho de 2025

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Não digas nada, beija

Na sombra, que dizes?

Brilham teus olhos tristes

Húmidos de amor que procuras.

A boca entreaberta como a carne

Que, fresca, estremece e aquece nos meus dedos.

Não digas nada, beija

o beijo que em meus lábios 

te curva a cabeça sobre o ombro

como a cintura nos meus braços quebra.

Se me pertences, beija;

Se não pertencerás mais do que agora,

beija.

Na sombra, que dizes?

PT

SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 47.

sábado, 7 de junho de 2025

Quero...

Praia dos Careanos 
Portimão 


Quero dormir na água das palavras
Que amam o silêncio 
E a lentidão da luz 
Que é o fulgor de uma evidência indecifrável 

Quero ser a concha do ingénuo sossego
De uma flora branca
Com o monótono murmúrio
De uma respiração solar (...)

ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Assírioe Alvim, Porto, 2014, p. 33.

 

sexta-feira, 6 de junho de 2025

O que é a estupidez?

A estupidez, essa crassa crença intratável,  esta confiança indestrutível em si mesmo

(...)

ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Assírioe Alvim, Porto, 2014, p. 33.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Amar aqui é amar no mar

 

Praia da Rocha


ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Assírioe Alvim, Porto, 2014, p. 94.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

As casas

Algumas existem dentro de nós. Por isso escolhemos 

As suas dimensões para que sejam os outros 

A habitá-las também.


GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 11.

domingo, 1 de junho de 2025

O caminho

Aquilo que esqueceste pode tornar-se agora 

No que conheces. Por vezes, as mãos recebem

Uma outra luz. Não sabes bem se esperasse

Pela sua claridade que depois se apaga

Como se já não fosse necessária. Diante de ti

Ficam ruas por onde nunca passaste, as praias

Que não conheces sequer. Assim se fecharam

Os teus olhos. Estas são imagens perdidas,

Mas ainda vês as ondas inexistentes, um caminho

Que recordas apenas. Por isso estás mais perto.


GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 92.

sábado, 31 de maio de 2025

As árvores


ÉVORA

... Abriram na terra esse lugar 

Para que a sombra chegasse depois. E deram-nos

O que nas árvores se fecha em si mesmo, o seu cerne. Ali

encontraremos o que era a dureza vegetal, uma outra 

inclinação, a que vem ter connosco. Assim passaram

os anos. Dentro das árvores também envelhecemos


GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 52. 

sexta-feira, 30 de maio de 2025

O sangue, a luz: um coração

Repetidamente escrevo a letras de água a

Imprecisa memória de estar e de ter estado 


Digo palavras, digo lugares de domínio e servidão:

estreitíssimo fio de frágeis elos cuja sombra indistinta 

me une - e me separa- à indelével página do mundo


sou o que fica escrito no caminho

as palavras que deixo espalhadas pelo tempo

abandonadas ao pó  do que de mim resta 

subtil ruína envolta em névoa


O teu nome

um caudaloso rio fluindo eternamente por entre os dias

até mim


Envolto na teia de húmidos brilhos que é o teu amor

escrevo e reescrevo a esbatidas sílabas o que foi já:

meras gotículas de que é feita a noite adormecida

cinza e lumes de palavras perdidas ardendo para sempre

o teu corpo

Ainda um barco no mar de prata que é o

Sol reflectido nas águas:

Penumbra e luz

(...)

Que líquida geografia é o teu amor


podias ser se quisesses o meu nome ainda

o espaço em que lento me movo lento e repartido 

entre pedaços de lume transparente 


mas sejas no fim o que nós formos, ruína ou água 

partilharemos sempre palavras de fogo nas mãos a arder

dentro do frio diamante acesso que é o coração a sangrar luz.


RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, pp. 61-62.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Uma porta, um rosto




Ilhas, Arraiolos 


Há uma porta que se abre a meio do poema

Para sair e amar e não a sei


Por isso morre o poema chegado o fim do verso

em que o teu rosto se fechou a meio do poema 


que chave para essa porta abrindo a manhã do mundo?


abre-se no verso uma janela e o poema respira

Abre-se no amor uma porta e o poema expande-se


soubesse eu a sílaba que abre o teu rosto à luz

e o labiríntico poema teria um fim


mas no perdido verso fecha-se o teu nome

e comigo dentro o poema morre.

RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 73.


domingo, 25 de maio de 2025

Desculpas

As desculpas são

Um penso rápido.


A ferida continua lá, 

por baixo.


ainda dói, 

mas parece mais limpa

Por fora.


REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 71.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Pormenores no crepúsculo



 Évora 

Há azul nas Ilhas











 Arraiolos

Gatos algarvios








 Portimão  - Alvor - Lagoa

Figuras típicas de Alvor






 

Pinturas "rupestres"


 Praia dos Careanos, Portimão 

Hortenses


 Évora 

Na praça ao final do dia


 Praça do Geraldo, Évora 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

De manhã se começa a pavonear


 Évora 

Acerca do ser

Um fruto cresce, mas ele também procura

A ausência, o sumo ao ficar derramado,

o odor que se perdeu desde o início. Abre-se

para o vazio e recebe as sementes,  o que não existe

ainda. À volta os gomos ou a polpa. Devagar 

chega a seiva e encontra-o. Depois há quem venha

colhê-lo. Amadureceu. É redondo. Na árvore 

oscila, acaba por cair. Dentro de si mesmo.

GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 72.