sexta-feira, 4 de julho de 2025

quinta-feira, 3 de julho de 2025

No silêncio da noite

Évora 


Quantas vezes a noite,

No silêncio do nosso quarto,

É uma boa conselheira,

para as coisas do coração.


E nos faz recordar,

Que nem sempre temos razão.


RODRIGUES, João de Deus, Como era linda a primavera!, Lisboa,  Edições Colibri, 2021, p. 13.

Um poema é o quê

Qualquer coisa de intermédio entre um antes

 de silêncio e um depois de silêncio.

Ou um rumor pesado de pedra. Deve ser.


Ou não.  Casulo intacto, pode existir 

Por si mesmo até ao fim. Cercado

Logo e sempre de silêncio, pois.

Só por momentos a lenta viagem 


Sonora a percorrer periferias da memória, 

Dos sentidos. Uno e concreto. Imóvel 

E puro. De carência e excesso. Precário 

Quão definitivo. Uma árvore 


Sem floresta, uma flor num jardim

Inexistente. Uma carta de pedra

Lançada ao mar. E quanto ao mais

Em poesia já tudo por Homero foi


Inventado. Cada poeta depois dele

Não fez mais que desinventar

O seu pedaço.

(...)


Branco,  Fernando de Castro in A mais frágil das moradas - poemas à memória de Eduardo Lourenço, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, p. 37.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

A linguagem universal

Praia da Rocha, Portimão 



O que dizemos é semelhante a uma praia. Unimos

 as palavras, suas leves ondas. Elas vêm ter connosco 

devagar, junto das algas, ainda com alguma areia 

até se tornarem límpidas.  Para quê dizer um pouco mais 

que isto: P(QvR)? Fica assim a linguagem cada vez mais distante ao ser por nós pensada? Talvez

Só para que se encontrem as letras entreabertas,

Altas, esperando o que seria o pólen,  a prometida

 abundância de uma afirmação  capaz de recordar-nos

A do amor. Olhemos à nossa volta: nesta pedra 

Humedecida acaba uma das sílabas, a margem dividida

Do mesmo mar, ele que se torna igual a um conhecimento 

Total, completo, o olhar sapiente, aquela seara

que acompanha  um gesto, espuma também ou as verdades

suficientes. Foi assim no princípio,  quando o sono procura 

os seus passos dentro de nós. Este o rumor 

Da linguagem que se diz universal,  o cálculo, simples

inventário que se transforma para que fique

destruído. Depois é a última voz que chega, isto, o silêncio.


GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 19.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Arco-íris


Évora 

Queria que o meu olhar namorasse o teu

Queria que o meu olhar namorasse o teu

Dançando no balanceio de o ver embalar 

Pelos cantos dos meus dias aos contos do teu noitar

levar lá essa coisa de trocarmos o tu e o eu

Levar-me, meu bem, a quem te traz 

trazer-te, num vai e vem, tanto faz.


queria que o meu verso conquistasse o teu

semeando o namoro de o poder rimar

pelos sonos do meu dormir aos donos do teu sonhar

Traçar lá essa pauta  para tocarmos o tu e eu


Levar-me, meu bem, a quem te traz

Trazer-me, num vai e vem, tanto faz.


Queria que o meu sonho beijasse o teu

Valendo a alegria de o deixar voar

Pelos ventos do meu dizer às artes do teu cantar 

Soltar lá essa nota para cantarmos tu e eu.

Levar-me, meu bem, a quem te traz

Trazer-te, num vai e vem, tanto faz.


ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa,  Guerra e Paz Editores, 2022,  p. 58


As nuvens

Portimão 



As nuvens passam cuidadosamente.

Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?

Um cicio brando, um murmurar, um fluído 

e ténue perpassar de pétalas molhadas, 

Como flores que abriram no silêncio de outras.


SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 57.


Era

Era bela,

Jóia,

Querida

Mas nunca deixei de ser colorida...

Adorei a tua companhia

Mas sentia-me desiludida

Contei-te tanto da minha vida

Queria aprender a ser namorada 

Mas nem Sintra te despertou dessa letargia...

Vou sentir a tua falta

Do carinho, desabafos e conversas 

Mas tudo tem um fim...

Eu não queria que fosse assim

Mas tu nem um bocadinho assim

Lutaste por mim


Pt

sábado, 28 de junho de 2025

Arte no tecto














Os tectos das várias salas do Palácio de Queluz 

Tu és...

Tu és o meu primeiro 

amor, beijo, abraço!

Fazes a minha noite dia

Depois de há anos ter conhecido a tua magia

Descubro o teu respirar

Fico em letargia

A adorar-te...

Esperei imensos dias

Julguei que te transformarias 

num sonho bom...

Afinal, a realidade prega partidas 

Conhecer esta nova fase 

Surpreende-me

E nem consigo rimar na poesia

Apenas rumar para o mar

Para perceber no que isto vai dar...

Consegues sempre me deixar 

Sem saber como reagir 

Consigo estar mais atrevida

Mas quando gosto 

O nó no pescoço 

Teima em aparecer

Esta ingenuidade nunca vai me largar?

Receio a tua fuga?

Ou avaliar

Que afinal gostas um bocadinho de mim?

Xpto 

És mesmo um diabinho lindo

Tu és a bomba atómica da minha vida!



sexta-feira, 27 de junho de 2025

O tempo do mar, é o da eternidade


Praia da Rocha 

BUENO, A. B., O sentido litoral, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, p. 25.