sexta-feira, 4 de julho de 2025
Metáforas
As metáforas devoram as metáforas
Mas nunca ninguém dirá
Aqui
ou ali.
porque o teu reino é no adverso e no inverso
e só aí
o vento o verbo um verso.
ALEGRE, Manuel, Livro do português errante, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2022, p. 16.
quinta-feira, 3 de julho de 2025
No silêncio da noite
Quantas vezes a noite,
No silêncio do nosso quarto,
É uma boa conselheira,
para as coisas do coração.
E nos faz recordar,
Que nem sempre temos razão.
RODRIGUES, João de Deus, Como era linda a primavera!, Lisboa, Edições Colibri, 2021, p. 13.
Um poema é o quê
Qualquer coisa de intermédio entre um antes
de silêncio e um depois de silêncio.
Ou um rumor pesado de pedra. Deve ser.
Ou não. Casulo intacto, pode existir
Por si mesmo até ao fim. Cercado
Logo e sempre de silêncio, pois.
Só por momentos a lenta viagem
Sonora a percorrer periferias da memória,
Dos sentidos. Uno e concreto. Imóvel
E puro. De carência e excesso. Precário
Quão definitivo. Uma árvore
Sem floresta, uma flor num jardim
Inexistente. Uma carta de pedra
Lançada ao mar. E quanto ao mais
Em poesia já tudo por Homero foi
Inventado. Cada poeta depois dele
Não fez mais que desinventar
O seu pedaço.
(...)
Branco, Fernando de Castro in A mais frágil das moradas - poemas à memória de Eduardo Lourenço, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, p. 37.
quarta-feira, 2 de julho de 2025
A linguagem universal
Praia da Rocha, Portimão
O que dizemos é semelhante a uma praia. Unimos
as palavras, suas leves ondas. Elas vêm ter connosco
devagar, junto das algas, ainda com alguma areia
até se tornarem límpidas. Para quê dizer um pouco mais
que isto: P(QvR)? Fica assim a linguagem cada vez mais distante ao ser por nós pensada? Talvez
Só para que se encontrem as letras entreabertas,
Altas, esperando o que seria o pólen, a prometida
abundância de uma afirmação capaz de recordar-nos
A do amor. Olhemos à nossa volta: nesta pedra
Humedecida acaba uma das sílabas, a margem dividida
Do mesmo mar, ele que se torna igual a um conhecimento
Total, completo, o olhar sapiente, aquela seara
que acompanha um gesto, espuma também ou as verdades
suficientes. Foi assim no princípio, quando o sono procura
os seus passos dentro de nós. Este o rumor
Da linguagem que se diz universal, o cálculo, simples
inventário que se transforma para que fique
destruído. Depois é a última voz que chega, isto, o silêncio.
GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 19.
terça-feira, 1 de julho de 2025
segunda-feira, 30 de junho de 2025
Queria que o meu olhar namorasse o teu
Queria que o meu olhar namorasse o teu
Dançando no balanceio de o ver embalar
Pelos cantos dos meus dias aos contos do teu noitar
levar lá essa coisa de trocarmos o tu e o eu
Levar-me, meu bem, a quem te traz
trazer-te, num vai e vem, tanto faz.
queria que o meu verso conquistasse o teu
semeando o namoro de o poder rimar
pelos sonos do meu dormir aos donos do teu sonhar
Traçar lá essa pauta para tocarmos o tu e eu
Levar-me, meu bem, a quem te traz
Trazer-me, num vai e vem, tanto faz.
Queria que o meu sonho beijasse o teu
Valendo a alegria de o deixar voar
Pelos ventos do meu dizer às artes do teu cantar
Soltar lá essa nota para cantarmos tu e eu.
Levar-me, meu bem, a quem te traz
Trazer-te, num vai e vem, tanto faz.
ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2022, p. 58
As nuvens
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| Portimão |
As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluído
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
Como flores que abriram no silêncio de outras.
SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 57.
Era
Era bela,
Jóia,
Querida
Mas nunca deixei de ser colorida...
Adorei a tua companhia
Mas sentia-me desiludida
Contei-te tanto da minha vida
Queria aprender a ser namorada
Mas nem Sintra te despertou dessa letargia...
Vou sentir a tua falta
Do carinho, desabafos e conversas
Mas tudo tem um fim...
Eu não queria que fosse assim
Mas tu nem um bocadinho assim
Lutaste por mim
Pt
domingo, 29 de junho de 2025
sábado, 28 de junho de 2025
Tu és...
Tu és o meu primeiro
amor, beijo, abraço!
Fazes a minha noite dia
Depois de há anos ter conhecido a tua magia
Descubro o teu respirar
Fico em letargia
A adorar-te...
Esperei imensos dias
Julguei que te transformarias
num sonho bom...
Afinal, a realidade prega partidas
Conhecer esta nova fase
Surpreende-me
E nem consigo rimar na poesia
Apenas rumar para o mar
Para perceber no que isto vai dar...
Consegues sempre me deixar
Sem saber como reagir
Consigo estar mais atrevida
Mas quando gosto
O nó no pescoço
Teima em aparecer
Esta ingenuidade nunca vai me largar?
Receio a tua fuga?
Ou avaliar
Que afinal gostas um bocadinho de mim?
Xpto
És mesmo um diabinho lindo
Tu és a bomba atómica da minha vida!























































