A dor
Não me
Tornou
uma melhor pessoa.
não me
ensinou a não
tomar nada
como garantido.
não me ensinou nada
excepto como
ter medo
de amar alguém.
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 106.
A dor
Não me
Tornou
uma melhor pessoa.
não me
ensinou a não
tomar nada
como garantido.
não me ensinou nada
excepto como
ter medo
de amar alguém.
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 106.
De que precisa uma mulher
Além de segurança, como a mosca-do-mel, activa, na sua colmeia limpinha e bem fechada?
CLAUDEL, Paul, Partir a Meio Dia, Lisboa, Artistas Unidos, 2019, p. 57.
Bernardo Soares - PESSOA, Fernando, Tenho medo de partir - um livro de d, Lisboa, Guerra e Paz, 2018, p. 175.
Paço de Arcos
OEIRAS
CESARINY, Mário, As mãos na água, a cabeça no mar, Porto, Assírio e Alvim, 2015, p. 84.
A queda da ditadura portuguesa em 1974 foi inesperada e o processo de democratização caracterizoi-se por umacrise do Estado, intervenção militar na política e uma súbita rutura com o autoritarismo. Os fundamentos dos processos de dissolução e punição foram elaborados duranteo período de 1974-1975, quando o país era governado por executivos de coligação anti autoritários e chefiados por militares. Formas criminais, administrativas e históricos de justiça transicional dominaram o processo português, que foi mais semelhante ao das democratizaçãoes pós-1945, com uma combinação de saneamentos legais e "selvagens", estigmatização da elite política e policial do regime anterior e uma forte dinâmica politica e cultural antifascista.
...
O processo de justiça transicional que se desenvolveu durante perto de dois anos a seguir ao golpe de Estado afectou as instituições, a elite, os funcionários públicos e até o sector privado. A democratização portuguesa caracterizou-se por uma forte rutura com o passado, facilitada pela crise de Estado e pela radicalização política, enquanto a nova elite política e a sociedade civil pressionavampara a punição e a responsabilização
...
O saneamento de administrações de de empresas, tanto públicas como privadas, foi rapidamente transformado numa componente da acção colectiva, que assumia cada vez mais características anti-capitalistas, tomando Portugal o único exemplo de justiça transicional "redistribuitiva" na Europa do Sul.
Com o afastamento do poder dos militares simpatizantes do Partido Comunista e com a derrota da esquerda radical em 25 de Novembro de 1975, os saneamentos pararam quase imediatamente. Em poucos meses, os partidos moderados tinham total controlo da institucionalização da democracia. Com a vitória do Partido Socialista nas eleições legislativas de 1976, o discurso oficial dos dois governos constitucionais, liderados por Mário Soares, e do primeiro presidente eleito democraticamente, Ramalho Eanes, favoreceu a "reconciliação" e a "pacificação", moldando a forma como o Governo lidou com o legado da ditadura.
PINTO, António Costa (Org.), A Sombra das ditaduras - a Europa do Sul em comparação, Lisboa, ICS, 2013, pp. 31-32.
Chegam-me pensamentos,
Já não lhes sou desconhecida.
Como um campo faminto
Cresço, convertendo-me na sua sede.
ARENDT, Hannah, Poemas, s.l., Sr Teste Edições, 2020, p. 36.
A energia pura, olhar que só resume
O perfeito equilíbrio que se encontre
Na luz, na terra, na água, em qualquer corpo
Que sem pressa procurem este início
(...)
GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 108.
Eu só quero ser amada
Mas nenhum me deseja sequer uma boa Páscoa
Sinto-me ignorada
Quando é que me arracam a mágoa?
Não saberei nunca o sentido da palavra...
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| Portimão |
Não sei o que hei-de fazer com as nuvens.
O que me dizem são passagens rápidas
Sobre as cidades, e às vezes deixam chuva
Outras, sombras na paisagem.
JORGE, Lídia, O Livro das tréguas, Lisboa, Edições D. Quixote, 2019, p. 18.
Somente o olhar um pouco profundo
Deixando apenas decifrar nas suas formas
O pardo movimento da sua quietude
pulsam a vida viva contra o coração da casa
respirando o ar do coração do mundo
invadem-nos os sonhos noite adentro
e como pequeninos deuses desocupados
constroem-nos palavras na boca até amanhecer:
As que nunca diremos pela manhã
ensinam-nos a arte do silêncio
e da gratidão.
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 77.
Do mar da tua língua colho o sal
E deixo na acalmia e no teu corpo um sopro inerte
A volúpia veloz e musical de um voo raso
aqui da alma nada sei, das serenas águas
da forma como as mãos moldam o tempo
do obscuro comércio da felicidade e do segredo
Na tua língua agora sou o mar
E fora o vento volve o sol em nuvem
a folha em vento, o bosque em mar tranquilo
aqui nada sei desta paixão, do amor furtivo
da ave que de súbito cruza o corpo, o espaço límpido
a penumbra azul e pele em redor do olhar verde
do mar da tua língua colho o sal
músculo a músculo devagar abandono o fogo
e resto em cinza, em pó, em luz quieta
do brilho do teu rosto nada sei
do enigma que é o universo e o teu sorriso branco
penso no fim em nós, na serena morte vã
no que o tempo fará da luz diurna
do mar da tua língua colho o sal.
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 50.
Fernando Pinto do Amaral in RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 41.
Esse teu beijo
Húmido e saboroso
que me enlouquece...
Por mais inesperado
E rápido que seja!
Evoluí
Já não fugi
E adorei repetir
A perdição está se a aproximar
Já não é de amuralhar
Basta travessar
Xpto
Teus olhos deste: não queiras
Outra esperança, outras maneiras
Do amor buscado e perdido.
Olhando os corpos que passam,
olhando os olhos num lance
Em busca de outro relance
Da mesma sede... Não queiras
Prender-te aos gestos que façam.
Teus olhos deste: não queiras.
Logo depois é mais tarde,
Na sede sempre mais louca,
Nenhuma imagem não arde,
Todas se esfumam ligeiras,
Nada lembras... e é tão pouca
Outra esperança... outras maneiras!
Olhando os olhos num lance,
A vida entregas, vencido,
Em busca de outro relance
Do amor buscado e perdido.
SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 35.
Tempo
O arquitecto do acaso.
GUIMARÃES, João Luís Barreto, Movimento, Lisboa, Quetzal, 2020, p. 13.
MOURA, Vasco Graça, O Poema sobre o desastre de Lisboa de Voltaire, Lisboa, Aleteia Editores, 2005.
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 42.
(...) a História não tem que ver com opções políticas, não tem que ver com preto ou branco, mas sim com a verdade. É isso que os historiadores prezam (ou deviam prezar). E a verdade é que a história da escravatura foi feita sobretudo por brancos.
MARQUES, João Pedro, Combates pela verdade - Portugal e os escravos, Lisboa, Guerra e Paz, 2020, p.187.
Passarei por todos, até pelos que não li (sobretudo por esses) e direi, fechando os olhos como um livro
Que vou finalmente meditar no silêncio
No silêncio, que só vocês, livros me ensinaram.
Antes que o Tempo fosse
De dentro d'alma reinei
Numa vida antiga e doce.
Antes que o Tempo fosse
Vivi sem dor e amei.
Não sei a que forma vaga
Prendi esse meu amor.
Sei que ainda me embriaga
Remota imagem e vaga
Que vive na minha dor.
Recordo um sonho sonhado?
É sonho a recordação?
Não sei, ao meu ser cansado
Que importa o que foi sonhado,
Se o próprio real é ilusão?
PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 17.
Casa posta!
Casa porque casando sempre fica a vida mais arrumadinha,
E posta porque também da pescada é a posta que melhor cabe no congelador,
Casa posta.
E às vezes somos casa bem-posta.
E quando assim é
Ficamos bem dispostas.
Procura casa?
Por acaso. É cara?
Minha cara,
É que precisamos mesmo
de ser preenchidas pelas criaturas
porque são elas que nos aguentam em pé
A fumar cachimbo pela chaminé.
CALDAS, Miguel Castro, Casas, Lisboa, Artistas Unidos, 2007, p. 45.
É difícil guardar o coração inteiro.
É difícil não ser amado.
É difícil estar só.
É difícil espe-rar!
É aguentar e aguardar e a-guardar ainda
E sempre!
E eis-me nesta hora do meio-dia em que se vê tanto o que está tão perto, tão perto,
Que nada mais se vê!
CLAUDEL, Paul, Partir a meio dia, Lisboa, Artistas Unidos, 2019, p. 36
Eu não estou a viver o momento,
Pertence ao passado, está escrito.
CALDAS, Miguel Castro, Comida, Lisboa, Artistas Unidos, 2008, p. 13.