domingo, 11 de maio de 2025

A dor

Não me

Tornou

uma melhor pessoa.

não me

ensinou a não 

tomar nada

como garantido.

não me ensinou nada

excepto como

ter medo

de amar alguém.



LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 106.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

De que precisa uma mulher?

De que precisa uma mulher 

Além de segurança,  como a mosca-do-mel, activa, na sua colmeia limpinha e bem fechada?


CLAUDEL, Paul, Partir a Meio Dia, Lisboa, Artistas Unidos, 2019, p. 57.

sábado, 3 de maio de 2025

Não desembarcar



Não desembarcar não tem cais onde se desembarque. Nunca chegar implica não chegar nunca.

Bernardo Soares  - PESSOA, Fernando, Tenho medo de partir - um livro de d, Lisboa, Guerra e Paz, 2018, p. 175.


Ondulação


 Praia dos Três Castelos, Portimão 

quarta-feira, 30 de abril de 2025

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa


Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é uma quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar  liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães.  Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver de um homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro - nunca sairá um escravo.
Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa.

 CESARINY, Mário, As mãos na água, a cabeça no mar, Porto, Assírio e Alvim, 2015, p. 84.



25 de Abril, quinta-feira















Casa da Cidade, Almada
2024

quinta-feira, 24 de abril de 2025

A queda da ditadura portuguesa

A queda da ditadura portuguesa em 1974 foi inesperada e o processo de democratização caracterizoi-se por umacrise do Estado, intervenção militar na política e uma súbita rutura com o autoritarismo.  Os fundamentos dos processos de dissolução e punição foram elaborados duranteo período de 1974-1975, quando o país era governado por executivos de coligação anti autoritários e chefiados por militares.  Formas criminais, administrativas e históricos de justiça transicional dominaram o processo português, que foi mais semelhante ao das democratizaçãoes pós-1945, com uma combinação de saneamentos legais e "selvagens", estigmatização  da elite política e policial do regime anterior e uma forte dinâmica  politica e cultural antifascista.

...

O processo de justiça transicional que se desenvolveu durante perto de dois anos a seguir ao golpe de Estado afectou as instituições, a elite, os funcionários públicos e até o sector privado.  A democratização portuguesa caracterizou-se por uma forte rutura com o passado, facilitada pela crise de Estado e pela radicalização política,  enquanto a nova elite política e a sociedade civil pressionavampara a punição e a responsabilização 

...


O saneamento de administrações de de empresas, tanto públicas como privadas, foi rapidamente transformado numa componente da acção colectiva, que assumia cada vez mais características anti-capitalistas, tomando Portugal o único exemplo de justiça transicional "redistribuitiva" na Europa do Sul.

Com o afastamento do poder dos militares simpatizantes do Partido Comunista e com a derrota da esquerda radical em 25 de Novembro de 1975, os saneamentos pararam quase imediatamente.  Em poucos meses, os partidos moderados tinham total controlo da institucionalização da democracia. Com a vitória do Partido Socialista nas eleições legislativas de 1976, o discurso oficial dos dois  governos constitucionais,  liderados por Mário Soares, e do primeiro presidente eleito democraticamente, Ramalho Eanes, favoreceu a "reconciliação" e a "pacificação", moldando a forma como o Governo lidou com o legado da ditadura.

 PINTO, António Costa (Org.), A Sombra das ditaduras - a Europa do Sul em comparação, Lisboa, ICS, 2013, pp. 31-32.

Chegam-me pensamentos

Chegam-me pensamentos,

Já não lhes sou desconhecida.

Como um campo faminto

Cresço, convertendo-me na sua sede.



ARENDT, Hannah, Poemas, s.l., Sr Teste Edições, 2020, p. 36.

domingo, 20 de abril de 2025

Deus

A energia pura, olhar que só resume

O perfeito equilíbrio que se encontre

Na luz, na terra, na água, em qualquer corpo 

Que sem pressa procurem este início


(...)

GUIMARÃES, Fernando, Junto à pedra, Santa Maria da Feira, Edições Afrontamento, 2018, p. 108.

sábado, 19 de abril de 2025

Que palavra é essa? Amada

Eu só quero ser amada 

Mas nenhum me deseja sequer uma boa Páscoa 

Sinto-me ignorada

Quando é que me arracam a mágoa?

Não saberei nunca o sentido da palavra...

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Nuvens

Portimão 


Não sei o que hei-de fazer com as nuvens. 

O que me dizem são passagens rápidas 

Sobre as cidades, e às vezes deixam chuva

Outras, sombras na paisagem.


JORGE, Lídia, O Livro das tréguas, Lisboa, Edições D. Quixote, 2019, p. 18.

Casinhas cada vez mais raras

Rua Infante D. Henrique 


 Portimão 

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Gatos



Não têm qualquer mistério, os gatos 

Somente o olhar um pouco profundo 

Deixando apenas decifrar nas suas formas 

O pardo movimento da sua quietude


pulsam a vida viva contra o coração da casa

respirando o ar do coração do mundo


invadem-nos os sonhos noite adentro

e como pequeninos deuses desocupados 

constroem-nos palavras na boca até amanhecer:


As que nunca diremos pela manhã 


ensinam-nos a arte do silêncio 

e da gratidão.


RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 77.

Ave de amor diurno

Do mar da tua língua colho o sal

E deixo na acalmia e no teu corpo um sopro inerte

A volúpia veloz e musical de um voo raso


aqui da alma nada sei, das serenas águas 

da forma como as mãos moldam o tempo

do obscuro comércio da felicidade e do segredo 


Na tua língua agora sou o mar

E fora o vento volve o sol em nuvem

a folha em vento, o bosque em mar tranquilo 


aqui nada sei desta paixão, do amor furtivo

da ave que de súbito cruza o corpo, o espaço límpido 

a penumbra azul e pele em redor do olhar verde 


do mar da tua língua colho o sal

músculo a músculo devagar abandono o fogo

e resto em cinza, em pó, em luz quieta


do brilho do teu rosto nada sei

do enigma que é o universo e o teu sorriso branco


penso no fim em nós, na serena morte vã

no que o tempo fará da luz diurna 


do mar  da tua língua colho o sal.

RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 50.

E o que é mais importante, o amor, nasce e morre sozinho

Fernando Pinto do Amaral in RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 41.

Beijo

Esse teu beijo

Húmido e saboroso 

que me enlouquece...

Por mais inesperado

E rápido que seja!

Evoluí

Já não fugi

E adorei repetir

A perdição está se a aproximar 

Já não é de amuralhar

Basta travessar


Xpto 


quarta-feira, 9 de abril de 2025

Vilancete

Teus olhos deste: não queiras

Outra esperança, outras maneiras 

Do amor buscado e perdido.


Olhando os corpos que passam,

olhando os olhos num lance

Em busca de outro relance

Da mesma sede... Não queiras

Prender-te aos gestos que façam.

Teus olhos deste: não queiras.


Logo depois é mais tarde,

Na sede sempre mais louca,

Nenhuma imagem não arde,

Todas se esfumam ligeiras,

Nada lembras... e é tão pouca

Outra esperança... outras maneiras!


Olhando os olhos num lance,

A vida entregas, vencido,

Em busca de outro relance

Do amor buscado e perdido.


SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 35.

sábado, 5 de abril de 2025

A viagem das gravatas




 Exposição de Maria José Paixão na Biblioteca Pública de Évora 

Tempo

Tempo

O arquitecto do acaso.


GUIMARÃES, João Luís Barreto, Movimento, Lisboa, Quetzal, 2020, p. 13.


quinta-feira, 3 de abril de 2025

A morte ninguém quer, ninguém quer renascer

MOURA, Vasco Graça, O Poema sobre o desastre de Lisboa de Voltaire, Lisboa, Aleteia Editores, 2005.

terça-feira, 1 de abril de 2025

O silêncio sempre tem sido o meu grito mais alto

LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 42.

A História, a Verdade e a Escravatura

(...) a História não tem que ver  com opções políticas, não tem que ver com preto ou branco, mas sim com a  verdade. É  isso que os historiadores prezam (ou deviam prezar). E a verdade é que a história da escravatura foi feita sobretudo por brancos.

MARQUES, João Pedro, Combates pela verdade - Portugal e os escravos, Lisboa, Guerra e Paz, 2020, p.187.

Um livro

Passarei por todos, até pelos que não li (sobretudo por esses) e direi, fechando os olhos como um livro

Que vou finalmente meditar no silêncio 

No silêncio, que só vocês, livros me ensinaram.


TORRADO, António, Das coisas interiores, Lisboa, Glaciar, 2022, p. 228.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Real - ilusão

Antes que o Tempo fosse

De dentro d'alma reinei

Numa vida antiga e doce.

Antes que o Tempo fosse 

Vivi sem dor e amei.


Não sei a que forma vaga

Prendi esse meu amor.

Sei que ainda me embriaga

Remota imagem e vaga

Que vive na minha dor.


Recordo um sonho sonhado?

É sonho a recordação?

Não sei, ao meu ser cansado

Que importa o que foi sonhado,

Se o próprio real é ilusão?


PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 17.

sábado, 22 de março de 2025

Temos de ter


Temos de ter
Uma política de revolução 
A liberdade não pode existir
Enquanto os mais desprotegidos não forem livres 


KAUR, Rupi, Corpo casa, Alfragide, Lua de Papel, 2021, p. 144.

Mar a tocar a linha


 Linha do Estoril

sexta-feira, 21 de março de 2025

quinta-feira, 20 de março de 2025

Casa posta

Casa posta!

Casa porque casando sempre fica a vida mais arrumadinha,

E posta porque também da pescada é a posta que melhor cabe no congelador,

Casa posta.

E às vezes somos casa bem-posta.

E quando assim é

Ficamos bem dispostas.


Procura casa?


Por acaso. É cara?


Minha cara,


É que precisamos mesmo

de ser preenchidas pelas criaturas 

porque são elas que nos aguentam em pé

A fumar cachimbo pela chaminé.


CALDAS, Miguel Castro, Casas, Lisboa, Artistas Unidos, 2007, p. 45.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Feliz Dia do Pai


(E especialmente ao meu que está no Céu,  ao lado de São José)

 Igreja de São Francisco de Évora 

domingo, 16 de março de 2025

É difícil...

É difícil guardar o coração inteiro.

É difícil não ser amado.

É difícil estar só.

É difícil espe-rar!

É aguentar e aguardar e a-guardar ainda

E sempre!

E eis-me nesta hora do meio-dia em que se vê tanto o que está tão perto, tão perto,

Que nada mais se vê! 



CLAUDEL, Paul, Partir a meio dia, Lisboa, Artistas Unidos, 2019, p. 36

Eu não estou a viver o momento

Eu não estou a viver o momento, 

Pertence ao passado, está escrito. 


CALDAS, Miguel Castro, Comida, Lisboa, Artistas Unidos, 2008, p. 13.