sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Ditoso seja

Ditoso seja aquele que somente 

Se queixa de amorosas esquivanças,

Pois por elas não perde as esperanças 

De poder nalgum tempo ser contente.


Ditoso seja quem, estando ausente,

Não sente mais que a pena das lembranças,

Porque, inda que se tema de mudanças,

Menos se teme a dor quando se sente.


Ditoso seja, enfim, qualquer estado 

Onde enganos, desprezos e isenção 

Trazem o coração atormentado.


Mas triste quem se sente magoado

De erros em que não pode haver perdão,

Sem ficar na alma a mágoa do pecado.


Andrade, Eugénio, Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 23.

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