terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Nada
Afastar-me da multidão
Entrar num quarto vazio
e de repente esquecer o porquê de
Ali ter ido, para começar.
Não fazer nada
parar
puxar pela cabeça em busca de sinais
à espera que me digam o que fazer.
No lado receptor do rádio
estático.
Vaguear por aí, em passo lento
a tentar estimular o cérebro para
que se lembre da ordem.
Permitir que os meus olhos pousem em todas
as peças de tecido no armário.
Olhar os cabelos finos junto
ao cimo da cabeça no
espelho da casa-de-banho.
Nada.
REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 115.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
A maré nunca pára
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| Cascais |
A maré nunca pára
Para
Repousar
BUENO, A. B., O sentido litoral, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, pp. 87.
Dias de solidão
Tive dias de solidão
Em que quase nada disse
porque não tinha com quem conversar.
O som da minha própria
voz espantava-me,
Lembrando-me
De que não sou um fantasma
Que flutua pela cidade
E passa despercebido.
Eu estava lá,
Silenciosamente desligada, apenas
com a voz na minha cabeça
a tornar-me mais familiar
que qualquer dos rostos
ao meu redor.
REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 157.
domingo, 28 de dezembro de 2025
sábado, 27 de dezembro de 2025
Estou absolutamente farta
Estou absolutamente farta
De todos
Me dizerem
que forte
que sou.
eu?
forte?
apenas finjo ser forte
porque é
a única distração
que tenho dos
pensamentis sobre
a minha inevitável
vida sem mãe.
- uma pena disfarçada de aço.
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 76.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Como posso existir sem ela?
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 79.
Sou hoje minha própria sepultura
Sou hoje minha própria sepultura.
Tenho deserto e alheio o coração.
PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 105.
A vida se estilhaça
...
Dos comboios que chegam
Como os invernos
hoje não haverá sol
apenas chuva
chuva e muito vento
E eu que me nego a pensar nisto
Vou aprendendo como a vida se
Estilhaça muito mais
SOUTO, António, hoje não haverá sol, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 102.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
Olhei pelas margens do anoitecer
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| Rio Tejo |
Olhei pelas margens do anoitecer
Numa conversa com o mar
Com jeitos de o olhar
Devagarinho.
(...)
Conversei com o mar
Ou talvez com o rio
Chegado a esse cheiro que demora
Que nos abraça e nos namora
Já por esse cheiro que será saudade
Rio, mar e cidade.
ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2022, p. 16.
Mercado de Natal
Em redor das mãos
Ouve
O tempo bate como um coração puro
Deixa que o odor velho do barro se misture com a noite
Enquanto a água em silêncio envolve os séculos
Pelo limo do mármore
Desliza ao fundo o barco abrindo água
O tempo imperceptível
E deixa ainda que a palavra repouse no teu colo
Enquanto em cima a noite explode
E as madrugadas navegam nas artérias todos os lugares
Os canais fluidos do amor
Agora que a manhã absorve os primeiros sussurros do fogo
E sobre as águas a morte sobrevém
Os corpos constroem no suor a última Atlântida
De pedra e água
Passa por nós a vida e apenas restam marcas
Alguns vestígios no olhar
Passa por nós o tempo e restam os amigos
Sempre iguais
Esqueceste o teu rosto de perfil para a noite
Onde efémeros lugares habitam a memória
E eu revejo interminavelmente todos os nomes
O teu olhar roubou pequenos brilhos às estrelas
Olho em redor das mãos
Sorris
E à nossa volta é tudo só vestígios.
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, pps. 20-21.
Sempre que chorares, nascerás uma outra vez
COUTO, Mia, Tradutor de chuvas, 3.a edição, Alfragide, Editoral Caminho, p. 23.


















































