Cascais
PESSOA, Fernando, Tenho medo de partir - um livro de viagens, Lisboa, Guerra e Paz, 2018, p. 60.
Cascais
PESSOA, Fernando, Tenho medo de partir - um livro de viagens, Lisboa, Guerra e Paz, 2018, p. 60.
Ditoso seja aquele que somente
Se queixa de amorosas esquivanças,
Pois por elas não perde as esperanças
De poder nalgum tempo ser contente.
Ditoso seja quem, estando ausente,
Não sente mais que a pena das lembranças,
Porque, ainda que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.
Ditoso seja, enfim, qualquer estado
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem o coração atormentado.
Mas triste quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão,
Sem ficar na alma a mágoa do pecado.
Andrade, Eugénio, Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 23.
Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.
PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 110.
Mas a vida é tão pequena,
Que cura posso ter
Se o amor
Foi em mim
A mais doce doença?
COUTO, Mia, Tradutor de chuvas, 3.a edição, Alfragide, Editoral Caminho, p. 39.
Quero, terei -
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.
PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 97.
O luxo que ostenta
Sempre que posso
É a opulência da praia
quando é
só minha
(...)
BUENO, A. B., O sentido litoral, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, p. 46.
Avança na doçura,
Vem ao meu lado até que as digitais
Folhas dos violinos
Se tenham calado, até que os musgos
ganhem raíz no trovão, até que do pulsar
de mão e mão as raízes baixem.
NERUDA, Pablo, Poemas de amor, Lisboa, 2.a edição, Publicações D. Quixote, 2019, p. 87-89.
... O futuro era só mais uma história que
Me tinham ensinado a ler antes de tempo e
Sempre com silêncios diferentes entre
Cada parágrafo
VIEIRA, Alice, Os armários da noite, Alfragide, Editoral Caminho, 2014, p. 22.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança,
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança,
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
Andrade, Eugénio, Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 48.
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| Praia de São Francisco, Santiago - Cabo Verde |
Há muito pouco para além da
Vida perpetuamente reiterada na
Escuma que desmaia na
praia
as arribas dão-nos uma outra
imagem do mar que criámos
Ora azul ora verde
Ora cinzento
Quando cai a noite e lhe
voltamos as costas e sacudimos a
areia toda e aconchegamos o
corpo na maresia que
resta como mortalha
SOUTO, António, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 104.
Nomeei-te rainha.
Há maiores do que tu, maiores.
Há mais puras do que tu, mais puras.
Há mais belas do que tu, há mais belas.
Mas tu és a rainha.
Quando andas pelas ruas
Ninguém te reconhece.
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém olha
A passadeira de ouro vermelho
Que pisas quando passas,
A passadeira que não existe.
E quando surges
Todos os rios se ouvem
No meu corpo, sinos
fazem estremecer o céu,
enche-se o mundo com um hino.
Só tu e eu,
só tu e eu, meu amor,
o ouvimos.
NERUDA, Pablo, Poemas de amor, Lisboa, 2.a edição, Publicações D. Quixote, 2019, p. 13.
Mas já aprendi que, sorrindo, me liberto
E tão perto me fica o que está distante
quando me chegas, forrado a instinto
nesse teu tom tão elegante...
Quando me trazem a madrugada
E me levas, num tudo nada
ao que senti e ainda sinto
por estes becos de abraços e de abrigo
em que sossegava contigo.
Por isso te sorrio
do fundo da nossa promessa secreta
e na metade cheia do nosso rio
vou chamar aquele nosso poeta
Para ele te levar
Nesses olhos que vêm do mar
Um beijo com cheiro e do tamanho
Da nossa rua com flores de jacarandá.
Essa mesma, no nosso outro lado de cá.
Olha, já vai longa a carta...
Fui ao espelho do mar
E vi as águas do céu.
O meu dormir, mérito teu,
Vai ser hoje mais bonito e leve.
Até breve...
ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboa andando, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2022, p.p. 26-27.
I. Tu irás
Cruzar-te com pessoas
Que simplesmente não conseguirão esperar
para te ver falhar.
II. vão existir muitas vezes
nas quais tu
vais falhar
(Miseravelmente),
III. mas os teus falhanços
são apenas coisas que acontecem -
Eles não têm de ser
Quem tu és.
IV. Tudo o que podes fazer
é pegar nesses erros
E usá-los como fertilizante
Para te ajudar a crescer.
V. Tu tens de
Caminhar sempre em frente
A ignorar tudo
O que as vozes disserem.
- esta vida ainda vale a pena ser vivida.
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 188.
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 93.
COUTO, Mia, Tradutor de chuvas, 3.a edição, Alfragide, Editoral Caminho, p. 74
É estranho ver o mundo
A avançar
Quando te levam
Alguém que amas.
O pequeno espaço em teu redor
fica enredado,
paralisado num momento
de perda e choque.
As pessoas que passam, contudo
continuam no seu
ritmo normal.
Não sentiram a terra
tremer? Nem abrandar?
conseguirão ouvir os gritos
dos meus pensamentos?
O seu nome.
O seu rost
REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 233.
A vida é tudo o que nós temos e quase nada é
Não mais que uma breve eternidade um longo esquecimento
Um ombro desejado num ansiado corpo de partilha
Nada se sabe para lá da vida
mesmo se é ela que nos apresente à morte
e a morte é tudo o que nos resta e quase nada é
não mais que a incerta sombra
sombra numa esquecida memória:
a longínqua lembrança do que já não está.
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 85.
Os anjos, pelo som da voz, conhecem o amor de um homem; pela articulação do som, a sua sabedoria e, pelo sentido das palavras, a sua ciência.
SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 22.
Há ocasiões em que ao final do
Dia pouco sobra para além das mãos que
Nos despem a roupa por caridade e nos
apagam a luz
Há ocasiões em que o balanço sabe a
nada ou sabe a nojo e o amanhã fica
refém de uma véspera de sargeta
Há ocasiões em que o sol se deixa
abraçar ao contrário e nos ensombra a
alma em entardeceres sucessivos
Há ocasiões em que o quebranto adormece
connosco e desaprende de
despertar
Há ocasiões
SOUTO, António, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 74.
Afastar-me da multidão
Entrar num quarto vazio
e de repente esquecer o porquê de
Ali ter ido, para começar.
Não fazer nada
parar
puxar pela cabeça em busca de sinais
à espera que me digam o que fazer.
No lado receptor do rádio
estático.
Vaguear por aí, em passo lento
a tentar estimular o cérebro para
que se lembre da ordem.
Permitir que os meus olhos pousem em todas
as peças de tecido no armário.
Olhar os cabelos finos junto
ao cimo da cabeça no
espelho da casa-de-banho.
Nada.
REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 115.