sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Janela da torre


 Torre do castelo de Beja

Arribas algarvias





 Carvoeiro 

Ditoso seja

Ditoso seja aquele que somente 

Se queixa de amorosas esquivanças,

Pois por elas não perde as esperanças 

De poder nalgum tempo ser contente.


Ditoso seja quem, estando ausente,

Não sente mais que a pena das lembranças,

Porque, ainda que se tema de mudanças,

Menos se teme a dor quando se sente.


Ditoso seja, enfim, qualquer estado 

Onde enganos, desprezos e isenção 

Trazem o coração atormentado.


Mas triste quem se sente magoado

De erros em que não pode haver perdão,

Sem ficar na alma a mágoa do pecado.


Andrade, Eugénio, Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 23.

Lume de chão


 Évora 

Despedindo das festas





 Évora 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Gaivota na arriba


 Praia dos 3 Castelos - Portimão 

Então desperto do sonho

Então desperto do sonho

E sou alegre da luz,

Inda que em dia tristonho;

Porque o limiar é medonho

E todo passo é uma cruz.


PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos,  Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 110.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Causa espanto o meu amor




Mas a vida é tão pequena,

Bela sobre toda a flor!
- tão pequena para amar-te...
E em toda a parte
Causa espanto o meu amor.

Fernando Pessoa



Reflexos no Oriente


 Vestígios da exposição universal de 1998, em Lisboa 

Que cura posso ter

Que cura posso ter

Se o amor

Foi em mim

A mais doce doença?


COUTO, Mia, Tradutor de chuvas, 3.a edição, Alfragide, Editoral Caminho, p. 39.

Quero, terei

Quero, terei -

Se não aqui,

Noutro lugar que inda não sei.

Nada perdi.

Tudo serei.


PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos,  Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 97.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Reflexos em noite de festa




Rio Arade na passagem de ano de 2025 para 2026

O meu luxo



Praia de São Francisco da ilha de Santiago 



O luxo que ostenta

Sempre que posso 

É a opulência da praia

quando é

só minha

(...)


BUENO, A. B., O sentido litoral, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, p. 46.


Avança

Avança na doçura,

Vem ao meu lado até que as digitais 

Folhas dos violinos

Se tenham calado, até que os musgos

ganhem raíz no trovão, até que do pulsar

de mão e mão as raízes baixem.



NERUDA, Pablo, Poemas de amor, Lisboa, 2.a edição, Publicações D. Quixote, 2019, p. 87-89.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026


 

Vamos lá ver se este ano vamos ter os pés assentes na terra


 Jardim Marechal Carmona de Cascais


 

Brilhante a passagem de ano


 Portimão

Mar







 

Quanto tempo o tempo tem?



FUNDAÇÃO EUGÉNIO DE ALMEIDA 


 

O futuro

... O futuro era só mais uma história que

Me tinham ensinado a ler antes de tempo e

Sempre com silêncios diferentes entre

Cada parágrafo


VIEIRA, Alice, Os armários da noite, Alfragide, Editoral Caminho, 2014, p. 22.

Mudanças

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança,

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança,

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E, em mim, converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.


Andrade, Eugénio, Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 48.


 

Ocaso


Praia de São Francisco, Santiago - Cabo Verde


Há muito pouco para além da

Vida perpetuamente reiterada na

Escuma que desmaia na

praia


as arribas dão-nos uma outra

imagem do mar que criámos

Ora azul ora verde


Ora cinzento

Quando cai a noite e lhe

voltamos as costas e sacudimos a

areia toda e aconchegamos o

corpo na maresia que

resta como mortalha

SOUTO, António, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 104.

Tu és a Rainha

Nomeei-te rainha.

Há maiores do que tu, maiores.

Há mais puras do que tu, mais puras.

Há mais belas do que tu, há mais belas.


Mas tu és a rainha.


Quando andas pelas ruas

Ninguém te reconhece.

Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém olha

A passadeira de ouro vermelho 

Que pisas quando passas,

A passadeira que não existe.


E quando surges

Todos os rios se ouvem

No meu corpo, sinos

fazem estremecer o céu,

enche-se o mundo com um hino.


Só tu e eu,

só tu e eu, meu amor,

o ouvimos.


NERUDA, Pablo, Poemas de amor, Lisboa, 2.a edição, Publicações D. Quixote, 2019, p. 13.

Sorrindo, me liberto


Mas já aprendi que, sorrindo, me liberto

E tão perto me fica o que está distante 

quando me chegas, forrado a instinto

nesse teu tom tão elegante...

Quando me trazem a madrugada 

E me levas, num tudo nada 

ao que senti e ainda sinto

por estes becos de abraços e de abrigo

em que sossegava contigo.

Por isso te sorrio

do fundo da nossa promessa secreta

e na metade cheia do nosso rio

vou chamar aquele nosso poeta 

Para ele te levar

Nesses olhos que vêm do mar

Um beijo com cheiro e do tamanho 

Da nossa rua com flores de jacarandá.

Essa mesma, no nosso outro lado de cá.

Olha, já vai longa a carta...

Fui ao espelho do mar 

E vi as águas do céu.

O meu dormir, mérito teu,

Vai ser hoje mais bonito e leve.

Até breve...


ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboa andando, Lisboa,  Guerra e Paz Editores, 2022,  p.p. 26-27.

Tu irás...

 I. Tu irás 

Cruzar-te com pessoas

Que simplesmente não conseguirão esperar

para te ver falhar.


II. vão existir muitas vezes

nas quais tu

vais falhar

(Miseravelmente),


III. mas os teus falhanços

são apenas coisas que acontecem  - 

Eles não têm de ser

Quem tu és. 


IV. Tudo o que podes fazer

é pegar nesses erros

E usá-los como fertilizante

Para te ajudar a crescer.


V. Tu tens de

Caminhar sempre em frente

A ignorar tudo

O que as vozes disserem.


- esta vida ainda vale a pena ser vivida.


 LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 188.


 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Praia no último dia do ano


 Praia dos 3 Castelos 

Todos aqueles que amo vão embora

LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 93.

A noite é escassa para tanta saudade

COUTO, Mia, Tradutor de chuvas, 3.a edição, Alfragide, Editoral Caminho, p. 74

Quando te levam/ alguém que amas

 É estranho ver o mundo

A avançar 


Quando te levam

Alguém que amas.


O pequeno espaço em teu redor

fica enredado,

paralisado num momento

de perda e choque.


As pessoas que passam, contudo

continuam no seu

ritmo normal.


Não sentiram a terra

tremer? Nem abrandar?


conseguirão ouvir os gritos

dos meus pensamentos?


O seu nome.


 O seu rost


REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 233.

A vida

A vida é tudo o que nós temos e quase nada é

Não mais que uma breve eternidade um longo esquecimento 

Um ombro desejado num ansiado corpo de partilha


Nada se sabe para lá da vida

mesmo se é ela que nos apresente à morte

e a morte é tudo o que nos resta e quase nada é

não mais que a incerta sombra

sombra numa esquecida memória:


a longínqua lembrança do que já não está. 


RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 85.


 

Os anjos...


Os anjos, pelo som da voz, conhecem o amor de um homem; pela articulação do som, a sua sabedoria e, pelo sentido das palavras, a sua ciência.


SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 22.

Há ocasiões

Há ocasiões em que ao final do

Dia pouco sobra para além das mãos que

Nos despem a roupa por caridade e nos

apagam a luz


Há ocasiões em que o balanço sabe a 

nada ou sabe a nojo e o amanhã fica

refém de uma véspera de sargeta


Há ocasiões em que o sol se deixa

abraçar ao contrário e nos ensombra a

alma em entardeceres sucessivos


Há ocasiões em que o quebranto adormece

connosco e desaprende de

despertar


Há ocasiões 

SOUTO, António, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 74.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Natal em Évora






 

Nada

 Afastar-me da multidão 

Entrar num quarto vazio 

e de repente esquecer o porquê de

Ali ter ido, para começar. 


Não fazer nada 

parar

puxar pela cabeça em busca de sinais

à espera que me digam o que fazer. 

No lado receptor do rádio 

estático. 


Vaguear por aí, em passo lento

a tentar estimular o cérebro para

que se lembre da ordem.


Permitir que os meus olhos pousem em todas

as peças de tecido no armário.


Olhar os cabelos finos junto

ao cimo da cabeça no

espelho da casa-de-banho. 


Nada.


REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 115.