O oceano é um vasto cemitério, principalmente para Portugal. O mar, esse é a campa, é o cemitério desta desgraçada pátria de Vasco da Gama, de João de Castro, de Albuquerque, de Cabral, de Magalhães, de todos os maiores navegadores do mundo, desta pátria do Infante D. Fernando, do rei D.Sebastião, que morreram além do mar. Nesse imenso cemitério vivo, que vem murmurando fados a beijar as praias deste - Jardim da Europa à beira-mar plantado - nesse imenso cemitério descansa a glória de Portugal, cuja história é um trágico naufrágio de séculos. E este murmúrio do oceano, estes queixumes que vêm do seu seio quando o Sol nele se põe, não são porventura as vozes das pobres almas portuguesas que vagueiam errantes nas suas ondas? Não pedem auxilio aos vivos? Não é aqui o mar um Purgatório? Sim, aqui o Purgatório é o mar; um purgatório de águas traiçoeiras, não de fogo; as suas ondas são as suas chamas. O mar, que foi a glória de Portugal; o mar que lhe deu eternidade na história humana, o mar que o devorou, o mar que o iniciou 'no gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza' como cantou, em união com o mar, Camões.
Apagada e vil tristeza! É isso que se vê hohe aqui. E ao vê-lo ocorre pensar se as almas serão as do que descansam debaixo da terra, nos templos ou junto a eles, e no seio do mar, ou não serão antes aquelas que habitam nos corpos dos que por aqui vemos a lidar e a ganhar o pão de cada dia. Portugal é hoje um purgatório povoado de almas.
UNAMUNO, Miguel de, Portugal - povo de suicidas, Lisboa, Letra Livre, 2012, p.p. 68-69.
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