... O vento é fresco: sei que vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
Caminho um caminho de palavras
(Porque me deram o sol)
E por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim
E porque a noite não tem limites
Alargo o dia e faço-me dia
E faço-me sol porque o sol existe
Mas a noite existe
E a palavra sabe-o.
ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 45.q
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