domingo, 1 de março de 2026

Um caminho de palavras

... O vento é fresco: sei que vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está,  mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.


Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.


Caminho um caminho de palavras 

(Porque me deram o sol)

E por esse caminho me ligo ao sol

e pelo sol me ligo a mim


E porque a noite não tem limites

Alargo o dia e faço-me dia

E faço-me sol porque o sol existe


Mas a noite existe

E a palavra sabe-o.


ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 45.q

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