segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Eça de Queiroz em Évora

 

 

E alinha-se Évora na brancura que exige o cauto resguardo, porque equivale à palidez insuportável dos espectáculos do luto, e não tinge a cal os lábios do moribundo mais do que a espuma que resulta da exaustão do ser. E arredondam-se os arcos sobre as ruelas que arvoram nomes canónicos, aos quais não falta o espírito de insurreição dos goliardos, e arrastam-se as mulheres de negro, as que custosamente movimentam a ossuda estrutura, gasta pelo peso da existência atribulada. E demoram-se nas praças os machos humanos e os machos animais, vestidos de uma albarda e de uma samarra, e reside no olhar distanciado dos primeiros a saudade de uma azinhaga à beira de um regatinho, pois que aí em meninos afeiçoavam eles a canivete maravilhas de cortiça, e atentavam no planado voo da cegonha, e suspiravam pela chegada do farnel. E constitui o “Distrito de Évora”, jornal que o nosso autor dirige antes de optar pela diplomacia, uma folha indignada e reinvidicativa, escarnecendo quem lhe apetece e voltando as costas a quem lhe apraz. 

CLÁUDIO, Mário, As Batalhas do Caia, 2.ª edição, Publicações D. Quixote, Alfragide, 2019, pp. 131-132.

 

Castelo de Leiria











Açores

 

Terceira

Há um intenso orgulho

Na palavra Açor

E em redor das ilhas

O mar é maior

 

Como num convés

Respiro amplidão

No ar brilha a luz

Da navegação

 

Mas este convés

É de terra escura

É de lés a lés

Prado agricultura

 

É terra lavrada

Por navegadores

E os que no mar pescam

São agricultores

 

Por isso há nos homens

Aprumo de proa

E não sei que sonho

Em cada pessoa

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, O Nome das coisas, Assírio & Alvim, 1.ª edição, 2015, p. 93.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Saudade só existe em uma língua. E só termina quando duas se encontram.

Serginho Gouveia in VALE, Andreia, Da Boca para fora – Origem e histórias das palavras que usamos no dia-a-dia, Manuscrito, Lisboa, 2019, p. 14.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

MAR SONORO


 

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,

A tua beleza aumenta quando estamos sós

E tão fundo intimamente a tua voz

Segue o mais secreto bailar do meu sonho,

Que momentos há em que eu suponho

Seres um milagre criado só para mim.

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra do mar, Caminho, 5.ª edição, 2005, p. 12

Barragem do Zêzere


 Praia Fluvial de Dornes

Arte urbana












 LEIRIA

Vos amo como uma louca

 Bem vejo que vos amo como uma louca; não me queixo, porém, de toda a violência dos sentimentos do meu  coração: acostumo-me às suas perseguições, e não poderia viver sem um prazer, que ora descubro, e de que gozo amando-vos entre mil sofrimentos. Mas sou constatemente perseguida com extremo desgosto pelo ódio  e pela aversão que sinto por todas as coisas: a minha família, os meus amigos e este Convento são-me insuportáveis; é para mim odioso tudo o que sou obrigada a ver e tudo o que tenho necessariamente de fazer. Tão ciosa sou da minha Paixão que me parece que todas as minhas acções e todos os meus deveres a vós dizem respeito. 

Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, pp. 64-65.

Rua 5 de Outubro



 ÉVORA