sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Comporta-te!








 

Fiz da vida

 Fiz da vida ida

Fiz da morte volta

Gága, gága, gága

Fiz de pedra tudo

 -O automóvel verde 74

 

Nada sobre esta mão nada na outra

Dum lado o pé do outro a maresia

Para os lados do rim a luz é pouca

E uma vez sem exemplo é que eu queria

- soneto 

  

CESARINY, Mário, Primavera autónoma das estradas, Assírio & Alvim, 2.a edição, 2017, p. 83.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Os amigos

Vamos vendo os amigos cada vez mais longe,

muitas vezes de costas,

a sacudir o espaço dos seus tempos como se entrassem

no mundo pela primeira vez.


São pequenas formações quase desumanas

que às vezes se reconhecem

disformes quase sempre sós e aos pés oculto de todos

corre um rio.


Um rio que vai confundido a vida

e a memória.

Que percorre os lugares do júbilo como uma água

aflita e sem regresso.


Quando o olho por dentro no começo da tarde

os amigos cintilam como corpos estranhos

entre os nossos desastres bebemos o anoitecer

e adormeceríamos juntos de soubéssemos. 


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p450

sábado, 10 de setembro de 2022

O mar nos teus olhos

Praia de S Bruno


É o mar, meu amor

na febre dos teus olhos


É o manso fascínio

 da onda que se inventa


É o mar, meu amor

mestiço nos teus olhos


É o mirto, o queixume

a mansidão tão lenta

 

 HORTA, Maria Teresa, As palavras do corpo, Lisboa, 2.ª edição, Publicações D. Quixote, 2014, p. 72.

Barcos e barquinhos







 PORTIMÃO

Gaivota


 Zona ribeirinha de Portimão

Teatro Garcia de Resende


 ÉVORA

Contigo

Contigo

inspiro e respiro

suo

cresço

avanço

o meu conhecimento

descubro-te a ti e a mim

solto-me

aprendo a tua revolução

inconscientemente

liberto-me

do púdico

excitando-me

sem o querer

destróis a minha muralha da China

Uma, duas e três vezes

incitas-me

animando-me

tudo me estimula

a novidade

me surpreende

é por isso que não páro quieta

cheiro

adapto-me

rio-me

mas nunca refilo lol


XPTO

Dois

Não cabiam palavras naquele

anoitecer.

Dois corpos, dois cegos. dois eus ambiciososo.

Tudo neles  era um mundo mudo

suspenso do terror da dor

e do prazer.


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p. 409.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Chuva molhada

às vezes numa chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em  canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro.


ONDJAKI, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, Editorial Caminho, 2009, p. 57.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Mudança

Todos me dizem que estou a mudar...

algo que nunca pensei ser possível

Ninguém sabe que és tu o responsável!

Ao olhar naquela noite para mim

obrigaste-me a ver o meu interior,

a amadurecer no desejo.

Ser que há muito estava esquecido

no meio do amor pelos outros...

O sentir-me isolada

despertou-me o ego;

Tu nem calculas o bem que me fazes!!

Contagia-me essa descontração

faz-me perder o pudor em mim

meu não namorado,

ensina-me a ser como tu...

não vês que continuo adolescente?

para mim tudo é novo

rio-me das tuas façanhas

entristeço-me das minhas maleitas

de tudo me espanto

mas tudo é um encanto!!!!!


XPTO





sábado, 3 de setembro de 2022

Gaivotas portimonenses




 

Gatos e cães






 Portel e São Manços

Onde pára a rola?


 Alvor, Portimão 

Gato à janela



 ÉVORA

Telhados ao nascer do dia







Guarda

 

Entro na floresta

 Entro na floresta, sigo por entre

os ramos, vou pelos caminhos

que tu próprio me indicas,


e chego enfim à líquida presença

do coração sonhado:

        rendo-me

na tua rendição, e a bandeira

é brincar de alegria


TANEM, Pedro, Rua de nenhures, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2013, p. 22.

Sobre Setembro

No breve céu da música

no cardos das dunas

setembro envelhecia


com tanto ardor tanto ardor tanto


quem se lembra de ti

estéril

eco de palavras


e só e só e


ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 75.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Deus

Deus

palavra mínima que dá

para tanta

coisa

há-de chegar aqui ao lugar parado

da imaginação.

Enquanto o espero

afasto-me do poema detido

desta prisão de vozes

estridentes

que saltitam entre as folhas caídas,

traídas,

da literatura.

 

CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, p. 229.

Guarda granítica