domingo, 18 de setembro de 2022
sábado, 17 de setembro de 2022
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
Fiz da vida
Fiz da vida ida
Fiz da morte volta
Gága, gága, gága
Fiz de pedra tudo
-O automóvel verde 74
Nada sobre esta mão nada na outra
Dum lado o pé do outro a maresia
Para os lados do rim a luz é pouca
E uma vez sem exemplo é que eu queria
- soneto
CESARINY, Mário, Primavera autónoma das estradas, Assírio & Alvim, 2.a edição, 2017, p. 83.
segunda-feira, 12 de setembro de 2022
Os amigos
Vamos vendo os amigos cada vez mais longe,
muitas vezes de costas,
a sacudir o espaço dos seus tempos como se entrassem
no mundo pela primeira vez.
São pequenas formações quase desumanas
que às vezes se reconhecem
disformes quase sempre sós e aos pés oculto de todos
corre um rio.
Um rio que vai confundido a vida
e a memória.
Que percorre os lugares do júbilo como uma água
aflita e sem regresso.
Quando o olho por dentro no começo da tarde
os amigos cintilam como corpos estranhos
entre os nossos desastres bebemos o anoitecer
e adormeceríamos juntos de soubéssemos.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p450
sábado, 10 de setembro de 2022
O mar nos teus olhos
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| Praia de S Bruno |
na febre dos teus olhos
É o manso fascínio
da onda que se inventa
É o mar, meu amor
mestiço nos teus olhos
É o mirto, o queixume
a mansidão tão lenta
HORTA, Maria Teresa, As palavras do corpo, Lisboa, 2.ª edição, Publicações D. Quixote, 2014, p. 72.
Contigo
Contigo
inspiro e respiro
suo
cresço
avanço
o meu conhecimento
descubro-te a ti e a mim
solto-me
aprendo a tua revolução
inconscientemente
liberto-me
do púdico
excitando-me
sem o querer
destróis a minha muralha da China
Uma, duas e três vezes
incitas-me
animando-me
tudo me estimula
a novidade
me surpreende
é por isso que não páro quieta
cheiro
adapto-me
rio-me
mas nunca refilo lol
XPTO
Dois
Não cabiam palavras naquele
anoitecer.
Dois corpos, dois cegos. dois eus ambiciososo.
Tudo neles era um mundo mudo
suspenso do terror da dor
e do prazer.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p. 409.
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
Chuva molhada
às vezes numa chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro.
ONDJAKI, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, Editorial Caminho, 2009, p. 57.
quinta-feira, 8 de setembro de 2022
terça-feira, 6 de setembro de 2022
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
Mudança
Todos me dizem que estou a mudar...
algo que nunca pensei ser possível
Ninguém sabe que és tu o responsável!
Ao olhar naquela noite para mim
obrigaste-me a ver o meu interior,
a amadurecer no desejo.
Ser que há muito estava esquecido
no meio do amor pelos outros...
O sentir-me isolada
despertou-me o ego;
Tu nem calculas o bem que me fazes!!
Contagia-me essa descontração
faz-me perder o pudor em mim
meu não namorado,
ensina-me a ser como tu...
não vês que continuo adolescente?
para mim tudo é novo
rio-me das tuas façanhas
entristeço-me das minhas maleitas
de tudo me espanto
mas tudo é um encanto!!!!!
XPTO
domingo, 4 de setembro de 2022
sábado, 3 de setembro de 2022
Entro na floresta
Entro na floresta, sigo por entre
os ramos, vou pelos caminhos
que tu próprio me indicas,
e chego enfim à líquida presença
do coração sonhado:
rendo-me
na tua rendição, e a bandeira
é brincar de alegria
TANEM, Pedro, Rua de nenhures, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2013, p. 22.
Sobre Setembro
No breve céu da música
no cardos das dunas
setembro envelhecia
com tanto ardor tanto ardor tanto
quem se lembra de ti
estéril
eco de palavras
e só e só e
ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 75.
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
Deus
Deus
palavra mínima que dá
para tanta
coisa
há-de chegar aqui ao lugar parado
da imaginação.
Enquanto o espero
afasto-me do poema detido
desta prisão de vozes
estridentes
que saltitam entre as folhas caídas,
traídas,
da literatura.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, p. 229.










































