segunda-feira, 10 de abril de 2023

sexta-feira, 7 de abril de 2023

AMAR o Mar


           Praia do Amado - Portimão 

Deus é o prolongamento lógico do Espírito

Deus é o  prolongamento lógíco do espírito

Deus é uma flor que cresce inevitavelmente

por dentro do nosso coração

Deus é uma criança  que   pede esmola

Deus é uma criança com uma bola

na palma da mão.


 PIMENTA, José António, Deixa entrar a noite na palavra, Coimbra, MinervaCoimbra, 2019, p. 22.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

As aldeias

Eu gosto das aldeias sossegadas,

com seu aspecto calmo e pastoril

erguidas nas colinas azuladas,

mais frescas que as manhãs finas de Abril.


Levanta a alma às coisas visionárias

A doce paz das suas eminências,

E apraz-nos, pelas ruas solitárias,

Ver crescer as inúteis florescências


Pelas tardes das eiras, como eu gosto

Sentir a sua vida activa e sã!

Vê-las na luz dolente do sol-posto,

e nas suaves tintas da manhã!


As crianças do campo, ao amorosos

Calor do dia, folgam seminuas;

E exala-se um sabor misterioso

Da agreste solidão das suas ruas....


Alegram as paisagens as crianças,

Mais cheias de murmúrios do que um ninho,

E elevam-nos às coisas simples, mansas,

Ao fundo, as brancas velas dum moinho.

(...)



 Gomes Leal in QUENTAL Antero de, Tesouro poético da Infância (Antologia), Lisboa, D. Quixote, 2003, p.74.

sábado, 1 de abril de 2023

A poesia


Para os nossos antepassados 

A poesia era um objecto de luxo

Mas para nós

É um artigo de primeira necessidade:

Não podemos viver sem poesia.


PARRA, Nicanor, Acho que vou morrer de poesia, Língua Morta, 2019, p111.

batem as sílabas da loucura/ ao mesmo tempo que bate o coração

PIMENTA, José António, Deixa entrar a noite na palavra, Coimbra, MinervaCoimbra, 2019, p. 55.

sábado, 25 de março de 2023

O preço é ser indiferente

O preço é ser indif'rente:

Bebi em todas as fontes

Por conchas de carne viva!

Bebi em todas as fontes

De sangue e de náuseas ardente

Vidas que levo à deriva...

 

Cinzentos são os meus dias

Que já nascem revelados

Sem surpresas nem amor!

Cinzentos são os meus dias,

Cinzentos, impuros fados

Sem alegria nem dor!...

 

RODRIGUES, Urbano Tavares, Poesia - Horas de vidro, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2010,  p.29

Chuva na areia

Terça-feira,

quarta-feira,

quinta,

sexta,

tanto faz.

Ou desta ou doutra maneira,

domingo ou segunda-feira,

nenhuma esperança me traz.



Que eu nem sei bem pelo que espero.

Se aprender o que não sei,

se esquecer o que aprendi,

se impor meu sou e meu quero,

se, num ti que eu inventei,

nenúfares boiar em ti


Que esta coisa que se espera

é no dobrar de uma esquina.

Um clarão que dilacera,

a explosão de uma cratera,

vida, ou morte, repentina.



GEDEÃO, António, Poemas, Lisboa,  Palavrão Associação Cultural, 2015, p.42