domingo, 21 de maio de 2023

Há noites...

Há noites que nos levam para onde

O fantasma de nós fica mais perto;

E é sempre a nossa voz que nos responde

E só o nosso nome estava certo  


CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 70.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Centro a morrer



 Rua do Colégio - Portimão

Quero-te!

 SIM, pudera eu gritá-lo a toda a gente,

Quero-te! - e o grito morre-me no peito.

Meu olhar se te esquiva contrafeito.

Morde-me a boca um riso de demente...


E nem tu própria o vês! e ninguém sente

Com que tremor te acerco, sigo, espreito....!

O fervor com que em sonho a mim te estreito,

Parece que o escondo facilmente.


Cegos! O riso que me morde aboca 

Desce a dentro de mim, corrói-me a alma

Como uma chama oculta, verde e louca.


Mas eu, parece, eu mostro, eu fruo a calma

Dos que acham esta vida inane e pouca,

...Sonhando empunhar noutra a eterna palma.


 RÉGIO, José, Biografia, 6.ª edição, Guimarães, Ópera Omnia, 2020, p.27.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Museu da Ciência














Universidade de Coimbra

Eu sou líquida mas recolhida / no íntimo estranho de uma jarra

Eu sou líquida mas recolhida

no íntimo estranho de uma jarra

e em tua boca um clavicórdio

quer recordar-me que sou ária


aérea vária porém sentada

perfil que os flamingos voaram.

Pelos canteiros eu conto os gerânios

de uns tantos anos que nos separam.


Teu amor de planta submarina

procura um húmido lugar.

Sabiamente preencho a piscina

que te dê o hábito de afogar.


Do que não viste a minha idade

te inquieta como a ciência 

do mundo ser muito velho

três vezes por mim rodeado

sem saber da tua existência.


Pensas-me a ilha e me sitias

de violinos por todos os lados

e em tua pele o que eu respiro

é um ar de frutos sossegados. 


CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 129.

Eis-me

Eis-me sem explicações 

crucificada em amor:

a boca o fruto e o sabor  


CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 54.

Angústia

 O universo está à beira da loucura

globalizado na riqueza de poucos

e egoístas e há tufões incêndios e maremotos

e desumanas guerras torturas e massacres

A língua venenosa da serpente os touros

de fogo os céus que estremecem e ameaçam

esmagar de todos os mais indefesos

A máscara destes horrores é a falsa

democracia que já foi árvore de sol

e agora por vezes é lama em que

se tropeça e quase se perde a esperança.


RODRIGUES, Urbano Tavares, Poesia - Horas de vidro, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2010,  pp. 69-70.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Subindo a foz


 Ria de Alvor

Estamos a sofrer uma fraudemia?


 Portimão

Toma o meu corpo

Toma o meu corpo transparente

no que ultrapassa tua exigência taciturna.

Dou-me arrepiando em tua face

uma amaragem nocturna.


Vem contemplar nos meus olhos de vidente

a morte que procuras

nos braços que te possuem para além de ter-te.


Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.

Fica naquele gosto a sangue

que tem por vezes a boca da inocência.

 

CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 51.

domingo, 14 de maio de 2023

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Trago o mar todo na cabeça


Meia Praia, Lagos

ANDRADE, Eugénio de, Ofício de Paciência, Porto, Assírio & Alvim, 2018, p. 53

Azul Ar



Praia da Ilha da Fuzeta 


Azul mais azul que todo o azul do mar

azul mais azul que todo o azul do mundo

que o azul tão azul tinha

ali o azul do céu

para onde azulou o passarinho meu


O' NEILL, Alexandre, Anos 70 - Poemas dispersos, 2.ª edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 85.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Arte de rua


 Portimão 

O lugar mais perto

O corpo nunca é triste;

o corpo é o lugar

mais perto onde o lume canta.

É na alma que a morte faz a casa.


  ANDRADE, Eugénio de, Ofício de Paciência, Porto, Assírio & Alvim, 2018, p. 43.