sábado, 14 de fevereiro de 2026

SOPROS

 

Saber a água onde a luz flutua:

Um membro, um só músculo teu

Um seio aberto à nudez do ombro

Donde de ti o amor deslize 

E a boca resvale ao lento domínio 


é o corpo a iniciar o gesto

prolongando a carícia à antemanhã


é preciso saber o lugar, longamente o início de um rio

para dizer o amor

Percorro nos fios de chuva o fio da tua pele

Um círculo de túmidos poros sucumbido ao sopro

Pequenos halos feridos nas tuas mãos brancas 

Vencidas já 


É preciso descobrir o corpo sílaba a sílaba 

Para se amar a sílaba do corpo

Só depois morrer, rigorosamente,

vocábulo a vocábulo,

longamente morrer na alma da palavra


disse-me isto o lento movimento do teu rosto

quando te voltavas a dormir.



RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 18.

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