Saber a água onde a luz flutua:
Um membro, um só músculo teu
Um seio aberto à nudez do ombro
Donde de ti o amor deslize
E a boca resvale ao lento domínio
é o corpo a iniciar o gesto
prolongando a carícia à antemanhã
é preciso saber o lugar, longamente o início de um rio
para dizer o amor
Percorro nos fios de chuva o fio da tua pele
Um círculo de túmidos poros sucumbido ao sopro
Pequenos halos feridos nas tuas mãos brancas
Vencidas já
É preciso descobrir o corpo sílaba a sílaba
Para se amar a sílaba do corpo
Só depois morrer, rigorosamente,
vocábulo a vocábulo,
longamente morrer na alma da palavra
disse-me isto o lento movimento do teu rosto
quando te voltavas a dormir.
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 18.
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