Sonhei com lúcidos delírios
À luz de um puro amanhecer
Numa planície onde crescem lírios
E há regatos cantantes a correr.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra do mar, Caminho, 5.ª edição, 2005, p. 53.
À luz de um puro amanhecer
Numa planície onde crescem lírios
E há regatos cantantes a correr.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra do mar, Caminho, 5.ª edição, 2005, p. 53.
(...)
Porém, não teve a coragem de o admitir, ou mesmo de actuar em conformidade com os seus sentimentos.
Chegou ao hotel com uma terrível sensação de mal-estar, que admitiu ser resultante da sua permanente dificuldade em mostrar o que sentia, ou seja, de dizer as palavras que ficavam sempre por dizer.
Tão pouco fora capaz de mostrar o seu interesse por Ayan. Mais uma vez prevalecera em «imagem» que se havia imposto transmitir de si própria, em detrimento dos seus sentimentos mais profundos. Seria alguma vez capaz de se revelar a alguém?...
CABRAL, Helena Sacadura, Caminhos do coração, Lisboa, Clube do Autor, 2011, p 118.
Pouco depois, o sol entrava também na sala. Vinha todas as tardes antes de desaparecer por detrás dos telhados vizinhos. Entrava com esse silêncio e esse mesmo vagar com que se distendem as ilhas de água derramada nos soalhos, subia à mesa que estava no centro e iluminava, desbotando-as mais, as velhas flores de papel na sua jarra; ia até a parede de fundo e lá dava a ilusão de se fixar por algum tempo; depois, indiferente à vida da sala, começava a recuar, a encolher-se, sempre vagarosamente.
CASTRO, Ferreira de, A experiência, Lisboa, Cavalo de ferro, 2014, p. 64
Era um véu de tristeza encantadora,
Névoa de noite de luar de agosto,
Sombra misteriosa emoldurando
A curva graciosa de teu rosto!
VERDE, Cesário, Cânticos do Realismo e outros poemas – 32 cartas, Lisboa, Círculo de Leitores, 2005, p. 56
Máximas para a vida: Les unions complètes sont rares. Não se pode modificar a humanidade, apenas conhecê-la. A felicidade é uma capa escarlate com o forro em farrapos. Os amantes são como dois irmãos siameses, dois corpos com uma só alma; mas se um dos corpos morre antes do outro o sobrevivente vive a arrastar um cadáver. O orgulho faz-nos desejar uma solução para as coisas: uma solução, um fim, uma causa final; mas quanto melhores são os telescópios, mais numerosas as estrelas. Não se pode modificar a humanidade, apenas podemos conhecê-la. Les unions complètes sont rares.
BARNES, Julian, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, p 217.
Mas: se o tempo se alongasse?
Se o tempo: um cavalo intenso
e de infinito mistério,
trazendo de novo agosto,
um cheiro a sério de rosas,
o caramanchão bordado,
o meu avô outra vez,
o pão que ele preparava,
a ternura nos seus dedos,
e o seu anel de uma pedra
que eu não consigo lembrar,
mas que a textura me lembra,
e que a sua cor por força
me ajudaria a lembrar?
Se ele trouxesse outra vez
as letras mortas e lentas
(...)
Poderás não me ver hoje,
amanhã ou nunca,
mas há em mim o aroma do jasmim,
o baile das acácias
onde o vento norte
trás o sabor das nogueiras,
o ondular das marés,
as infinitas nuvens
que se somem
por entre o teu horizonte.
Poderei não te ver hoje,
amanhã ou nunca,
mas há um renascer novo,
um olhar meigo, um sentir...
José Alberto, poeta eborense
| Ilha do Farol, Ria Formosa |
Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra do mar, Caminho, 5.ª edição, 2005, p 58.