segunda-feira, 6 de junho de 2022

Diferentes

Somos tão diferentes...

Tu, sem papas na língua

Eu, demasiado reservada

Tu sabes tudo

Eu não sei nada.

Contudo, tu

Atrais-me...

Irreverência e aventura

Adorava as ter!

Sou sempre uma criança que nunca sabe o que quer,

Mas sei que quero aprender

Despertaste o meu ser

Mereces acordar ao ter.

Puritanismo se sente

Daí recear o passo de gigante...

Tu, cumpriste todas as etapas da vida

Eu, esqueci-me de viver...

Tu, gabas-te 

Eu nem sei se é bom ou não 

Aventuro-me

Se tiver algum futuro.

Queres assim ou não?

Esta é a minha grande questão!


 XPTO

domingo, 5 de junho de 2022

A curvatura da onda


A curvatura da onda é a mão que não apreende. A virlidade do mar está no ronco e na coloratura. O glauco é grave, a paciência, a espessura que dilacera a audição. A sereia é tecida do rochedo erodido à distância, sopro de alvéolos milenarmente tangidos. Sólida, a mulher do homem desfaz sob o bloco abissal a finitude da teia, espuma limítrofe, lateral.

COSTA, Maria Velho da, Da Rosa fixa, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 82.

Praia na Linha


 Cruz Quebrada - Dafundo

sábado, 4 de junho de 2022

Anjo do sono

 Na altura da oração da noite,

quando o Sol se põe

e os sentidos se fecham,

abre-se o caminho para o que não se vê.

O anjo do sono, tal qual um pastor,

conduz os espíritos para o nada,

para os prados espirtuais das mil maravilhas.

Enquanto o sono  apaga as impressões deste mundo

que cidades, que jardins o espírito ali contempla!

Já não se lembra dos fardos e do peso desta terra

o coração é libertado de todas as preocupações deste mundo.

 

RUMI, O Pequeno livro da vida - o jardim da alma, do coração e do espírito, Alma dos Livros, 2020, p.146.

Parque vazio



 Évora 

Gato na varanda


 ÉVORA

Luz artificial


 Évora

A sereia


o amor tem um dicionário

em que nenhuma palavra tem o sentido próprio

quando é o próprio amor a dizê-la


 JÚDICE, Nuno, Regresso a um cenário campestre, Lisboa, D. Quixote, 2020, p. 39

Igreja Matriz de Portimão


 

Colisão dos sonhos

A física

noção

do corpo.


A colisão 

dos sonhos 

feita

solidão.

 

Aculpunctura 

d' alma.

 

CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, p. 116.

Quem diz tempo

Praia da Rocha 

 Quem diz tempo diz lugar

Dizer hoje é o mesmo que

Dizer aqui onde estamos

Quando o porquê é porque


Por isso eu hoje antecipo

Mar fundo futuro monte

No ponto do amanhã

A hora do horizonte

(...)


SARAMAGO, José, Provavelmente alegria, Lisboa, Porto Editora, 2014, p. 71.

Respiro ainda.

Respiro. Respiro ainda. Expiro,

inspiro - e és tu que vagas

no ar que me alimenta, e jogas

o tico-tico surdo que retiro


do dia que terei, e que iluminas

com a luz evidente em que te amo.

O som que ainda ouves, com que chamo

a certeza que não há, mais do que as sinas


que o deus-dará dará ou não dará,

esse é a música, só ela, é a perfeita

que me faz respirar e passará


o negro mau ruído, a porta estreita

ela mesma fechada, e o alvará

da passagem à vida que me espreita.


 TANEM, Pedro, Rua de nenhures, Alfragide Publicações D. Quixote, 2013, p. 63.

Nada me prenda

haverá já nada que me prenda - vou-me

embora daqui tão só como cheguei, sem ter

deixado a ninguém o nome que me deram.


PEDREIRA, Maria do Rosário, Poesia reunida, Lisboa, Quetzal, 2012, p. 189.

Praia Natal



 PRAIA DA ROCHA

Minoria

Estar em minoria, mesmo uma minoria de um só, não implicava a loucura. Havia a verdade e havia a falsidade, e, se nos agarrássemos à verdade mesmo que fosse contra o mundo inteiro, não estávamos loucos.


ORWELL, George, 1984, Alfragide, D. Quixote, 2019, p. 240.

Eram campos



Eram campos campos campos

abertos de humanidade
era um vento que rasgava
apenas a claridade.

eram palavras jorrando
de um olhar de escaravelho
era um homem inventando
a grandeza de ser velho.

era terra fome sede
urze tojo ripo vinho
alcateia e almocreve
alfazema e rosmaninho.

era um fogo aprisionado
um explosão e romãs.
Era um menino alumbrado
entre as pernas da manhã.


SANTOS, Ary dos, Retrato de Manuel da Fonseca, Vinte anos de poesia, Lisboa, Círculo de Leitores, 1984, p. 123.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Sobre as ervas




Respiras

como se pela garganta

deslizasse todo o azul de Espanha

a noite

a língua do vento


sem outras mãos


outros olhos

para beber no escuro.


Deita-te sobre o meu peito

inclina    

     até ao chão

as frágeis

hastes da beleza.



As palavras 

onde te escondes


altas

    passam


passam as águas

dóceis

do verão.


É tempo

já as amoras sangram

é tempo ainda


abre-me as portas do teu corpo

ó meu amor


deixa-me entrar.


Já sobre ti

de aroma em aroma

os lábios todos

            caem


nupciais ou mortais os corpos

são para penetrar

        lenta

        oh

        lentamente.


As mãos

sobre a nuca 

delicadas.


Sobre as ervas

o leite

espesso do silêncio.


ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, pp. 35-36.

Portel









 

Glosa de "So, we'll go no more a-roving" de Byron


 

 Não irei mais meu erro errando errante

Pela noite fora

Embora a lua brilhe tanto como outrora

Embora como outrora

Não cesse do amor a voz uivante

Que me devora

 

Pois o coração gasta o peito

E a espada gasta a bainha

O tempo rói o coração desfeito

E a alma é sozinha

 

Embora a noite sempre peça amor

E o dia volte demasiado cedo

E o luar corte como espada nua

Não irei mais em pânico e segredo

Sob a luz da lua.

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Ilhas, Assírio & Alvim, 6.ª edição, 2016, p. 77.

O amor já não é o que era

O amor já não é o que era

concluíu apressadamente o senhor Couto

vindo à tona do sonho de que o poema é feito.

O amor já não é o que era

repete-me a árvore roçagando

hora e horas, entre as folhas perdendo

um qualquer coisa que se juntasse a ela

e a ela acrescentasse uma qualquer lembrança

do que fosse o amor quando era o que era.


Sabe o senhor Couto que não ser o que foi

é tão fatal com ele como com o sentimento

de que avança a falar como se o sentisse?


TAMEN, Pedro, Memória Indescritível, Lisboa, Gótica, 2000, p. 26.

E todavia...

canção, tombei em ti meu dia a dia.

sejas tu o registo

de que eu não gosto disto

e todavia gosto, e todavia...


MOURA, Vasco Graça, Laocoonte, rimas várias, andamentos graves, Quetzal Editores, 2005, p. 108.

Feliz Dia da Bicicleta


 

Praça do Sertório


 Évora

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Portel










 

O que é a infância?

O que é a infância?

É uma ilha que emerge rapidamente.

 

CESARINY, Mário, O lorinhão escorreito, Primavera autónoma das estradas, Assírio & Alvim, 2.a edição, 2017, p. 89.

A minha juventude passou e eu não estava lá

A minha juventude passou e eu não estava lá.

Pensava em outra coisa, olhando por outra direcção.

Os melhores anos da minha vida perdidos por distracção!


PINA, Manuel António, Todas as palavras - poesia reunida, Porto, Assírio e Alvim, 2012, p. 153.

Évora Wine 2022








Praça do Geraldo