quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Com indiferença

E por fim a manhã talvez comece

debaixo duma pedra

ou da noite escorra sobre as primeiras

violetas ou as últimas que sei eu. 


Embora seja inverno desde há muito

a vocação das folhas é ser ave

ou música quando no vento

arde o coração da cal.


Ou o meu o meu.


 ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 62.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Esperar-te

 A verdade é que eu já não tinha idade

(nem palavras) para esperar-te,

começava a fazer-se muito tarde

e morria sozinho sem ninguém com quem falar de


mim. Os sonhos da infância

vagueavam inúteis pelos cantos

e eu transformava-me entretanto

em algo parecido com eles, da mesma susbstância.


PINA, Manuel António, Todas as palavras - poesia reunida, Porto, Assírio e Alvim, 2012, p. 170.

sábado, 20 de agosto de 2022

X

Assexuada

Despertada

Atracção 

Sem relação 


Colorir a sina

Aumentar a crina

Assim não há espinha

Apenas revolução 


Xpto

Praia ao fim da tarde






PRAIA DA ROCHA - PORTIMÃO
 

Lota recuperada


 PORTIMÂO

Noite


 ÉVORA

Beijo



 ÉVORA

Lua e noite

Hospedo-me hoje nesta cabana

amanhã serei hóspede

da lua


A noite escuta com a mesma indiferença

a toada soada do monge

e a canção roca das prostitutas


MENDONÇA, José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, pp. 62-63.

Somente amando poderemos saber se o amor existe ou não

HAY, Louise , HOLDEN, Robert, A vida ama-me, s.l., Pergaminho, 2015, p. 167.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Afinal ;D

Afinal não és não;

És furacão,

Um leão 

cheio de tensão 

Que me trouxe revolução 

Através da atração 

e me deu outra visão.

A minha condição 

deu cabo do serão 

apesar de toda a inovação!!!

Muita apreensão,

Demasiada contrição...

Contudo feliz por ser motivo de excitação, 

Ansiando por repetição, 

Desde que não haja hospitalização 

XPTO 

domingo, 14 de agosto de 2022

Praia do Tonel


 Sagres, Algarve

Psicanalistas

Um psicanalista disse-me em 1981: "a vida é luta, perca a vergonha". No meu caso não é uma questão de vergonha, é uma questão de delicadeza. Não gosto de ser uma bruta. Os psicanalistas são darwinistas.

Hoje a ciência estuda o altruísmo. Procura saber quando é que o altruísmo apareceu na história da humanidade e se há altruísmo nos animais.


 LOPES, Adília, Bandolim, Porto, Assírio e Alvim, 2016, p. 81.

sábado, 13 de agosto de 2022

Igreja de Santa Maria da Alcáçova


A Igreja de Santa Maria da Alcáçova situa-se no centro histórico de Santarém, junto das Portas do Sol. O templo, que chegou a acolher uma colegiada, é um dos mais antigos da cidade, tendo sido fundado pelos cavaleiros templários logo após a conquista aos mouros.

A igreja-colegiada de Santa Maria da Alcáçova foi fundada nos primeiros anos da segunda metade do século XII, após a conquista de Santarém pelas tropas de D. Afonso Henriques. A sua construção teve a iniciativa dos cavaleiros da Ordem do Templo, sob orientação de D. Frei Pedro Arnaldo, cavaleiro templário e comendador de Santarém, e a mando de D. Hugo Martins, mestre da ordem. Mais tarde, a posse da igreja passaria para os cónegos regrantes de Santo Agostinho.
 
Alguns autores afirmam que a igreja teria sido erguida no local de um primitivo templo romano, tese que é sustentada pela descoberta de algumas pedras gravadas no adro. Certo é que esta igreja foi uma das mais importantes da vila medieval, tendo aqui sido sediada a primeira freguesia cristã após a conquista. Em 1280, foi aqui instituída a Real Colegiada de Santa Maria da Alcáçova, que chegou a deter a posse das igrejas paroquiais de Santa Cruz, de Santa Iria e de São João do Alfange. Durante a época medieval, o templo servia de capela ao Paço Real de Santarém, com o qual comunicava directamente.

Entre os séculos XVI e XVIII, a igreja sofreu diversas campanhas de obras, que acabaram por lhe ocultar as características arquitectónicas primitivas. No essencial, o aspecto actual do templo é fruto das intervenções seiscentistas e setecentistas, sobretudo da reconstrução promovida por D. Rodrigo Teles de Menezes, Conde de Unhão, levada a cabo entre 1715 e 1724.


A igreja tem uma forma em cruz latina, com transepto e cabeceira de três capelas. As diversas reconstruções conferiram-lhe um forte cunho maneirista e neoclássico, obliterando completamente a primitiva feição gótica, da qual restam vestígios apenas nas lápides e nalguns túmulos.
Anexos ao edifício do templo, encontram-se um claustro e outras antigas dependências conventuais. A frontaria é precedida por um alpendre do tipo rural e encimada pela torre sineira. No muro exterior, evidencia-se uma arca tumular simplificada, onde corre um friso com inscrições góticas alusivas a Simão Rodrigues. Uma tradição popular sustenta que este túmulo acolhe os corpos de um cristão e da sua apaixonada moura.
O interior da igreja, reformado em 1724, é de três naves, com colunas toscanas e arcos de volta redonda, sendo a cobertura de madeira, com caixotões apainelados. Numa edícula do lado do evangelho encontra-se uma arca sepulcral, que se supõe conter os restos mortais do infante Rodrigo Afonso, filho bastardo de D. Afonso III, que faleceu em 1302.

 
No altar-mor, modificado pela reforma setecentista, existe uma tela datada dos inícios do século XIX, muito danificada, que representa A Adoração do Menino-Deus. Esta tela é atribuída a Cirilo Wolkmar Machado, que entre 1818 e 1820 trabalhou para a Colegiada. Na capela baptismal, que se abre do lado do evangelho, encontra-se outra tela, O Baptismo de Cristo, assinada por M. R. da Costa. Os altares laterais das naves possuem retábulos de pedraria maneirista, com colunas estriadas da ordem jónica.

Fonte: Wikipédia.

Aqui já houve uma quinta



 ALVOR

O mundo é o casamento de Deus e da Natureza

SCHWARTZ, Delmore, Nos sonhos começam as responsabilidades, Lisboa, Guerra e Paz, 2020, p. 133

Música

 a doçura inteligente,

a leve serenidade,

o frasear transparente, 

respirar em que se sente

articular-se a verdade

que só a música traz

quando nos dá o melhor

e outra vida em nós se faz:

bem hajas que assim nos dás

todo o mi bemol menor.


MOURA, Vasco Graça, Laocoonte, rimas váias, andamentos graves, Quetzal Editores, 2005, p. 59.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

O vagabundo do mar

Sou barco de vela e remo

sou vagabundo do mar.

Não tenho escala marcada

nem hora para chegar:

é tudo conforme o vento,

tudo conforme a maré...

Muitas vezes acontece

largar o rumo tomado

da praia para onde ia...

Foi o vento que virou?

foi o mar que enraiveceu

e não há porto de abrigo?

ou foi a minha vontade

de vagabundo do mar?

Sei lá.

Fosse o que fosee

não tenho rota marcada

ando ao sabor da maré.

É por isso, meus amigos,

que a tempestade da Vida

me apanhou no alto mar.

E, agora

queira ou não queira,

cara alegre e braço forte:

estou no  meu posto a lutar!

Se for ao fundo acabou-se.

Estas coisas acontecem

aos vagabundos do mar. 


FONSECA, Manuel, Obra poética, Alfragide, Caminho 11.ª ed., 2011, pp.63-64.

sábado, 6 de agosto de 2022

Não te esqueças nunca

 Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina

O pinhal a coluna a vemência divina

O templo o teatro o rolar de uma pinha

O ar cheirava a mel e a pedra a resina

Na estátua morava tua nudez marinha

Sob o sol azul e a veemência divina

 

Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima

O horror o terror a suprema ignomínia

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Ilhas, Assírio & Alvim, 6.ª edição, 2016, p .38.

Praia do Alemão





 

Imagem e semelhança

Quando a noite vier, e a relva se parecer

com o mar, e as ondas se parecerem

com os arbustos do jardim, e o teu

rosto se parecer com o que foi suposto

e o meu rosto se parecer com o que

deveria ser, e os livros contarem

o que deveria ser vivido, e a vida

se aproximar do sonho que foi

sonhado, e esse sonho se parecer com o 

que irá acontecer na manhã seguinte

e o ouvinte julgar que escutou

o que está prometido desde aquele

tempo e desde aquela parte, e a criança

se parecer com o homem que há-de haver

e a mulher com a criança feita que lhe

prometeram ter, as pálpebras descidas

parecer-se-ão com o sol entrando no horizonte

e tudo terá a mesma origem, tudo se reunirá

na mesma fonte, e os sete mil milhões conhecerão

a imagem de quem sem saber são pajem.


JORGE, Lídia, O Livro das tréguas, Lisboa, D. Quixote,2019, p. 28.

No lume no gume

Vê como a nudez cresce.


Seria fácil pousar agora

no lume

ou no gume do silêncio

se houvesse vento:

mas quem se lembra do branco

aroma da alegria?


Reconheço no vagaroso

andar da chuva o corpo do amor:

vem ferido: nas suas mãos

como dormir?

Como enxotar a morte: 

esse animal sonâmbulo dos pátios da memória?


Bago a bago podes colher

a noite: está madura:

podes levar à boca

a preguiçosa espuma

das palavras.


E crescer para a água.


 ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 40.

Se

Se bebo o rio,

Não amo.


Se amo, o rio

Não assume essa desgraça.


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p. 327

Duas alíneas sobre pessoas


Praia dos Três Irmãos 

Pessoas deitadas 

no Algarve que dizem que

o Sol enquanto fumam

o Sol que é mais que vivo

o Sol que escorregou

    um pouco para baixo

    que vem do Alentejo

    e vai cair sobre o azul do mar


Mas este Sol impede

a fome ruidosa

o mastigar da foice

o sol solar que bate

um pouco mais acima

nas pessoas vergadas;

granizo de lume e ódio

a cair mas a cair do azul do mar.


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, p. 72-73

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Passagem por Ponte de Sor


 

Vento suão

No plaino o vento suão

Na varanda o alguidar

Na tasca mestre João

Vai jantar.

 

Falam da revolução

Com o novel leitor.

Mexem muito a mão

No horror.

 

Lisboa espera indecisa

A conta deste semestre.

Par ou pernão? Mona Lisa.

Estátua equestre.

 

O herói vai para o trabalho

Com as searas a ondear

À sombra dum carvalho

Sem parar.

 

O herói vem do trabalho

Cai de cama tem um quisto.

Farinheira açorda de alho

O que é isto?

- redondel do alentejo

 

CESARINY, Mário, Primavera autónoma das estradas, Assírio & Alvim, 2.a edição, 2017, p. 85.