terça-feira, 19 de setembro de 2023

Rodeada de poesia


E quando não há poesia, a vida fica ao contrário...

Casa Museu Fernando Pessoa 

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Passeio dos Afectos


 Barreiro 

Eu quero saber

Voltou o silêncio 

E não percebo porquê 

Vai ser tudo como da outra vez

Nem uma por mês?


Adoro frontalidade 

Pergunto, o que se está a passar?

Haverá aqui inevitabilidade?

De acabar...?


Pouca vontade,

Muito trabalho 

Ou simplesmente desprazer?

Eu quero saber!

Xpto


sábado, 16 de setembro de 2023

Comboio a chegar


 Estação ferroviária de Pinhal Novo

O pequeno super-Homem

Não quero dizer não nem dizer sim.

Não quero ser juíz nem advogado.

Amo a Vida, e não estou parado!

Não sei quem sou senão que sou assim...


Não quero grades nem portões. A mim,

Pés que não achais pé no campo arado!

A mim!, que o meu jardim é um descampado,

E não há cães de guarda ao meu jardim,


Deitai debaixo  muro dor-prazer.

Sim, não, talvez, assim, nem sim nem não,

Já nada quero ou recusei querer.


E quando eu diga é futilmente vão!...

Que eu vivo, ou não, se é, ou não é, viver,

O puro Drama e a pura Solidão.


RÉGIO, José, Biografia, 6.ª edição, Guimarães, Ópera Omnia, 2020, p.44.

sábado, 9 de setembro de 2023

Praia em Maio




 Rocha sempre animada

Há que ser rio




Aumentámos a vida com palavras

água a correr num fundo tão vazio.

As vidas são história aumentadas.

Há que ser rio.


Passámos tanta vez naquela estrada

Talvez a curva onde se ilude o mundo.

O amor é ser-se dono e não ter nada.

Mas pede tudo


CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 52

Igreja de S.Francisco, Évora


Desce um pombo do alto em voo lento

e na borda do tanque poisa, e olha.

Finjo que sou de pedra; e o pombo olha-me.

Finge-se ele de pedra enquanto olho.

e assim nos demorarmos, um e outro,

até nos convencermos

que só de mútuo o amor se vive em paz.


Um roçar de asas vem do alto e desce.

É ela, a pomba, o número que faltava

no programa das festas dos meus olhos.

Ao lado dele poisa, e tão chegada

que as penas dele em mim se sobressaltam.


GEDEÃO, António, Poemas - Uma antologia bilingue, Lisboa, Palavrão - Associação Cultural, 2015, p.128

sábado, 2 de setembro de 2023

Balão esvaziado

Cansei os braços

a pendurar estrelas no céu.

Destino dos fados lassos.

Tudo termina em cansaços

braços e estrelas

e eu.

(...)

Reacendem húmus as ancas.

terras morenas e brancas,

campo do jogo androceu.

Afrouxam os braços lassos.

Tudo termina em cansaços,

terras

e braços

e eu.


Estrelas, pântanos, abismos,

patamares da mesma escada,

dedos da mesma aliança.

Tudo morre em tédio e em nada.

Tudo maça.

Tudo enfada. Tudo pesa.

Tudo cansa.

 

GEDEÃO, António, Poemas, Lisboa,  Palavrão Associação Cultural, 2015, p. 52

360 graus no zimbório


 Igreja do Sagrado Coração de Jesus 

VIANA DO CASTELO

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

No céu do sul

Tavira


Apesar de o sol de agosto entrar

pela vidraça, chove.

No céu do sul, em qualquer lugar,

chove  sobre os teus olhos,

não pára de chover.

Chove há tantos anos dentro de tudo

que dificilmente os teus olhos

serão olhos ainda.

Chove. Chove

sobre o mundo. Mesmo no verão.


ANDRADE, Eugénio de, Ofício de Paciência, Porto, Assírio & Alvim, 2018, p. 59.