sexta-feira, 24 de setembro de 2021

P Peço-te que venhas e me dês um pouco de ti

 


Não te chamo para te conhecer

Eu quero abrir os braços e sentir-te

Como a vela de um barco sente o vento

 

Não te chamo para te conhecer

Conheço tudo à força de não ser

 

Peço-te que venhas e me dês

Um pouco de ti mesmo onde eu habite. 

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, No tempo dividido, Assírio & Alvim, 5.ª edição, 2019, p. 28

Chega de mentiras Pinóquio



 

Comício autárquico em Évora




 Praça do Giraldo

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Rio Liz







 LEIRIA 

E tu, Vida

E tu, Vida, cada vez mais viçosa

na oscilação nervosa

das tuas ancas fecundas e sempre virgens!

À punhalada dilacero a folhagem

e abro clareiras

na floresta milenária do meu caminho.


 FONSECA, Manuel, Obra poética, Alfragide, Caminho 11.ª ed., 2011, p. 46

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Outono


  O Outono anda enfeitado de viúvo, como um cego a dedilhar numa viola. Os céus têm tons nacarados e às vezes transforma-se em densas escuridões, antecedendo a época pluvial. As folhas caídas das árvores, à deriva, invadem os passeios, goza-se o Outono na magreza do clima, a vê-lo nas margens das lagoas dos montes e em certos riachos. Os ventos bailam. Ao rés dos beirais. Ou rugem nas distâncias, lembrando sons de batuques na fronteira do Alentejo com a do Algarve.  

SILVA, Antunes da, Alentejo é sangue, Porto, 3.a edição, Livros Horizonte, 1984, p. 260.

Arouca












 

Praça ao fim do dia


 ÉVORA 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Os ricos nunca perdem a jogada

Os ricos nunca perdem a jogada

Nunca fazem um erro. Espiam

E esperam os erros dos outros

Administram os erros dos outros

São hábeis e sábios

Têm uma longa experiência do poder

E quando não podem usar a própria força

Usam a fraqueza dos outros

Apostam na fraqueza dos outros

E ganham

 

Tecem uma grande rede de estratagemas

Uma grande armadilha invisível

E devagar desviam o inimigo para o seu terreno

Para o sacrificar como um toiro na arena 

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner,  FRAGMENTO DE «OS GRACOS», Ilhas, Assírio & Alvim, 6.ª edição, 2016, p. 34.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Na minha vida

 Na minha vida há sempre um silêncio morto

Uma parte de mim que não se pode

Nem desligar nem partir nem regressar

Aonde as coisas eram uma intimamente

Como no seio morno de uma noite 

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, No tempo dividido, Assírio & Alvim, 5.ª edição, 2019, p. 24.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Não sou nada

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada

À parte isso

Tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

CAMPOS, Álvaro de, “Tabacaria”, Poesia de Álvaro de Campos, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001, p.320.