sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Coudelaria de Alter


 Alter do Chão

A porta


Porque

por essa porta

sobre a rugosa luz da tarde

terás ainda tempo

de pegar nos pés e meter-te a caminho,

sem raízes

a enredar-te os passos,

pois para a morte

não tens ainda palavras,

ainda não, ainda não, ainda não.


 ANDRADE, Eugénio de, Ofício de Paciência, Porto, Assírio & Alvim, 2018, p. 70.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Saindo do Sado


 Praia do Albarquel 

Calor

O calor abrandou, para logo voltar com quarenta graus à sombra. No interior dos dias o sol a ferver queima decisões, projectos: o sono amolece os trabalhos burocráticos, por vezes gritos coléricos perfuram o ardor das tardes.

A gente da cidade que ainda não foi para o Algarve, ou não tem já dinheiro para férias, despeja-se aos fins de semana na Costa da Caparica. Muitos gastam o que podem e o que não podem. 

Há quem procure o Jardim das Plantas ou a Tapada da Ajuda, onde encontra capelas vegetais e uns vestígios de frescura. No seio do calor sonha o peso dos desejos entre sonos irregulares.

Nas praças adormecidas de Lisboa, onde vegetam reformados e protectores de pomboos e pardais, passeia também o inominável horror do fim: muita gente anónima e velha e alguns sem-abrigo têm morrido com o calor, tanto ou mais do que os bombeiros e os camponeses que perderam a vida e os haveres, entre chamas, nas florestas consumidas da Baeira, do Alto Alentejo e de Monchique.

O sol chispa no espelhado do granito imaginário de algumas miragens de pedra. Na velha Lisboa lindíssima que desce para o Tejo, desprosperando cada dia mais, abrem-se devagar umas poucas esperanças de mudança ao sopro húmido do rio.

  

RODRIGUES, Urbano Tavares, Prosa - O Eterno Efémero, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2011,  pp.129-130.

Redondo florido


 

sábado, 12 de agosto de 2023

Descendo no elevador


Elevador de Santa Luzia, Viana do Castelo

O que hoje somos

O que hoje somos deriva dos pensamentos de ontem. Os nossos pensamentos de hoje constroem as vidas do amanhã: as nossas vidas são criações das nosssas mentes.


HAY, Louise , HOLDEN, Robert, A vida ama-me, s.l., Pergaminho, 2015, p. 48.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Tejo


 Subindo no elevador panorâmico de Olho de Boi, Almada

Azul do céu e do teatro


 Almada

Apresto-me aos feitiços e abro os lençóis ao luar

Apresto-me aos feitiços e abro os  lençóis ao luar.

No ermo a voz sem termo de Hécata a chamar.

Suas tochas na noite são um incêndio ao fundo

A arder na matriz dos mistérios do mundo.

 (....)

Algures nessa vertigem vim virgem de outras eras

Ser violada ao luar num festim de pantera.

Vida! de quantas vidas tiras o mel e e o limo

Acomodando inúmeras almas a um só destino.


Venho, mas porque venho não sei. Qual o endereço?

principiei no fim para acabar no começo?

Indago-me no nexo das rosas. Mortas? Vivas?

Na fleuma do eterno trocam-se as perspetivas.


Doidamente me isola um astro desconexo,

Ou será toda minha a insânia do universo?

À mercê da potência que move o ir  voltar

Vagueio, Oh, quantos séculos faltam para a mim chegar! (...)


CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, pp. 276-277.

Pronunciando o teu nome te possuo

Não ganhas nada em fugir de mim

posto que como diz o título deste poema

pronunciando o teu nome te possuo.


PARRA, Nicanor, Acho que vou morrer de poesia, s.l.,  Língua Morta, 2019,p. 192.

Não te imiscuas

Cordeiro de Deus que lavas os pecados do mundo

Dá-me a tua lã para eu fazer uma camisola.

Cordeiro de Deus que lavas os pecados do mundo

Deixa-nos fornicar em paz:

Não te imiscuas nesse momento sagrado


PARRA, Nicanor, Acho que vou morrer de poesia, Língua Morta, 2019, p.83.

Ao leitor

A vida é nossa

vivêmo-la como queremos

e ninguém tem nada com isso


PIMENTA, José António, Deixa entrar a noite na palavra, Coimbra, MinervaCoimbra, 2019, p. 37

De ramo em ramo

Évora


Não queiras transformar 

em nostalgia

o que foi exaltação.

em lixo o que foi cristal.

A velhice,

o primeiro sinal

de doença da alma,

às vezes contamina o corpo.

Nenhum pássaro

permite à morte dominar

o azul do seu canto.

Faz como eles: dança de ramo

em ramo.


 ANDRADE, Eugénio de, Ofício de Paciência, Porto, Assírio & Alvim, 2018, p. 29

Struggle for life

SIM, bem sei que o tablado em que figuro

Longe está bem de mim léguas e léguas.

Minhas pupilas viam longe... e eu cego-as;

Mas sei que finjo achar o que procuro.


Sei que o meu sonho é imenso e anseia ar puro,

Mas, no meu gabinete, o meço a réguas.

Sei que devo aguardar, velar sem tréguas,

Mas busco o sono e embrulho-me no escuro.


Sei que este meu aspecto dúbio, fez-mo

A vida em que o meu SER supremo e belo

E os meus gestos indómitos não cabem.


Sei que sou parodia de mim mesmo.

Sei tudo... E para quê?, porquê sabê-lo?

Viver é entrar no rol dos que o não sabem!


 RÉGIO, José, Biografia, 6.ª edição, Guimarães, Ópera Omnia, 2020, p.15.


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Anda

Fazes-me safada

Eu sinto-me cabra

Não me perguntes nada

Apenas anda


Quero ver, tocar e sentir 

Tudo fazer menos 'finir'

O momento usufruir 

E assim me definir...


Xpto 

sábado, 5 de agosto de 2023

Vieste para passar já que és vertigem?

Vieste para passar já que és vertigem?

És vidro? és diamante? és puta ou virgem?

Fica serenamente. Como a paz.  


CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p.200

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Viagem

Viagem sem estar nos mastros

mastros sem estar no navio

navio sem estar no mar

e mar sem estar na viagem,

era o sol que o transcorria

fugindo duma visão

que era a liberdade extinta

na mágoa do coração

ausente na própria imagem.


 CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 59.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Socorros a Náufragos


Edifício que marca a paisagem da Fuzeta 

A ser verdade

A ser verdade, deve ter sentido que tinha perdido o familiar calor do mundo, e pago um preço demasiado alto por viver demasiado tempo com um único sonho. Deve ter perscrutado um céu pouco familiar, através de folhas sinistras, e tremido quando descobriu como uma rosa pode ser grotesca e como o sol é implacável para com a erva tenra.


FITZGERALD, F.Scott, O Grande Gatsby, Porto, Porto Editora, 2020, p. 175.