sexta-feira, 20 de março de 2026

Gaivotas cascalenses




 CASCAIS

O que é a felicidade?

A felicidade é o sinal da vertigem.

Concêntrica.

Mesmo no salto mortal e vivo.

Braços abertos, silenciosamente, no ar.

E amando a terra 

Cai

E continua.


Deslizando sobre precipícios,

Uma só linha o conduz

E o envolve,

Uma superfície isenta para todos os traços.


Afável e mortal,

Dura e fria.

Renascente,

Extremamente visível.


Um só entusiasmo.


ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, pp. 61-62.

My little bird


 

Quando os santos saem do Altar





 Igreja de São Francisco de Évora

quinta-feira, 19 de março de 2026

A filosofia é ver o que existe no que não existe

 TAVARES, Gonçalo M., Biblioteca, Porto, Campo das Letras, 2004, p. 18.

Pensamos

Pensamos que

Os nossos pais são 

Inquebráveis

até que um dia

descobrimos

que não são. 

- o que significa realmente perder a nossa inocência.



LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 75.

Ruas de Portimão





 

quarta-feira, 18 de março de 2026

Levo-me

Levo-me na vontade do verso

Ouvindo ao longe as vozes do mar...

E com o mar converso

na paciência que segura a pressa.


Ao som de um velho tambor

preguiçosamente invento o poema 

e nesse ouvir de tocar te ouço

e te reinvento

em cada proa

em que me soa

A viagem por onde vens...

com tudo o que tens.


ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa,  Guerra e Paz Editores, 2022,  p. 30.

Recuperando a cobertura do Celeiro



ÉVORA
 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Haja sol... e mar




 Praia do Amado, Portimão 

Lição de velho

Agora que era velho é que concluiu que tinha de aprender tão triste lição, mas se queria mesmo enfrentar as dificuldades que haviam de vir, então só tinha uma hipótese: substituir a brandura pela dureza...

AUSTER, Paul, Timbuktu, Alfragide, Edições Asa, 2021, p. 115.

Se a morte está em toda a parte, que diferença é que faz o sítio para onde se vai?

AUSTER, Paul, Timbuktu, Alfragide, Edições Asa, 2021, p. 121.

Rei a apreciar a baía




 Rei D.Carlos e a baía de Cascais 

domingo, 8 de março de 2026

Portugal primeiro



 Rio Arade - Portimão 

Oh - fazer das mulheres

Oh - fazer das mulheres um manequim cheio de defeitos,

Coligir pernas e braços e montar um autómato

que me atira da córnea um outro olhar

da derradeira já 

(...)

JONAS, Daniel, Canícula, s.l., Língua morta, 2017, p. 76.

Será??

 A única coisa 

Necessária

Para ser mulher

É

Identificar-se

Como tal.


- ponto final, fim da história.


 LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 195


sexta-feira, 6 de março de 2026

Estrela do mar

No dia em que a maré já for bonita

Serás tu a menina do barco 

Dona de um abraço de agasalhar...

Virei eu do céu, na vontade que teremos

em ir buscar ao mar o beijo que perdemos

lá na tormenta, ia então a maré aflita.


E se o meu coração te pedir

para ir no barco onde o beijo encalhe

Leva-o num abraço, até esse barco 

Que será meu e teu

Do tamanho do teu mar ao meu céu.


Vamos lá, por esse mar, como quem tem chão 

Nesse beijo tanto de sermos nós...

Vamos lá, do mar ao céu, e depois voltar

Nesse abraço tão beijado de afecto...

No teu barco, nosso cantinho predilecto...

Por esse mar, na calma da palma de cada mão.


Para no barco sabermos, tu e eu

Se és uma estrela do mar...

se és uma estrela do céu...



ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa,  Guerra e Paz Editores, 2022,  p. 71

quarta-feira, 4 de março de 2026

Sozinho

 Sozinho na grande cama,

Perdido nos seus frios corredores,

Ouço, de quartos interiores,

A tua voz que me chama.


Do fundo da noite enorme

Onde pouso a cabeça por fora

A tua voz de alguém acorda-me

Como num sono insone.


Como se a tua voz agora

Antigamente me chamasse

E tudo, menos a tua voz, faltasse

Fora da minha memória.


PINA, Manuel António, Desimaginar o mundo - ensaios, Lisboa, Documenta, 2020, p. 64.



segunda-feira, 2 de março de 2026

O seu passado é o futuro de tudo

PINA, Manuel António, Desimaginar o mundo - ensaios, Lisboa, Documenta, 2020, p. 8.





Quanto mais se ama

Quanto mais se ama, mais se espera desse amor e maior é a desilusão quando se dá mais do que se recebe.

SANTOS, Maria Luísa,  Lá fora não há nada disto, s.l., Epopeia, 2022, p.  162.

domingo, 1 de março de 2026

Acabou Fevereiro



CRUZ, Gastão, Existência, Porto, Assírio e Alvim, 2017, p. 40.

Reconciliações

Dão-se nos sonhos reconciliações

Em lugares blindados


onde não entra nunca a realidade

e o amor é apenas o desejo

(....)


CRUZ, Gastão, Existência, Porto, Assírio e Alvim, 2017, p. 19.

Um caminho de palavras

... O vento é fresco: sei que vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está,  mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.


Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.


Caminho um caminho de palavras 

(Porque me deram o sol)

E por esse caminho me ligo ao sol

e pelo sol me ligo a mim


E porque a noite não tem limites

Alargo o dia e faço-me dia

E faço-me sol porque o sol existe


Mas a noite existe

E a palavra sabe-o.


ROSA, António Ramos, Poesia presente - Antologia, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 45.q

Alecrim


 Praia da Rocha, Portimão