Era um véu de tristeza encantadora,
Névoa de noite de luar de agosto,
Sombra misteriosa emoldurando
A curva graciosa de teu rosto!
VERDE, Cesário, Cânticos do Realismo e outros poemas – 32 cartas, Lisboa, Círculo de Leitores, 2005, p. 56
Era um véu de tristeza encantadora,
Névoa de noite de luar de agosto,
Sombra misteriosa emoldurando
A curva graciosa de teu rosto!
VERDE, Cesário, Cânticos do Realismo e outros poemas – 32 cartas, Lisboa, Círculo de Leitores, 2005, p. 56
Máximas para a vida: Les unions complètes sont rares. Não se pode modificar a humanidade, apenas conhecê-la. A felicidade é uma capa escarlate com o forro em farrapos. Os amantes são como dois irmãos siameses, dois corpos com uma só alma; mas se um dos corpos morre antes do outro o sobrevivente vive a arrastar um cadáver. O orgulho faz-nos desejar uma solução para as coisas: uma solução, um fim, uma causa final; mas quanto melhores são os telescópios, mais numerosas as estrelas. Não se pode modificar a humanidade, apenas podemos conhecê-la. Les unions complètes sont rares.
BARNES, Julian, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, p 217.
Mas: se o tempo se alongasse?
Se o tempo: um cavalo intenso
e de infinito mistério,
trazendo de novo agosto,
um cheiro a sério de rosas,
o caramanchão bordado,
o meu avô outra vez,
o pão que ele preparava,
a ternura nos seus dedos,
e o seu anel de uma pedra
que eu não consigo lembrar,
mas que a textura me lembra,
e que a sua cor por força
me ajudaria a lembrar?
Se ele trouxesse outra vez
as letras mortas e lentas
(...)
Poderás não me ver hoje,
amanhã ou nunca,
mas há em mim o aroma do jasmim,
o baile das acácias
onde o vento norte
trás o sabor das nogueiras,
o ondular das marés,
as infinitas nuvens
que se somem
por entre o teu horizonte.
Poderei não te ver hoje,
amanhã ou nunca,
mas há um renascer novo,
um olhar meigo, um sentir...
José Alberto, poeta eborense
| Ilha do Farol, Ria Formosa |
Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra do mar, Caminho, 5.ª edição, 2005, p 58.
Para além de palavras como «boulangerie» e «fromagerie», sabia francês suficiente para perceber que o título da escultura de Rodin, «Le Baise», fazia parte da sua subversão. Pois «baiser», em francês, tanto pode significar a inocência de um beijo como a qualidade animalesca de uma foda. Pode-se dizer «le baiser» referindo um beijo mas, se se diz »Baise-moi», é uma súplica para se ser fodido. Inocência e súplica estão igualmente envolvidas no abraço destes dois amantes cujos lábios nunca se tocaram: imobilizados juntos, mas separados para toda a eternidade (...)
REYNARD, SYLVAIN, O Inferno de Gabriel, S. Pedro do Estoril, Saída de emergência, 2011, p 88.
HAWKINS, Peter S., Inferno e Paraíso, S. Pedro do Estoril, Saída de emergência, 2006, p. 84
Não ligo muito a coincidências. Há nelas algo de fantasmagórico: por um momento sentimos o que deve ser viver num universo ordenado, governado por Deus, com Ele próprio a olhar-nos sobre o ombro e a mostrar solicitamente sinais grosseiros de um plano cósmico. Prefiro sentir que as coisas são caóticas, independentes, permanente e temporariamente loucas, sentir a certeza da ignorância humana, da sua brutalidade, da sua loucura.
BARNES, Julian, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, p. 83.
Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória - é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti
E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas
Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus
Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem
O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes
e lembrar-te
exactamente,
de uma forma correcta
é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais.
Dedico-te este poema P, há um mês que te conheci, numa quinta-feira de lua cheia.
AMARAL, Ana Luísa, Imagias, Gótica, Viseu, 2002, pp. 7 e 8.
Ensina-se-lhes que sejam valente, para um dia virem a ser julgados por covardes!
Ensina-se-lhes que sejam justos, para viverem num Mundo em que reina a injustiça!
Ensina-se-lhes que sejam leais, para que a lealdade, um dia, os leve à forca!
MONTEIRO, Luís de Stau, Felizmente há luar, Maia, Areal Editores, 2017, p 83.

Praia do Amado, Portimão
Entre os que vão para o mar há os que descobrem novos mundos e acrescentam continentes à terra e estrelas ao céu: são os mestres, os grandes, os eternamente magníficos. Depois há os que cospem terror das portinholas dos navios, que pilham, que ficam ricos e engordam. Outros vão à procura de ouro e de seda sob céus estranhos. Outros ainda apanham salmão para os gourmet ou bacalhau para os pobres. Eu sou o obscuro e paciente pescador de pérolas, que mergulha nas aguas mais profundas e sobe de mãos vazias e cara roxa. Uma atracção fatal puxa-me para os abismos do pensamento, para os recônditos mais inacessíveis que nunca param de fascinar os fortes. Vou passar a minha vida a a olhar para o oceano da arte, onde outros viajam ou lutam; e de tempos a tempos vou-me entreter a mergulhar para apanhar aquelas conchas verdes e amarelas que ninguém vai querer. Vou ficar com elas para mim e cobrir com elas as paredes da minha cabana.
BARNES, Julian, 1846, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, pp. 40-41
“Tornar visível o tempo, a força do tempo”. Talvez se situe aqui o lugar, ou “sem o lugar” do Contemporâneo. Ele é este movimento entre o antes e o depois. Uma dança ao ritmo de tempos e de contratempos, num permanente desejo de acertar o passo com o par. É o movimento entre o dia e a noite, o crepúsculo já esbatido do que foi, a possibilidade do que ainda há-de vir a ser numa nova manhã. O contemporâneo “não é. Torna-se. Há-de vir. Devir”. É um trabalho, um processo de construção, um movimento, como se de um movimento de dança se tratasse, movimento que precisa de todas as partes do corpo, do espaço e do tempo para conseguir ser.
COSTA, Paula
Cristina, O Crepúsculo do contemporâneo, Lisboa, Passagens, 2020, pp. 95-96.
Tenho pena dos romancistas que têm de mencionar os olhos das mulheres; a escolha é tão limitada, e seja qual for a cor escolhida traz inevitavelmente implicações banais. Tem olhos azuis: inocência e honestidade. Tem olhos negros: paixão e profundidade. Tem olhos verdes: rebeldia e ciúme. Tem olhos castanhos: digna de confiança e cheia de senso comum. Tem olhos violeta: é um romance de Raymond Chandler.
BARNES, Julian, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, pp.98-99.
Para alguns, a Vida é rica e cremosa, feita segundo uma antiga receita caseira e só com produtos naturais, enquanto a Arte é um pálido produto comercial que consiste basicamente em corantes e sabores artificiais. Para outros, a Arte é a mais verdadeira das coisas, plena, movimentada e emocionalmente satisfatória, enquanto a Vida é pior que o pior dos romances: falha de enredo, povoada de maçadores e de velhacos, parca de espírito, envolta em incidentes desagradáveis e conducente a um desenlace doloroso e previsível. Os apoiantes do segundo ponto de vista tendem a citar Logan Pearsall Smith: "AS pessoas dizem que a vida é a realidade; mas eu prefiro a leitura".
BARNES, Julian, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, pp. 219-220.