segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Amor e cegueira

… o amor exige uma espécie de cegueira. Amamos não quem os nossos olhos enxergam, mas quem o nosso coração demanda. O ser amado é, quase sempre, uma invenção indulgente de quem ama.

AGUALUSA, José Eduardo, A Rainha Ginga e de como os africanos inventaram o mundo, Lisboa, Quetzal, 2018, p 129.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Eu quero| Tens de| Espero

Eu quero dar-me

Tens de merecer-me

Espero uma vida inteira para te alcançar.


Eu quero brincar

Tens de acompanhar-me

Espero não sofrer


Eu quero a verdade

Tens de ser sincero

Espero contigo não errar


Eu quero novas experiências 

Tens de me fazer viver

Espero livrar-me desta horrível concha...


Eu quero ser a tua prioridade,

Tens de me dar o teu tempo

Espero ser tua, amiga ou amante!


 (XPTO)

Acasos no amor

O acaso tem destes sortilégios, a necessidade, não. Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúna nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis.

KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p. 66.

Fio de tarde

Praia de Alvor

rasgava  a pele - quase um arrepio,

julguei estar a lembrar, na pele, beijinhos de alforreca,

arrepiava o dorso e me desertifcava todo para a passagem de camelos, formigas ou piolhos, até viajei no antigamente, na infância: banho para mim era um grande perigo, quase representava travessia de ego, a minha mãe era guia e carrasca - sorrisos dela.

rasgava a pele - quase um prazer.

espreitei a sensação

com os olhos cegos

e vi:

não era de rede, não era de teia,

era um fio de tarde empaturrado de brandura.


ONDJAKI, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, Editorial Caminho, 2009,p. 17.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Série 'Gato no jardim'







 Jardim Público de Évora 

Amizade erótica

Num curto espaço de tempo, conseguiu portanto, desembaraçar-se de uma mulher, de um filho, de uma mãe e de um pai. Só lhe ficara o medo das mulheres. Desejava-as, mas ela atemorizavam-no. Entre o medo e o desejo, arranjara um compromisso; era aquilo a que  chamava "amizade erótica". Dizia peremptoriamente às amantes; só uma relação expurgada de todo e qualquer sentimentalismo, só uma relação em que nenhum dos parceiros se arrogue qualquer direito especial sobre a vida e a liberdade do outro, pode fazê-los felizes a ambos.

KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p.19.

O sol vai-se embora



Praia do Amado

Oportunidade perdida

Queria saber quais os nossos pontos comuns,

Descobrir se o que sinto é apenas atração. 

Negas-me todas as oportunidades para isso,

Sobreviverá o platónico?

Obrigas-me a desistir de ti...

Não consigo esperar eternamente 

Porque tenho de me defender da tua ignorância. 

Porque começaste um diálogo 

Para te silenciar tão rapidamente?

Criticavas os meus medos

Mas és tu que foges de mim!

Porquê?

És uma bomba atómica

que fez explodir o meu eu verdadeiro,

- até então escondido

mas cuja nuvem se evaporou rapidamente...

Foste para longe (continuando perto)

deixando a radiação em mim.

Arrefeceste,

deixando-me sem uma mínima explicação!

Continuas adolescente???

Devias ter-me deixado como sempre vivera, 

desconhecendo-te.

Tornas-te em tudo uma musa

menos na tua misoginia!


 XPTO


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Podar a árvore

Queres podar a árvore. Os seus ramos desordenados, cheios de folhas, avançam em todas as direcções para apanhar o ar e o sol. Mas tu queres transformá-la numa encantadora árvore de latada, esticada contra uma parede, com frutos bons que uma criança possa apanhar, sem sequer precisar de uma escada.

BARNES, Julian,1846, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, pp. 39-40.


Bicicleta fotogénica



 Molhe da Praia da Rocha, Portimão 

A natureza



Alvor


(…) a Natureza não sabe que nós existimos. (…) uma pessoa no meio de um campo deve ter presente que a Natureza não é nem nossa amiga, nem nossa inimiga, é absolutamente insensível à vida humana. A Natureza pode ser conduzida, domesticada, melhorada, ou piorada, pela mão dos homens, mas sem dúvida que o seu percurso se fará apesar de nós, quando não contra nós. 


JORGE, Lídia, Em todos os sentidos, Alfragide, 2.ª edição, Publicações D. Quixote, 2020,  P 84-85.

Cesário Verde

 Quis dizer o mais claro e o mais corrente

Em fala chã e em lúcida esquadria

Ser e dizer na justa luz do dia

Falar claro falar limpo falar rente

 

Porém nas roucas ruas da cidade

A nítida pupila se alucina

Cães se miram no vidro da retina

E ele vai naufragando como um barco

 

Amou vinhas e searas e campinas

Horizontes honestos e lavados

Mas bebeu a cidade a longos tragos

Deambulou por praças por esquinas

 

Fugiu da peste e da melancolia

Livre se quis e não servo dos fados

Diurno se quis – porém a luzidia

Noite assombrou os olhos dilatados

 

Reflectindo o tremor da luz nas margens

Entre ruelas vê-se ao fundo o rio

Ele o viu com seus olhos de navio

Atentos à surpresa das imagens.

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Ilhas, Assírio & Alvim, 6.ª edição, 2016, p. 88.

Praia de Alvor ao final da tarde




 Agosto de 2021

Quando saíres das cidades/ onde ouvires risos/ é a minha casa

MENDONÇA, José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p 165

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Évora






 

A noite flutua/ sobre o rio/ como quem se passeia sozinho

MENDONÇA. José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p. 124.

O verdadeiro poder

O verdadeiro poder, o poder pelo qual temos de lutar noite e dia, não é o poder sobre as coisas, mas sobre os homens (...) O poder consiste em infligir dor e humilhação. O poder consiste em infligir dor e humilhação. O poder consiste em estralhaçar os espíritos humanos e recompô-los segundo novas formas escolhidas por nós.

ORWELL, George, 1984, Alfragide, D. Quixote, 2019, p. 294.

Simplesmente gosto

Gosto dos outros

que tem defeitos

gosto dos outros

que não são perfeitos


LOPES, Adília, Bandolim, Porto, Assírio e Alvim, 2016, p. 26.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Moram no teu corpo as palavras


Moram no teu corpo as palavras

mais belas, todas as que eu digo e todas

as que eu calo, as que vivem na pura

transparência do dia e as que se ocultam

sob o céu da noite, as que tu dizes

quando os olhos se fecham, as que segredas

num intervalo de conversa, as que se abrem

como a rosa, quando ao amor a desperta,

a as que ficam húmidas como a madrugada

em que uma promessa nasce.

 

Dispo o teu corpo dessas palavras, e

arrumo-as nas gavetas  límpidas da memória,

na boca em que um beijo se guarda, nas mãos

que procuram outras mãos, nos ombros nus,

na suavidade de um adeus, nos cabelos que correm

pelas costas como onda na vertigem

da praia, nos braços desenhados na simetria

de um abraço, no rosto que se abandona

numa entrega ao desejo que o procura, nos dedos

soltos à lentidão da língua que os saboreia.

 

E soletro as palavras mais belas que moram

no teu corpo, contando em cada sílaba os dias

que faltam para te ver.


 JÚDICE, Nuno, Regresso a um cenário campestre, Lisboa, D. Quixote, 2020, p- 63

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Oxalá


... eu amo-te sua tola, tal como o mar ama um minúsculo seixo no seu fundo, é exactamente assim que te cubro com o meu amor - e oxalá seja também um seixo ao teu lado, se o céu o permitir...

 

 KAFKA, Franz, Três cartas a Milena Jesenská, Assírio e Alvim, 2003, p. 39.

Luar

Praia da Rocha 


Depois, a noite; vem serena e calma,

Enluarada, com o seu manto claro,

Como uma noiva, pura em corpo e alma

Para um noivado excepcional e raro.

 

E nas praias desertas, o oceno

Rolando a voz de espuma, emamargura,

Põe-se a falar com um sentido humano,

De saudade, de amor e de aventura… 


BRAZ, João, Esta riqueza que o senhor me deu – Poemas, s.l., 2.ª edição, Edição do Autor, 1978, p 72.

E aqui, seu relicário, me deixou

Do lençol solitário

o branco mar te chama.

Procura em vão a chama,

o grito de silêncio, agudo e vário

que um dia me chamou 

e aqui, seu relicário,

me deixou.


 TAMEN, Pedro, Rua de nenhures, Lisboa, Publicações D. Quixote. 2013, p. 11

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Presépio Évora em montagem


 Mármore falso e verdadeiro 

Quantas pessoas caminham contra mim?

Quantas pessoas caminham na

minha direcção? Quantas me

descobrem por entre a multidão

e pousam os seus olhos inteiros

nos meus olhos? Podia acreditar


que entre elas está o homem que

trocaria comigo os dedos sobre a

mesa, uma palavra que fosse gomo

de laranja e poema, o corpo aceso


sob o lençol cansado de mais um

dia. Mas quantos destes rostos de

pedra que me cercam escondem o

seu pelas ruas desta tarde? Quantos

nomes de acaso e de silêncio terei

eu de escutar para descobrir o seu


no meu ouvido? Quantas pessoas

caminham contra mim?



PEDREIRA, Maria do Rosário, Poesia reunida, Lisboa, Quetzal, 2012, p.169.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Aqueduto da Água de Prata




 Évora 

Erodido


N. Sra da Pobreza, Núcleo Museológico da Igreja de São Francisco de  ÉVORA 


Uma mão de mármore, mas só os dedos,

sobre um ombro de mármore sem cabeça.

 

Um braço erodido que ninguém estende a ninguém.

 

Um cavalo sem patas.

Um cavaleiro que é só as suas coxas.

 

Dionísio em pedaços. Recomposto.

 

Um touro sem cornos a ser devorado

por um leão que não está,

só as suas garras.

 

Admiramos o desaparecido.

Talvez a nossa cultura nasça destas ausências,

do vazio, do que não há.

 

Também nós somos o que fica

de nós.

O que nos falta,

o vazio que cuida de nós.

 

PIQUERAS, Juan Vicente, Museu da Acrópole, Instruções para atravessar o deserto - poemas escolhidos, Porto, Assírio & Alvim, 2019, p 85.

 

Piteiras


Vale Pereiro, Arraiolos


Caminhos do Alentejo.

Terra bravia de fomes

com piteiras aceradas

como pontas de navalhas

em esperas de encruzilhadas!

Caminhando no Alentejo.

Desde valados e sebes, 

searas, vilas, aldeias

e chuvas e descampados

(sem manta de me abrigar,

ai, sem Maria Campaniça!...)

- caminhos do Alentejo,

desde menino vos piso!


FONSECA, Manuel, Obra poética, Alfragide, Caminho 11.ª ed., 2011, p.149.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Deriva

Fevereiro, início de tarde,

as sobras do frio

lambidas pelo sol.


Perdi o rumo da vida

em tarde como esta?

Não recordo


em que esquina

e não me atrapalha

a deriva -


o que é só meia

verdade, para caber

no poema.


OLIVEIRA, José Alberto, Rectificação da linha geral, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 33.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A luz e a obscuridade

Para Sabina, viver significa ver. A visão encontra-se limitada por duas fronteiras: uma luz de tal modo intensa que nos cega e uma obscuridade total. Talvez seja daí que lhe vem a repugnância por todos os extremismos. Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado.

Para Franz, a palavra luz não evoca a imagem de uma paisagem suavemente iluminada pelo sol, mas a fonte da luz enquanto tal: uma lâmpada, um projector. Vêm-lhe à cabeça as metáforas habituais: o sol da verdade, o brilho da razão, etc.

É atraído pela luz como também o é pela obscuridade. Nos dias que correm, quem apaga a luz para fazer amor arrisca-se a cair no ridículo; como ele tem consciência disso, deixa sempre uma luzinha acesa por cima da cama. No entanto, no momento em que penetra em Sabina, fecha os olhos exige a obscuridade. A volúpia que o invade exige a obscuridade. Uma obscuridade pura, absoluta, sem imagens nem visões, uma obscuridade sem fim, sem fronteiras, uma obscuridade que é o infinito que cada um de nós tem em  sim (sim, porque quem busca o infinito só tem de fechar os olhos!)

No momento em que sente a volúpia espalhar-se-lhe pelo corpo, Franz dissolve-se no infinito da sua obscuridade, ele próprio se transforma em infinito.

KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p. 121.

Casas algarvias






 Faro

Caminhando entre animais




 Évora 

Tantas vezes/ digo ao orvalho/ sou como tu

 MENDONÇA, José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p 171