segunda-feira, 14 de março de 2022

Adeus ao que não aconteceu

Queres silêncio?

Dou-te a despedida!

Não pretendes amizade,

apaga-me da lista!


Desprezas sensibilidade,

preferes jogos virtuais a reais,

dás prioridade à troca de fluídos.

Não à troca de palavras, 

de diálogos, 

de simples encontros...


Universo, 

só nos cruzamos,

nunca nos iremos entrecruzar

só pretendes aventurar -

superficialmente

ou corporalmente...


Queria interpretar-te

melhor que a um simples livro

mas não vejo eu sequer a lombada.

Serves apenas de musa,

da irreverência

e de aprendizagem - 

Tenho mesmo de evitar fugir à regra!


Sou invulgar de nome

e de coração,

detesto má educação!


Sou flor

que odeia ficar plantada,

podes me juntar à tua coleção

do que poderia ser,

uma vez que és perito em fugas!


É-te mais fácil ver os meus medos

que os teus?

Todos procuramos o mesmo,

só que tu pensas que só por dar 

o primeiro passo

tens sucesso garantido.


Eu tento dar mil passos

para tentar atingir

o sucesso ambicionado,

por isso pedi sempre mais...


Mais um encontro,

mais um olhar,

mais um sorriso,

mais um verbalizar...


Uma simples forma de entrares no meu mundo.

E de aquecer o teu coração,

porque rapidamente o fizeste com o meu,

penando de carência...


Eu tenho paciência, 

tu só exigência

Ambos perdemos em favor da independência...


Tu procuras um mundo melhor para todos

mas tornas-te no inimigo de todos

Eu procuro um mundo melhor para mim,

apesar de ser a própria inimiga de mim.

e assim, há mais São Valentim a chegar ao fim...


Vamos-nos libertar da concha?

Queimado estás,

Queimada fico

2021 mesmas ruas, 2022 caminhos diferentes

voltamos ao zero, nem um, nem dois...

Só...


Medo da sogra?

Medo de ser usada e abandonada.

Verdade defendo,

Falsidade e ignorância abomino!


Não deste carinho

nem cheirinho

a café,

só me lastimo...


Por ti cometi a minha maior aventura do ano.

Para nada de nada, apenas para perder completamente razão?

Não és futuro...

Apenas passado...


 XPTO

A montra do sangue

Esvoaças junto à pele em pedaços falsificados.

Turvas a outra face das palavras

As interditas e ditas sílaba a sílaba

No teu âmago sombrio

E solitário.


Expulsas a oratória lírica,

A água metafísica das veias do meu corpo.

Exibes sem pudor um pulsar

Clandestino

E fazes de mim, prosaicamente,

Um talho.


Mas as manchas de sangue que espalhas

Sobre os versos não atarem clientes.

Não enaltecem o corpo

Exposto

Num gancho ferrugento

Pingando uma história banal de lantejoulas

E circo.


A luxúria, a pelúcia da carne,

O seu destino repartido em esparsos romances

De cordel

Completam os teus voos de ave

Triste e migratória.

És um músculo a mais na delicada harmonia

Do desejo.


Resoa o eco do teu choro

A um canto da rua escura e sem nome

A que me reduziste.

O som submerso na espessa arquitectura

Do poema

Bate no meu peito

Mas ninguém dirá que tenho

Coração.


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, pp. 329-330

domingo, 13 de março de 2022

A peste de Tebas

Quando começou a tragédia

já o crime fora cometido.

A tragédia era, agora, desvendar o delito

e o culpado.

 

Eu teria preferido a ignorância.

Tu tinhas escolhido indagar contra ti.

 

O passado é mais forte

que Deus. Ninguém, nem Deus,

pode mudá-lo. Só a memória.

 

Vais envelhecendo e recordando

tudo aquilo que nunca aconteceu.

 

Pior que o medo do que vai acontecer

é o terror atento

do que possa ter acontecido.

 

PIQUERAS, Juan Vicente, Instruções para atravessar o deserto - poemas escolhidos, Porto, Assírio & Alvim, 2019, p. 43.

Viver é

Viver  é sobreviver ser gota de água

Nas mãos do mar

É saber morrer a seus pés

Sob o olhar dum deus que atravessa absoluto

A palavra do espaço.


Açores


Depois  de vivermos muito tempo junto ao mar

Sabemos que as palavras oxidam

Na cabeça

A largura da água é a medida mais fiel

a estranheza do corpo

Da sua duração no espírito. 


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, pp. 300-301.



Escuridão abstracta


 Évora

Bairro da Câmara








Évora 

Força de sobreiro





 Évora 

Mar de Agosto


 

Arribas algarvias


 Prainha, Portimão

Tentamos sempre disfarçar

Tentamos sempre disfarçar nos textos

Uma pequena história metafísica que nos livre da dor,

Da pequeniníssima dor de sermos animais.

Quem não chora não mama,

Quem não tem mãe não tem leite,

Quem não tem a natureza por si não tem nada.


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p. 404.

sábado, 12 de março de 2022

Nave especial


 Igreja de São Francisco de Évora 

Sem hipótese de verificação

Numa aula de trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer uma experiência para confirmar uma dada hipótese científica. Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos.

KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p. 47.

Estou

Estremoz 


 Estou diante de uma porta (de uma forma)

com o - como dizer? - coração

(um sítio sem lugar, uma situação)

cheio de palavras últimas e discórdia.


PINA, Manuel António, Os Livros, Lisboa, Assírio e Alvim, 2003, p. 15.

O silêncio

O silêncio só raramente é vazio

diz alguma coisa

diz o que não é


MENDONÇA. José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p 15

Uns aos outros

Todos nos temos uns aos outros e que todos precisamos uns dos outros. (...) Todos nos consumimos uns aos outros e a vida sem amigos como nós somos uns dos outros seria insuportável. O maior prazer de todos é dar prazer a outro ser humano.

SCHWARTZ, Delmore, Nos sonhos começam as responsabilidades, Lisboa, Guerra e Paz, 2020, p. 131.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Ele tinha medo de mim

Ele tinha medo de mim porque tinha medo de si próprio. Tinha medo de me amar completamente. Não era o simples terror de eu lhe invadir o escritório e a solidão; era o terror de eu lhe invadir o escritório e a solidão; era o terror de eu lhe invadir o coração.

 BARNES, Julian, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, p.190.

Mágoas

Qual é a tua mágoa?

Por fora és livre

Por dentro algo te aprisiona

XPTO

Tens mais medo do que eu?

Fizeste-me rejuvenescer

Para agora por dentro morrer...


A subir até quando?


 

Casa da Marília







 Faro

Os resíduos

O ar começa a doer

quando lentíssimos de amor

os resíduos caem

na palha:


a exígua

susbtância da alegria

ou lisa pedra de outono

morre na flor da candeia:


a escuridão invade

o pulso e gota a gota

a loucura

acode branca:


enquanto crescem dentes

à noite solitária

vem a música do sono

na água.


  ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 66

quinta-feira, 10 de março de 2022

Se fose tãao fácil expressar a minha mágoa...

Assim que expressares 

a mágoa que vai no fundo do teu coração,

ela será varrida.

Olha para uma flor,

ela é incapaz de esconder

o seu perfume ou a sua cor.

 

RUMI, O Pequeno livro da vida - o jardim da alma, do coração e do espírito, Alma dos Livros, 2020, p. 29.

Évora pela paz


 Igreja de São Francisco 

Encontrareis

Encontrareis acaso maior beleza (ainda que outrora me hajais dito que era bela), mas jamais encontrareis tanto amor, e tudo o resto nada é.

Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, pp. 30-31.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Macio? Rugoso?

 Macio: aquele muro tão rugoso,

de cimento amarelo e muito quente,

as histórias faladas em voz rouca,

e eu sem saber como falar de amor.


E eu sem saber como prever as coisas,

e as coisas já sem ser como as pensava.

Bastando alguns segundos, algum sol

infinitesimal, e o já sem ser.


O cimento amarelo: um pó tão fino,

e o calor como fio insidioso.

Bastando alguns segundos, algum frio,


e o muro mais rugoso que macio,

e o cheiro do caramanchão de rosas:

um cheiro a números e a letras mortas.

 

 AMARAL, Ana Luísa, Imagias, Gótica, Viseu, 2002, p. 19.

Arte Urbana


Lagos

Daltonismo

Quem sabe separa o cinzento do cinza.

laranja do amarelo, o roxo do azulado, carmim

do que dizem vermelho, enfim.

todas as nuances,

para mim é um meticuloso, um perito, quase um cientista,

eu que sei que sou daltónico, praticamente

desde que me conheço.


As cores têm muito a ver com a natureza da vida

de cada um de nós, e com a vida da natureza

sem nenhum de nós, todos nós sabemos.

Não pretendo ser autor naturalista, mem pintor de domingo, o que quase aconteceu.

fique o leitor sabendo.


Mas doem-me as cores que não sei entender,

o choro dalgumas rosas que talvez gostassem de ser brancas

e que o dizem, em crítica, que têm o amarelado

do ciúme.


(...)


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.-l., Língua Morta, 2021, p. 451.

terça-feira, 8 de março de 2022

Pôr de sol em Évora








 

As mulheres nasceram para ser comandantes dos homens

Tratar bem uma mulher não é tratá-la como uma princesa. As mulheres não nasceram para ser apaparicadas pelos homens; as mulheres nasceram para ser comandantes dos homens. E um cavalheiro de verdade é aquele que vê na mulher uma sua igual, e não um qualquer objecto bonito e querido. Não temos de ser queridas; temos de ser boas. No que somos, no que fazemos, no que falamos. Temos de nos dar ao respeito para ser respeitadas.

FREITAS, Pedro Chagas, O Amor não cresce nas árvores, Alfragide, Oficina do Livro, 2018, p. 208.

Ter nascido mulher

Para Sabina, o facto de ser mulher é uma condição que não escolheu. O que não é efeito de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso. Sabina pensa que, face a um estado que nos é imposto, temos de saber adoptar a melhor atitude possível. Parece-lhe tão absurdo insurgir-se contra o facto de ter nascido mulher como glorificar-se com ele.

KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p.116.

 

Convento da Saudação















Montemor-o-Novo, 2017

Templo


Igreja de São Francisco  de Évora 


quando o templo se esvazia

então brilha

esplêndida


MENDONÇA. José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p. 19.

domingo, 6 de março de 2022

Stop the war





Paz na Ucrânia, na Europa e no Mundo. Évora

És meu amigo?

Évora 

 

O que não tenho

 o que não tenho

a escuridão é luz

donde não chego venho

o que rasga seduz


tudo é páscoa de morte

tudo é páscoa de vida

tudo é fraco e é forte

a entrada é saída


tudo é contradição

de medo e destemor

tudo me é coração

meu amor meu amor



TANEM, Pedro, Rua de nenhures,Alfragide Publicações D. Quixote, 2013, p  39.

sábado, 5 de março de 2022

N Sra Orante

Visita à Paróquia de S Pedro, Évora

Quando tudo parece ruim nesta vida, há sempre sinais da presença de Deus, hoje tive o prazer de receber a tranquilidade desta Mãe e rezar aos seus pés. Que N. Sra. me dê paz ao meu coração, partido com tanta mágoa e desilusão, cansado de falsidades, invejas e cinismo. Esgotada demais por lutar contra a solidão, para enfrentar agora este combate...

Olhando para o céu à procura de uma resposta


 Évora 

MAR TRANSPARENTE



 Praia da Rocha

Sarça ardente




Um toque leve,

e eu perder-me-ei

- pelas planícies todas do azul,

pelos campos mais longos

que quiseres,

em direcção a leste, a norte,

a sul


Um toque tão macio de rouxinol

que a tortura se apague,

um nome se incendeie

junto ao chão

e expluda com a tarde


Desliza-me na pele

o fio incandescente dos teus dedos,

que eu entrarei de frente

pelo sol,

e arderei no sol, sem medo -

 

AMARAL, Ana Luísa, Imagias, Gótica, Viseu, 2002, p. 98

sexta-feira, 4 de março de 2022

Volto de novo ao princípio

A ideia de isto cansa-me

em qualquer sítio fora de qualquer sítio

onde o meu cansaço é só um conceito.

(Há qualquer coisa que quer falar e apenas foge;


as palavras perseguem a sua miragem,

e eu sou o lugar onde tudo isto se passa fora de mim,

a Literatura, o cansaço e a ideia de isso.

Já não tenho palavras para não dizer qualquer coisa.)

 

Volto de novo ao princípio de tudo,

ao lado de fora, onde fala de isto;

o que aí falta está parado

sobre a Literatura.

 

Pina, Manuel António, Todas as palavras, Porto, 3.ª edição, Assírio e Alvim, 2013, p. 78.

Amei-vos como uma insensanta

Amei-vos como uma insensanta: quanto desprezo eu tive por todas as coisas! O vosso procedimento não é de um homem de bem. Só por me terdes uma aversão natural me não haveis amado perdidamente. Deixei-me enfeitiçar por muito medíocres qualidades. Que haveis feito para me agradardes? Que sacrifício por mim fizestes? Não procuraste  vós mil outros prazeres? Será que haveis renunciado  ao jogo e à caça? Não foste vós o primeiro a partir com o Exército? Não regressastes depois de todos os outros?

 

Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, p. 91.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Procura a luz

Procura a luz além da luz do dia e da noite,

além do julgamento, a luz concedida por Deus.

Deixando a escuridão, somos o luar que à Lua regressa,

pois a verdade é que a Ele todos devemos regressar

 

RUMI, O Pequeno livro da vida - o jardim da alma, do coração e do espírito, Alma dos Livros, 2020, p.109