terça-feira, 15 de março de 2022
segunda-feira, 14 de março de 2022
Adeus ao que não aconteceu
Queres silêncio?
Dou-te a despedida!
Não pretendes amizade,
apaga-me da lista!
Desprezas sensibilidade,
preferes jogos virtuais a reais,
dás prioridade à troca de fluídos.
Não à troca de palavras,
de diálogos,
de simples encontros...
Universo,
só nos cruzamos,
nunca nos iremos entrecruzar
só pretendes aventurar -
superficialmente
ou corporalmente...
Queria interpretar-te
melhor que a um simples livro
mas não vejo eu sequer a lombada.
Serves apenas de musa,
da irreverência
e de aprendizagem -
Tenho mesmo de evitar fugir à regra!
Sou invulgar de nome
e de coração,
detesto má educação!
Sou flor
que odeia ficar plantada,
podes me juntar à tua coleção
do que poderia ser,
uma vez que és perito em fugas!
É-te mais fácil ver os meus medos
que os teus?
Todos procuramos o mesmo,
só que tu pensas que só por dar
o primeiro passo
tens sucesso garantido.
Eu tento dar mil passos
para tentar atingir
o sucesso ambicionado,
por isso pedi sempre mais...
Mais um encontro,
mais um olhar,
mais um sorriso,
mais um verbalizar...
Uma simples forma de entrares no meu mundo.
E de aquecer o teu coração,
porque rapidamente o fizeste com o meu,
penando de carência...
Eu tenho paciência,
tu só exigência
Ambos perdemos em favor da independência...
Tu procuras um mundo melhor para todos
mas tornas-te no inimigo de todos
Eu procuro um mundo melhor para mim,
apesar de ser a própria inimiga de mim.
e assim, há mais São Valentim a chegar ao fim...
Vamos-nos libertar da concha?
Queimado estás,
Queimada fico
2021 mesmas ruas, 2022 caminhos diferentes
voltamos ao zero, nem um, nem dois...
Só...
Medo da sogra?
Medo de ser usada e abandonada.
Verdade defendo,
Falsidade e ignorância abomino!
Não deste carinho
nem cheirinho
a café,
só me lastimo...
Por ti cometi a minha maior aventura do ano.
Para nada de nada, apenas para perder completamente razão?
Não és futuro...
Apenas passado...
XPTO
A montra do sangue
Esvoaças junto à pele em pedaços falsificados.
Turvas a outra face das palavras
As interditas e ditas sílaba a sílaba
No teu âmago sombrio
E solitário.
Expulsas a oratória lírica,
A água metafísica das veias do meu corpo.
Exibes sem pudor um pulsar
Clandestino
E fazes de mim, prosaicamente,
Um talho.
Mas as manchas de sangue que espalhas
Sobre os versos não atarem clientes.
Não enaltecem o corpo
Exposto
Num gancho ferrugento
Pingando uma história banal de lantejoulas
E circo.
A luxúria, a pelúcia da carne,
O seu destino repartido em esparsos romances
De cordel
Completam os teus voos de ave
Triste e migratória.
És um músculo a mais na delicada harmonia
Do desejo.
Resoa o eco do teu choro
A um canto da rua escura e sem nome
A que me reduziste.
O som submerso na espessa arquitectura
Do poema
Bate no meu peito
Mas ninguém dirá que tenho
Coração.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, pp. 329-330
domingo, 13 de março de 2022
A peste de Tebas
Quando começou a tragédia
já o crime fora cometido.
A tragédia era, agora, desvendar o delito
e o culpado.
Eu teria preferido a ignorância.
Tu tinhas escolhido indagar contra ti.
O passado é mais forte
que Deus. Ninguém, nem Deus,
pode mudá-lo. Só a memória.
Vais envelhecendo e recordando
tudo aquilo que nunca aconteceu.
Pior que o medo do que vai acontecer
é o terror atento
do que possa ter acontecido.
PIQUERAS, Juan Vicente, Instruções para
atravessar o deserto - poemas escolhidos, Porto, Assírio & Alvim, 2019, p. 43.
Viver é
Viver é sobreviver ser gota de água
Nas mãos do mar
É saber morrer a seus pés
Sob o olhar dum deus que atravessa absoluto
A palavra do espaço.
Depois de vivermos muito tempo junto ao mar
Sabemos que as palavras oxidam
Na cabeça
A largura da água é a medida mais fiel
a estranheza do corpo
Da sua duração no espírito.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, pp. 300-301.
Tentamos sempre disfarçar
Tentamos sempre disfarçar nos textos
Uma pequena história metafísica que nos livre da dor,
Da pequeniníssima dor de sermos animais.
Quem não chora não mama,
Quem não tem mãe não tem leite,
Quem não tem a natureza por si não tem nada.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p. 404.
sábado, 12 de março de 2022
Sem hipótese de verificação
Numa aula de trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer uma experiência para confirmar uma dada hipótese científica. Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos.
KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p. 47.
Estou
![]() |
| Estremoz |
Estou diante de uma porta (de uma forma)
com o - como dizer? - coração
(um sítio sem lugar, uma situação)
cheio de palavras últimas e discórdia.
PINA, Manuel António, Os Livros, Lisboa, Assírio e Alvim, 2003, p. 15.
O silêncio
O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é
MENDONÇA. José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p 15
Uns aos outros
Todos nos temos uns aos outros e que todos precisamos uns dos outros. (...) Todos nos consumimos uns aos outros e a vida sem amigos como nós somos uns dos outros seria insuportável. O maior prazer de todos é dar prazer a outro ser humano.
SCHWARTZ, Delmore, Nos sonhos começam as responsabilidades, Lisboa, Guerra e Paz, 2020, p. 131.
sexta-feira, 11 de março de 2022
Ele tinha medo de mim
Ele tinha medo de mim porque tinha medo de si próprio. Tinha medo de me amar completamente. Não era o simples terror de eu lhe invadir o escritório e a solidão; era o terror de eu lhe invadir o escritório e a solidão; era o terror de eu lhe invadir o coração.
BARNES, Julian, O papagaio de Flaubert, Lisboa, Quetzal, 2019, p.190.
Mágoas
Qual é a tua mágoa?
Por fora és livre
Por dentro algo te aprisiona
XPTO
Tens mais medo do que eu?
Fizeste-me rejuvenescer
Para agora por dentro morrer...
Os resíduos
O ar começa a doer
quando lentíssimos de amor
os resíduos caem
na palha:
a exígua
susbtância da alegria
ou lisa pedra de outono
morre na flor da candeia:
a escuridão invade
o pulso e gota a gota
a loucura
acode branca:
enquanto crescem dentes
à noite solitária
vem a música do sono
na água.
ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 66
quinta-feira, 10 de março de 2022
Se fose tãao fácil expressar a minha mágoa...
Assim que expressares
a mágoa que vai no fundo do teu coração,
ela será varrida.
Olha para uma flor,
ela é incapaz de esconder
o seu perfume ou a sua cor.
RUMI, O Pequeno livro da vida - o jardim da alma, do coração e do espírito, Alma dos Livros, 2020, p. 29.
Encontrareis
Encontrareis acaso maior beleza (ainda que outrora me hajais dito que era bela), mas jamais encontrareis tanto amor, e tudo o resto nada é.
Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, pp. 30-31.
quarta-feira, 9 de março de 2022
Macio? Rugoso?
Macio: aquele muro tão rugoso,
de cimento amarelo e muito quente,
as histórias faladas em voz rouca,
e eu sem saber como falar de amor.
E eu sem saber como prever as coisas,
e as coisas já sem ser como as pensava.
Bastando alguns segundos, algum sol
infinitesimal, e o já sem ser.
O cimento amarelo: um pó tão fino,
e o calor como fio insidioso.
Bastando alguns segundos, algum frio,
e o muro mais rugoso que macio,
e o cheiro do caramanchão de rosas:
um cheiro a números e a letras mortas.
AMARAL, Ana Luísa, Imagias, Gótica, Viseu, 2002, p. 19.
Daltonismo
Quem sabe separa o cinzento do cinza.
laranja do amarelo, o roxo do azulado, carmim
do que dizem vermelho, enfim.
todas as nuances,
para mim é um meticuloso, um perito, quase um cientista,
eu que sei que sou daltónico, praticamente
desde que me conheço.
As cores têm muito a ver com a natureza da vida
de cada um de nós, e com a vida da natureza
sem nenhum de nós, todos nós sabemos.
Não pretendo ser autor naturalista, mem pintor de domingo, o que quase aconteceu.
fique o leitor sabendo.
Mas doem-me as cores que não sei entender,
o choro dalgumas rosas que talvez gostassem de ser brancas
e que o dizem, em crítica, que têm o amarelado
do ciúme.
(...)
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.-l., Língua Morta, 2021, p. 451.
terça-feira, 8 de março de 2022
As mulheres nasceram para ser comandantes dos homens
Tratar bem uma mulher não é tratá-la como uma princesa. As mulheres não nasceram para ser apaparicadas pelos homens; as mulheres nasceram para ser comandantes dos homens. E um cavalheiro de verdade é aquele que vê na mulher uma sua igual, e não um qualquer objecto bonito e querido. Não temos de ser queridas; temos de ser boas. No que somos, no que fazemos, no que falamos. Temos de nos dar ao respeito para ser respeitadas.
FREITAS, Pedro Chagas, O Amor não cresce nas árvores, Alfragide, Oficina do Livro, 2018, p. 208.
Ter nascido mulher
Para Sabina, o facto de ser mulher é uma condição que não escolheu. O que não é efeito de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso. Sabina pensa que, face a um estado que nos é imposto, temos de saber adoptar a melhor atitude possível. Parece-lhe tão absurdo insurgir-se contra o facto de ter nascido mulher como glorificar-se com ele.
KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p.116.
Templo
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| Igreja de São Francisco de Évora |
quando o templo se esvazia
então brilha
esplêndida
MENDONÇA. José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p. 19.
segunda-feira, 7 de março de 2022
Os nossos olhos não conseguem perceber Deus
Mas Ele percebe-nos.
RUMI, O Pequeno livro da vida - o jardim da alma, do coração e do espírito, Alma dos Livros, 2020, p.50
domingo, 6 de março de 2022
O que não tenho
o que não tenho
a escuridão é luz
donde não chego venho
o que rasga seduz
tudo é páscoa de morte
tudo é páscoa de vida
tudo é fraco e é forte
a entrada é saída
tudo é contradição
de medo e destemor
tudo me é coração
meu amor meu amor
TANEM, Pedro, Rua de nenhures,Alfragide Publicações D. Quixote, 2013, p 39.
sábado, 5 de março de 2022
N Sra Orante
| Visita à Paróquia de S Pedro, Évora |
Sarça ardente
Um toque leve,
e eu perder-me-ei
- pelas planícies todas do azul,
pelos campos mais longos
que quiseres,
em direcção a leste, a norte,
a sul
Um toque tão macio de rouxinol
que a tortura se apague,
um nome se incendeie
junto ao chão
e expluda com a tarde
Desliza-me na pele
o fio incandescente dos teus dedos,
que eu entrarei de frente
pelo sol,
e arderei no sol, sem medo -
AMARAL, Ana Luísa, Imagias, Gótica, Viseu, 2002, p. 98
sexta-feira, 4 de março de 2022
Volto de novo ao princípio
A ideia de isto cansa-me
em qualquer sítio fora de qualquer sítio
onde o meu cansaço é só um conceito.
(Há qualquer coisa que quer falar e apenas foge;
as palavras perseguem a sua miragem,
e eu sou o lugar onde tudo isto se passa fora de mim,
a Literatura, o cansaço e a ideia de isso.
Já não tenho palavras para não dizer qualquer coisa.)
Volto de novo ao princípio de tudo,
ao lado de fora, onde fala de isto;
o que aí falta está parado
sobre a Literatura.
Pina, Manuel António, Todas as palavras, Porto, 3.ª edição, Assírio e Alvim, 2013, p. 78.
Amei-vos como uma insensanta
Amei-vos como uma insensanta: quanto desprezo eu tive por todas as coisas! O vosso procedimento não é de um homem de bem. Só por me terdes uma aversão natural me não haveis amado perdidamente. Deixei-me enfeitiçar por muito medíocres qualidades. Que haveis feito para me agradardes? Que sacrifício por mim fizestes? Não procuraste vós mil outros prazeres? Será que haveis renunciado ao jogo e à caça? Não foste vós o primeiro a partir com o Exército? Não regressastes depois de todos os outros?
Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, p. 91.
quinta-feira, 3 de março de 2022
Procura a luz
Procura a luz além da luz do dia e da noite,
além do julgamento, a luz concedida por Deus.
Deixando a escuridão, somos o luar que à Lua regressa,
pois a verdade é que a Ele todos devemos regressar
RUMI, O Pequeno livro da vida - o jardim da alma, do coração e do espírito, Alma dos Livros, 2020, p.109








