terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Venham enfim

Venham enfim as altas alegrias,

as ardentes auroras, as noites calmas,

Venha a paz desejada, as harmonias,

E o resgate do fruto, e a flor das almas.

Que venham , meu amor, porque estes dias

são de morte cansada,

de raiva e agonias

e nada.


 SARAMAGO, José, Provavelmente alegria, Lisboa, Porto Editora, 2014, p. 70.

Não há verdade: o mundo não a esconde

 Não há verdade: o mundo não a esconde.

Tudo se vê: só se não sabe aonde.

Mortais ou imortais, todos mentiram


 SENA, Jorge de, Coroa da Terra, Assírio e Alvim, 2021, p. 98.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Estendes a mão

Estendes a mão direita, abres os dedos,

admites todo o ar quando fechares

o punho, abrindo o coração.

Só não respira: não sobra já

no teu pulmão um resfolgar qualquer.

um hálito poído. Assim a morte

é julgares ter seguro e circunscrito,

fora de ti,o que em ti já não tens.


 TAMEN, Pedro, Memória Indescritível, Lisboa, Gótica, 2000, p.36.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

A melhor montra de Natal de sempre


 Évora

Afinal tu não és não

Mas sim sim sim!

Magia

Orientação

Pernão

Exaustão

Tudo normalização.

És um euromilhão?

Alegro-me só de te ver,

cruzar contigo na rua

é explosão

de energia,

de calor!

É tão simples entrecruzar

mas tão difícil de te ver na nossa cidade...

O  encaixe seria perfeito

se não houvesse por aí fora tanta ocupação,

desejo ser tua atração

mas não me livro da ignorância em sedução...

Adorava mais exploração

só que tenho em consideração

o de respeitar o teu tempo,

a tua privacidade

e, principalmente, a tua timidez...

não me digas que não

porque vejo reserva no teu coração

que bate por liberdade,

fugindo à prisão

da paixão...

E eu, que nunca o imaginara

acabo por gostar desta opção ;)

só anseio visitação

porque sinto falta do furacão

que me transforma em foguetão


XPTO

Arte urbana no descanso do banco







 Ecopista entre Vila Franca de Xira e Alhandra

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Parabéns ou não


 ALHANDRA

Malagueira


 EVORA

Um homem sem escolha deixa de ser um homem

Transformaram-te em algo que não é um ser humano. Já não tens nenhuma capacidade de escolha. Estás condenado a actos socialmente aceitáveis, maquineta apenas capaz de fazer o bem. E agora já percebo claramente aquela história dos condicionamentos marginais. A música e o acto sexual, a literatura e a arte, tudo deverá ser agora uma fonte de dor e não de prazer. (...) Mas o verdadeiro pecado reside na intenção essencial. Um homem sem escolha deixa de ser um homem.

BURGESS, Anthony, A Laranja mecânica, Carnaxide, Prisa Edições,  2012, pp. 214-215. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Reflexos no antigo cais


Antigo cais de Vila Franca de Xira, onde se aprecia a calmaria do Tejo

Praça à noite


 ÉVORA 

Bruxa de Évora







Novo restaurante na cidade, pelo menos para mim pois conheci este espaço ao abandono quando vim estudar para Évora... muito bem concebida a adaptação do edifício para esta funcionalidade. Graças à simpatia dos funcionários consegui jantar, mesmo sem reserva, umas maravilhosas bochechas, acompanhada de sumo de maracujá - mais uma estreia na minha vida ;)

 

Ocorreu-me

Ocorreu-me ontem que

não vejo o correio há uma semana,

 que nem por isso sou mais feliz ou infeliz;

a felicidade não depende certamente de coisas como o correio

ou como o temor ou o desejo,

depende talvez mais, pelo menos para já,

da certeza de que os papéis estão arrumados,

pagas as dívidas,

intacta ainda a possibilidade de morrer.

Um dia destes, se fosse caso disso,

escrever-te-ia sobre a discordante paixão da

imortalidade.

Agora é tarde, estão já

à porta os assassinos.

Teu Gallion


PINA, Manuel António, Todas as palavras - poesia reunida, Porto, Assírio e Alvim, 2012, p. 197.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Visitante doméstico


 Quando um papagaio vai ao museu na sua gaiola portátil ;)

Núcleo Museológico da Igreja de São Francisco

Desilusão

Hoje de manhã tive uma grande desilusão, pois a pessoa quem eu pensava que era a mais humana à face de terra revelou-se intransigente e bastante frio!! Sem se ouvir um único argumento... Como é possível criarmos uma imagem de perfeição à volta de alguém que sabe de tudo de ti, da tua vida e afinal só pensa em trabalho... Egoísmo puro!!! Está provado que a solidão é algo que me é só meu e que vai-me sufocar para o resto dos meus dias, porque afinal ninguém me dá a mão para arrancar o meu sofrimento, do qual todos gostam de ignorar... porque adoram explorá-la!!!

Nem o meu último recurso significa mais esperança de um mundo melhor, que tristeza, que raiva, que ódio!!

Santos só os que estão nos altares e se dentro deles não se consegue escapar, nem de quem aparenta ser santo, como consigo sobreviver? Eu que tenho lutado tanto para viver tal como sou, pois a minha vida assim se transformou em horrivelmente só e quero acreditar que devo aceitá-la para sobreviver, pois sei  que ao negar vou sofrer, só quero livrar-me desta cruz pelas festas, apenas pelo ano novo e desejo livrar-me agora deste sentimento - não tenho mais palavras para exprimir a minha frustração...


Igreja das Domínicas de Elvas




A Igreja das Domínicas foi construída entre 1543 e 1557, no local onde existia a antiga Igreja de Santa Maria Madalena, da Ordem Templária. Talvez por esse motivo, ostente uma planta centralizada e octogonal.

A igreja fazia parte de um complexo conventual, extinto em 1870, após o falecimento da sua última freira e que foi demolido no início do séc. XX, por se encontrar em ruína. Destacam-se, no exterior, o portal renascentista, e no interior o total revestimento a azulejos do séc. XVII, a capela-mor quinhentista e as capelas laterais em talha dourada do séc. XVII. 

Fonte:  http://www.cm-elvas.pt/descobrir/project-item/igreja-das-dominicas/

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Por vezes

Por vezes a luta entre a pequena curva

e o automóvel

entre as frases incertas e o gesto

natural de quem desvia

a morte

para outra estrada.

Nada me perde, tudo se transforma.

Entre falas vencidas, matéria após matéria;

és tu quem guia a boca, alguns

fios do silêncio nos reus cabelos de ouro

e de miséria


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, p. 235.

Todos têm medo da morte

Todos gastam muito tempo à frente do espelho. Todos têm medo da morte. Todos podem ser magoados pelo riso porque o ego é uma ferida. O maior terror, a maior abominação, é a morte da vontade que deseja e escolhe. Todos seguem os seus caminhos idênticos e separados conduzidos pela ânsia no coração obsceno e obcecado.


 SCHWARTZ, Delmore, Nos sonhos começam as responsabilidades, Lisboa, Guerra e Paz, 2020, p. 168.

As cruzes ao longo das estradas

São como sombras tristes, são como o outono.

Pode olhar-se para dentro das cruzes ao longo

das estradas, são como poços, são como filhos


perdidos. As cruzes ao longo das estradas estão cobertas por flores de plástico, secas, desbotadas

pela luz que, nos campos, brinca com os rostos


e com a memória. existem linhas traçadas entre

o céu e as cruzes ao longo das estradas, são elas

que seguram uma parte do mundo, só os pais são

capazes de as ver.


Agora, enquanto falamos de papagaios de papel,

elas estão lá, onde sempre estiveram.


As cruzes ao longo das estradas são diferentes

de nós porque se nós somos o vento e passamos,

as cruzes ao longo das estradas também são o vento,

mas há muito tempo que conseguiram chegar lá.


PEIXOTO, José Luís, Gaveta de papéis, 2.ª edição, Quetzal, 2011, p. 35.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Raízes

Dominarei as raízes porque sei que as tenho,

e tê-las me consome em ramos.


Não me importa ser árvore,

se é no horizonte que eu estou.


SENA, Jorge de , Coroa da Terra, Assírio e Alvim, 2021, p. 39

domingo, 20 de novembro de 2022