sábado, 16 de abril de 2022

Não há espelho que me resista


 PORTIMÃO

Adeus

Adeus; mais me custa terminar a minha Carta que a vós custou deixar-me, talvez para sempre. Adeus. (....)  Como sois duro para mim! Como sois cruel! Não me escreveis (...) Adeus

 

Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, pp. 74-75.

Doutores da Igreja



Museu Municipal de Faro
 
Santo Agostinho, São Jerónimo, Santo Ambrósio e São Gregório Magno, pintados por Vieira Portuense, em 1791.

Eurydice

 

O sol e o dia brilham mas sem ti

Talvez não sejam mais o sol e o dia.

O sol e o dia agora

Estão lá onde o teu sorriso mora

E não aqui. 


ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, No tempo dividido, Assírio & Alvim, 5.ª edição, 2019, p. 49.

Como chegar à contemplação?

Por pátios e jardins silenciosos

se chega ao lugar

da contemplação


MENDONÇA, José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p. 55

Se queremos guardar um segredo, temos de o esconder de nós mesmos também

ORWELL, George, 1984, Alfragide, D. Quixote, 2019, p. 308.

"Devagar, vou descendo"

 Devagar, vou descendo entre corais

Abro, dissolvo o corpo: fontes minhas

De águas brancas, secretas, reunidas

ao orvalho das rosas escondidas.


SARAMAGO, José, Provavelmente alegria, Lisboa, Porto Editora, 2014, p. 27.

Os objectivos das classes são irreconciliáveis

Os objectivos destes três grupos são completamente irreconciliáveis. O objectivo da classe Alta é permanecer onde está. O objectivo da classe Média é trocar de posição com a Alta. O objectivo da Baixa, se é que tem um objectivo - pois é uma característica duradoura da classe Baixa ver-se demasiado esmagada pela labuta para ir além de uma consciência intermitente de algo mais do que as suas vidas quotidianas -, é abolir todas as distinções e criar uma sociedade em que todos os homens sejam iguais. Assim, ao longo da História, vai-se repetindo vezes sem conta uma luta que é a mesma nos seus traços gerais. Durante longos períodos,  a classe Alta parece encontrar-se em segurança no poder, mas mais cedo ou mais tarde surge sempre um momento em que perde a crença em si mesma ou na sua capacidade de governar com eficiência, ou em ambas as coisas. É então que se vê derrubada pela classe Média, a qual recruta a classe Baixa para o seu lado fingindo que está a lutar pela liberdade e pela justiça. Assim que alcançam o seu propósito, a classe Média empurra de novo a classe Baixa para  a sua anterior posição de servidão, tornando-se ela própria a Alta. Pouco depois, uma nova classe Média separa-se de uma das outras classes, ou de ambas, e a luta volta ao início. Das três classes, só a Baixa nunca consegue alcançar os seus objectivos, nem sequer temporariamnente.

(..) nunca houve avanço na riqueza, nem abrandamento dos modos, nem reforma ou revolução que nos aproximasse um milímetro da igualdade humana.

ORWELL, George, 1984, Alfragide, D. Quixote, 2019, p. 223-224.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Horror económico

O horror económico não mata por explosão, mata por implosão. Mata na mesma.

 LOPES, Adília, Bandolim, Porto, Assírio e Alvim, 2016, p. 82.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Sísifo no entanto

 É triste que o destino de um homem seja Sísifo,

que tenhamos de carregar aos ombros

sempre a mesma pedra, que parece já

o nosso pensamento, e tropecemos

nela tantas vezes como vidas

quiséramos ter e no entanto.

 

É triste escalar penhascos carregados de razão

e deixá-la cair ao alcançar o cume

para depois voltar ao mesmo erro

um e outro dia, como a alma ao vício,

condenados  a ser, sedentos, quem somos:

aqueles que quisemos ser e no entanto.

 

É triste repetirmo-nos como a mesma história,

darmos voltas à nora, dia e noite,

moendo uma maneira de ser e de olhar

que nos leva a sofrer e a fazer sofrer.

Carrego comigo a minha pedra, meu pensamento,

e lá dentro eu, esperando ser talhado,

esculpido, salvo e no entanto.

 

PIQUERAS, Juan Vicente, Instruções para atravessar o deserto - poemas escolhidos, Porto, Assírio & Alvim, 2019, p. 25.

País sem mal





Um etnólogo diz ter encontrado

Entre selvas e rios depois de longa busca

Uma tribo de índios errantes

Exaustos exauridos semi-mortos

Pois tinham partido desde há longos anos

Percorrendo florestas desertos e campinas

Subindo e descendo montanhas e colinas

Atravessando rios

Em busca do país sem mal –

Como os revolucionários do meu tempo

Nada tinham encontrado.

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Ilhas, Assírio & Alvim, 6.ª edição, 2016, p. 78.

Branco e preto

Évora 
 

Porquê????

Dizei-me: porque vos dedicaste a enfeitiçar-me, como haveis feito, já que sabíeis bem que havíeis de me abandonar? E porque vos obstinaste tanto em fazer de mim uma infeliz? Porque me não deixaste sossegada no meu Claustro? Havia-vos eu porventura feito algum mal?

 Cartas portuguesas de Maraina Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, p. 32.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Sol no meio da rocha




PRAIA DA ROCHA, PORTIMÃO 

 

Sobre flancos e barcos


Marina de Portimão


Havia ainda outro jardim o da minha vida

exíguo é certo mas o do meu olhar

são talvez dois pássaros que se amam

um sobre o outro ou dois cães não sei

é sempre a mesma inquietação


este delírio branco ou o rumor

da chuva sobre flancos e barcos

o inverno vai chegar

na palha ainda quente a mão

uma douçura de abelha muito jovem


era o sopro distante das manhãs sobre o mar

e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do coração

é o silêncio é por fim o silêncio

vai desabar.


ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 78.

O porquê do rubro de um golo

Aberta e vulnerável no campo oposto, a baliza é a vagina da mulher do Outro, e a penetração do golo hostil a maior humilhação que se pode infligir ao inimigo. Daí que, nesse instante, o estádio se levante e o delírio seja levado ao rubro, explodindo no urro triunfal dos adeptos vencedores, de cujas gargantas o som jorra, como uma torrente de esperma.

GERSÃO, Teolinda, Prantos, amores e outros desvarios, Lisboa, Porto Editora, 2016, p. 52

 

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Em certas circunstâncias

A falta que me fazes

Não iguala a fala que te faço. Nada a voz

Na boca vazia do poema.


Tudo excede em mim a tua ausência.

Mas teu corpo progride recriado

No espasmo.


Receio chegar assim aos teus sentidos.


Tenho vários ofícios quando amo.

Processo palavra por palavra

O meu desejo.

E suo 

(...)


CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p. 311.

Santa Clara de Assis


Núcleo Museológico de São Francisco 

 

Eis aquela que parou em frente

Das altas noites puras e suspensas.

 

Eis aquela que soube na paisagem

Adivinhar a unidade prometida:

Coração atento ao rosto das imagens,

Face erguida,

Vontade transparente

Inteira onde os outros se dividem. 


ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, No tempo dividido, Assírio & Alvim, 5.ª edição, 2019, p. 54.

 

 

Praça do Município




Arraiolos

 

domingo, 10 de abril de 2022

Cavalo cigano


 Portimão 

Cogumelo


 Muralha de Évora

Transepto

 


E para além da tribuna dos maiores, empilhados num recesso do transepto da Igreja de São Francisco, arregalavam os olhos para o esplendor das núpcias do belo príncipe Afonso, o qual apoiava a mão de jaspe sobre a mão trigueira de Isabel, sua noiva, e vinha o arcebispo envolvê-las na estola de pedrarias cravejada.

CLÁUDIO, Mário, Peregrinação de Barnabé das Índias, Alfragide, 3.a edição, D. Quixote, 2017, p.15.

 

 

Verso

Tanto que pedi ao Universo

que voltasses a ser o meu verso!

Lembraste de mim,

não foi por saudação

mas sim por alimentação.

Sinceridade nasceu 

ao fim de meses de ilusão...


Promeste fazer o que desejo,

para afirmares que não queremos o mesmo...

Também te afogas em ilusão

eu quero acompanhamento e amor

para entregar nos teus braços...


Verão em suspiração

pois desejei que fosse o tal,

imaginei demais...

Não vês que eu sou mais que um corpo?

Meio objecto,

mais alma

com grande coração.


XPTO 

És difícil de entender

de tão controverso...


sábado, 9 de abril de 2022

Burricada


 QUINTA PEDAGÓGICA DE PORTIMÃO

Coloridos


 Lagos

Igreja de S. João Baptista






Castelo de Montemor-o-Novo

O Mar do mar



Praia da Rocha


Retiro o meu mar do mar dos outros

E até do próprio

Mar.

Entre a visão viva das águas

E a vista interior

Das águas da memória

O mar é um vasto céu de belas caixas

Cranianas.


Aqui estamos ó mar

Ó mar conceptual ó mar consensual

Mar sensual

Amante dos meus dias mais salgados

Nascente de sepulturas

Ido em noites de espuma

Trazido em conchinhas de poetas

E símbolos.

 

CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, p. 299.

Pardalito


 Portimão 

Nuvens na praia




 ALVOR

Ecopista de Évora


 

Que dia? Que olhar?

Cheguei demasiadamente tarde

e já todos se tinham ido embora

restavam papéiis velhos, vidas mortas,

identidade, sujidade, eternidade.


Comeram o meu corpo e

beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;

e escreveram a minha Obra Completa;

sobro, desapossado, eu.


Resta-me ver televisão,

votar, passear o cão

(a cidadania!). Prosa também podia,

e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria. 


PINA, Manuel António, Os Livros, Lisboa, Assírio  Alvim, 2003, p. 14

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Já viste o mar?

Zé Cardoso, tu já viste o mar?

Eu, não...

Ninguém tinha visto o mar.

Jacinto Baleizão diz que tem ondas,

ondas altas como um castelo.

Mas o Tóino pergunta da lonjura

e de outras coisas do mar. 


FONSECA, Manuel, Nocturno, Obra poética, Alfragide, Caminho 11.ª ed., 2011, p.74.

Cavalo eborense



 Bairro da Comenda

Isolada


Sinto-me tão só como esta rocha... isolei-me de tudo o que é estranho a mim para não me magoar. No entanto, a imensidão que me envolve não me protege por os poucos com quem lido adorarem pisar as minhas feridas... de que adianta viver solitária??  Quero tanto ser forte como este rochedo!!!  Tento recuperar as minhas forças mas não me é fácil recuperar da perda do meu pilar; quando parece que o estou a conseguir ao descobrir o amor, volto a cair abruptamente por ser apenas a maior das desilusões. Preciso de ajuda para me soltar, para abrir esta concha que me aperta o coração e que me oprime os dias e mata os meus sonhos. Será que algum dia terei oportunidade  de ser feliz?

A porta

Alguma coisa fora de mim

está escondida em mim

como um coração exterior


Às vezes canta mesmo a meu lado

com a minha voz

como se tivesse eu cantado


Talvez estas lágrimas

não me pertençam nem este momento

nem este sentimento de este sentimento


Que rosto real

me olha e se vê?

Que porta física

tenho que passar?


PINA, Manuel António, Todas as palavras - poesia reunida, Porto, Assírio e Alvim, 2012, p. 112

quarta-feira, 6 de abril de 2022

É demasiado para ti o amor?

É demasiado para ti o amor?

Abominas-o assim tanto,

Porquê não o dizes

Mas sei eu...

Uma mulher sente com o coração

- para ti não!

Negas a sua existência no teu peito,

Magoaram-te -

Fizeste tudo por amor

Para se acabar

No ódio? na geografia? no trabalho?...

Tudo e qualquer coisa serviu para o seu fim.

Será que o negas?

Será que desejas voltar atrás?

Tantas hipóteses me vêm à cabeça!

Adivinhar não consigo,

Só me defender.

Recusar ser vítima de injustiças,

Das quais não sei.

Revelaste ser impossível conhecer-te

Não queremos o mesmo, de facto.

Tu desejas corpo

Eu desejo mais,

Tenho sede de alma.

Sem garantias

Não há prémiozinho...

Não foste o meu D. Sebastião 

Nem eu o teu Euromilhão 

Os opostos atraem-se, mas nós não.

Apenas a crise da solidão...

Assim nunca serás feliz

Eu sei por mim,

passei uma vida a esquecer o coração 

Para agora não encontrar solução...

Convencer 

Não apaga o sentir 

Eu vi esperança no teu olhar

- inconcebível o que afirmas!

Devorar 

cura-te o quê?

Adieux XPTO 😪


domingo, 3 de abril de 2022

Não posso aceitar esta solidão



Não posso aceitar esta solidão

que o céu, agora em concha, fechou

dentro do dia contra a natureza

Esta casa repele a minha vida.

Com os olhos cheios de lágrimas, 

aguardo que a memórie apunhale a casa

e crie para mim outras moradas.

 

CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua morta, 2021, p. 183.

sábado, 2 de abril de 2022

Um outro ângulo do templo




 ÉVORA

Onde estão os bons? Onde estão os maus?

 ... não sei ainda se estou muito interessada em arranjar amizades, como regra dão mais chatices que benefícios. Nem toda a gente é igual, contrapôs, há sempre algumas pessoas boas entre as pessoas más. O problema é descobrir as pessoas boas no meio das pessoas más...

  

 ALMEIDA, Germano, Regresso ao paraíso, Alfragide, Caminho, 2015, p. 218.

Desabrochar

Estremoz 


Não consigo ver desabrochar uma folha, uma pétala, por mais que espere, imóvel, na sua frente. E no entanto, se saio pela manhã e volto pela tarde, acontece que se registou um movimento. A folha desabrochou, a flor abriu, o ramo fica mais espesso. Porque não se manifestam diante de mim? Porque se escondem os movimentos das árvores? E por que razão não agimos nós pelo mesmo ritmo e não aprendemos com elas a ser lentas, a ter vagar, a viver tranquilas, se é o que parece?

JORGE, Lídia, Em todos os sentidos, Alfragide, 2.ª edição, Publicações D. Quixote, 202015

Ave cujo voo persigo, para que me leve ao porto dos teus lábios



Faro



JÚDICE, Nuno, Carta de Verão, Navegação de acaso, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 30.


A liberdade é a liberdade de afirmar que 2 mais 2 são 4. Tudo o mais decorre da admissão dessa verdade.

ORWELL, George, 1984, Alfragide, D. Quixote, 2019, p. 92.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

As curvas aparentes da memória

Marina de Faro 

Mais: o tempo não teima, não se alonga,

antes ondeia como mar doente

e aceita ventos. Os caminhos que o fazem:

fio de seda tecida sem cuidado.


Depois de tantos anos, a memória

rompida de um anel,

mas nesse anel ver cheiros,

nele fulgirem coisas

os alfabetos fáceis de brinquedo.


Mas, seda pelo meio:

feita de bichos leves, sonolentos,

de um perigo de ruir marés e luas.

Anel como das fadas,

dedos de carne firme, os seus póros abertos

a tudo, a tudo, a tudo.

(...)

 

AMARAL, Ana Luísa, Imagias, Gótica, Viseu, 2002, p.18

Abril dentro de ti

Esconde as guitarras e Abril

que trazes dentro de ti

prende os cabelos teu vento

fecha a vida nos teus dedos

não vão teus dedos perder-se

que a vida também se compra

a vida também se vende

é simples mercadoria

nessa praça onde tu passas

tão sem preço como o preço

que o vento teria amor

se o vento tivesse preço


 ALEGRE, Manuel, Praça da Canção, Lisboa, 5.ª edição, D, Quixote, 2015, p. 87.