domingo, 17 de abril de 2022
Senhor tu és a luz
sábado, 16 de abril de 2022
Adeus
Adeus; mais me custa terminar a minha Carta que a vós custou deixar-me, talvez para sempre. Adeus. (....) Como sois duro para mim! Como sois cruel! Não me escreveis (...) Adeus
Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, pp. 74-75.
Doutores da Igreja
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| Museu Municipal de Faro |
Eurydice
O sol e o dia brilham mas sem ti
Talvez não sejam mais o sol e o dia.
O sol e o dia agora
Estão lá onde o teu sorriso mora
E não aqui.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, No tempo dividido, Assírio & Alvim, 5.ª edição, 2019, p. 49.
Como chegar à contemplação?
Por pátios e jardins silenciosos
se chega ao lugar
da contemplação
MENDONÇA, José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p. 55
Se queremos guardar um segredo, temos de o esconder de nós mesmos também
ORWELL, George, 1984, Alfragide, D. Quixote, 2019, p. 308.
"Devagar, vou descendo"
Devagar, vou descendo entre corais
Abro, dissolvo o corpo: fontes minhas
De águas brancas, secretas, reunidas
ao orvalho das rosas escondidas.
SARAMAGO, José, Provavelmente alegria, Lisboa, Porto Editora, 2014, p. 27.
Os objectivos das classes são irreconciliáveis
Os objectivos destes três grupos são completamente irreconciliáveis. O objectivo da classe Alta é permanecer onde está. O objectivo da classe Média é trocar de posição com a Alta. O objectivo da Baixa, se é que tem um objectivo - pois é uma característica duradoura da classe Baixa ver-se demasiado esmagada pela labuta para ir além de uma consciência intermitente de algo mais do que as suas vidas quotidianas -, é abolir todas as distinções e criar uma sociedade em que todos os homens sejam iguais. Assim, ao longo da História, vai-se repetindo vezes sem conta uma luta que é a mesma nos seus traços gerais. Durante longos períodos, a classe Alta parece encontrar-se em segurança no poder, mas mais cedo ou mais tarde surge sempre um momento em que perde a crença em si mesma ou na sua capacidade de governar com eficiência, ou em ambas as coisas. É então que se vê derrubada pela classe Média, a qual recruta a classe Baixa para o seu lado fingindo que está a lutar pela liberdade e pela justiça. Assim que alcançam o seu propósito, a classe Média empurra de novo a classe Baixa para a sua anterior posição de servidão, tornando-se ela própria a Alta. Pouco depois, uma nova classe Média separa-se de uma das outras classes, ou de ambas, e a luta volta ao início. Das três classes, só a Baixa nunca consegue alcançar os seus objectivos, nem sequer temporariamnente.
(..) nunca houve avanço na riqueza, nem abrandamento dos modos, nem reforma ou revolução que nos aproximasse um milímetro da igualdade humana.
ORWELL, George, 1984, Alfragide, D. Quixote, 2019, p. 223-224.
sexta-feira, 15 de abril de 2022
Horror económico
O horror económico não mata por explosão, mata por implosão. Mata na mesma.
LOPES, Adília, Bandolim, Porto, Assírio e Alvim, 2016, p. 82.
quinta-feira, 14 de abril de 2022
Sísifo no entanto
É triste que o destino de um homem seja Sísifo,
que tenhamos de carregar aos ombros
sempre a mesma pedra, que parece já
o nosso pensamento, e tropecemos
nela tantas vezes como vidas
quiséramos ter e no entanto.
É triste escalar penhascos carregados de razão
e deixá-la cair ao alcançar o cume
para depois voltar ao mesmo erro
um e outro dia, como a alma ao vício,
condenados a ser, sedentos, quem somos:
aqueles que quisemos ser e no entanto.
É triste repetirmo-nos como a mesma história,
darmos voltas à nora, dia e noite,
moendo uma maneira de ser e de olhar
que nos leva a sofrer e a fazer sofrer.
Carrego comigo a minha pedra, meu pensamento,
e lá dentro eu, esperando ser talhado,
esculpido, salvo e no entanto.
PIQUERAS, Juan Vicente, Instruções para atravessar o deserto - poemas escolhidos, Porto, Assírio & Alvim, 2019, p. 25.
País sem mal
Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semi-mortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal –
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Ilhas, Assírio & Alvim, 6.ª edição, 2016, p. 78.
Porquê????
Dizei-me: porque vos dedicaste a enfeitiçar-me, como haveis feito, já que sabíeis bem que havíeis de me abandonar? E porque vos obstinaste tanto em fazer de mim uma infeliz? Porque me não deixaste sossegada no meu Claustro? Havia-vos eu porventura feito algum mal?
Cartas portuguesas de Maraina Alcoforado, Lisboa, Terreiro do Paço Editores, 2013, p. 32.
quarta-feira, 13 de abril de 2022
Sobre flancos e barcos
| Marina de Portimão |
Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães não sei
é sempre a mesma inquietação
este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
na palha ainda quente a mão
uma douçura de abelha muito jovem
era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar.
ANDRADE, Eugénio de, Véspera da água, Porto, Assírio e Alvim, 2014, p. 78.
O porquê do rubro de um golo
Aberta e vulnerável no campo oposto, a baliza é a vagina da mulher do Outro, e a penetração do golo hostil a maior humilhação que se pode infligir ao inimigo. Daí que, nesse instante, o estádio se levante e o delírio seja levado ao rubro, explodindo no urro triunfal dos adeptos vencedores, de cujas gargantas o som jorra, como uma torrente de esperma.
GERSÃO, Teolinda,
Prantos, amores e outros desvarios, Lisboa, Porto Editora, 2016, p. 52
terça-feira, 12 de abril de 2022
segunda-feira, 11 de abril de 2022
Em certas circunstâncias
A falta que me fazes
Não iguala a fala que te faço. Nada a voz
Na boca vazia do poema.
Tudo excede em mim a tua ausência.
Mas teu corpo progride recriado
No espasmo.
Receio chegar assim aos teus sentidos.
Tenho vários ofícios quando amo.
Processo palavra por palavra
O meu desejo.
E suo
(...)
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua Morta, 2021, p. 311.
Santa Clara de Assis
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| Núcleo Museológico de São Francisco |
Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.
Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, No tempo dividido, Assírio & Alvim, 5.ª edição, 2019, p. 54.
domingo, 10 de abril de 2022
Transepto
E para além da tribuna dos maiores, empilhados num recesso do transepto da Igreja de São Francisco, arregalavam os olhos para o esplendor das núpcias do belo príncipe Afonso, o qual apoiava a mão de jaspe sobre a mão trigueira de Isabel, sua noiva, e vinha o arcebispo envolvê-las na estola de pedrarias cravejada.
CLÁUDIO, Mário, Peregrinação de Barnabé das Índias, Alfragide, 3.a edição, D. Quixote, 2017, p.15.
Verso
Tanto que pedi ao Universo
que voltasses a ser o meu verso!
Lembraste de mim,
não foi por saudação
mas sim por alimentação.
Sinceridade nasceu
ao fim de meses de ilusão...
Promeste fazer o que desejo,
para afirmares que não queremos o mesmo...
Também te afogas em ilusão
eu quero acompanhamento e amor
para entregar nos teus braços...
Verão em suspiração
pois desejei que fosse o tal,
imaginei demais...
Não vês que eu sou mais que um corpo?
Meio objecto,
mais alma
com grande coração.
XPTO
És difícil de entender
de tão controverso...
sábado, 9 de abril de 2022
O Mar do mar
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| Praia da Rocha |
Retiro o meu mar do mar dos outros
E até do próprio
Mar.
Entre a visão viva das águas
E a vista interior
Das águas da memória
O mar é um vasto céu de belas caixas
Cranianas.
Aqui estamos ó mar
Ó mar conceptual ó mar consensual
Mar sensual
Amante dos meus dias mais salgados
Nascente de sepulturas
Ido em noites de espuma
Trazido em conchinhas de poetas
E símbolos.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, p. 299.
Que dia? Que olhar?
Cheguei demasiadamente tarde
e já todos se tinham ido embora
restavam papéiis velhos, vidas mortas,
identidade, sujidade, eternidade.
Comeram o meu corpo e
beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;
e escreveram a minha Obra Completa;
sobro, desapossado, eu.
Resta-me ver televisão,
votar, passear o cão
(a cidadania!). Prosa também podia,
e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria.
PINA, Manuel António, Os Livros, Lisboa, Assírio Alvim, 2003, p. 14
sexta-feira, 8 de abril de 2022
Já viste o mar?
Zé Cardoso, tu já viste o mar?
Eu, não...
Ninguém tinha visto o mar.
Jacinto Baleizão diz que tem ondas,
ondas altas como um castelo.
Mas o Tóino pergunta da lonjura
e de outras coisas do mar.
FONSECA, Manuel, Nocturno, Obra poética, Alfragide, Caminho 11.ª ed., 2011, p.74.
Isolada
A porta
Alguma coisa fora de mim
está escondida em mim
como um coração exterior
Às vezes canta mesmo a meu lado
com a minha voz
como se tivesse eu cantado
Talvez estas lágrimas
não me pertençam nem este momento
nem este sentimento de este sentimento
Que rosto real
me olha e se vê?
Que porta física
tenho que passar?
PINA, Manuel António, Todas as palavras - poesia reunida, Porto, Assírio e Alvim, 2012, p. 112
quinta-feira, 7 de abril de 2022
quarta-feira, 6 de abril de 2022
É demasiado para ti o amor?
É demasiado para ti o amor?
Abominas-o assim tanto,
Porquê não o dizes
Mas sei eu...
Uma mulher sente com o coração
- para ti não!
Negas a sua existência no teu peito,
Magoaram-te -
Fizeste tudo por amor
Para se acabar
No ódio? na geografia? no trabalho?...
Tudo e qualquer coisa serviu para o seu fim.
Será que o negas?
Será que desejas voltar atrás?
Tantas hipóteses me vêm à cabeça!
Adivinhar não consigo,
Só me defender.
Recusar ser vítima de injustiças,
Das quais não sei.
Revelaste ser impossível conhecer-te
Não queremos o mesmo, de facto.
Tu desejas corpo
Eu desejo mais,
Tenho sede de alma.
Sem garantias
Não há prémiozinho...
Não foste o meu D. Sebastião
Nem eu o teu Euromilhão
Os opostos atraem-se, mas nós não.
Apenas a crise da solidão...
Assim nunca serás feliz
Eu sei por mim,
passei uma vida a esquecer o coração
Para agora não encontrar solução...
Convencer
Não apaga o sentir
Eu vi esperança no teu olhar
- inconcebível o que afirmas!
Devorar
cura-te o quê?
Adieux XPTO 😪
terça-feira, 5 de abril de 2022
segunda-feira, 4 de abril de 2022
Se nos dispusermos a mudar a forma de pensar, poderemos mudar a vida
HAY, Louise , HOLDEN, Robert, A vida ama-me, s.l., Pergaminho, 2015, p. 70.
domingo, 3 de abril de 2022
Não posso aceitar esta solidão
que o céu, agora em concha, fechou
dentro do dia contra a natureza
Esta casa repele a minha vida.
Com os olhos cheios de lágrimas,
aguardo que a memórie apunhale a casa
e crie para mim outras moradas.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, s.l., Língua morta, 2021, p. 183.
sábado, 2 de abril de 2022
Onde estão os bons? Onde estão os maus?
... não sei ainda se estou muito interessada em arranjar amizades, como regra dão mais chatices que benefícios. Nem toda a gente é igual, contrapôs, há sempre algumas pessoas boas entre as pessoas más. O problema é descobrir as pessoas boas no meio das pessoas más...
ALMEIDA, Germano, Regresso ao paraíso, Alfragide, Caminho, 2015, p. 218.
Desabrochar
Não consigo ver desabrochar uma folha, uma pétala, por mais que espere, imóvel, na sua frente. E no entanto, se saio pela manhã e volto pela tarde, acontece que se registou um movimento. A folha desabrochou, a flor abriu, o ramo fica mais espesso. Porque não se manifestam diante de mim? Porque se escondem os movimentos das árvores? E por que razão não agimos nós pelo mesmo ritmo e não aprendemos com elas a ser lentas, a ter vagar, a viver tranquilas, se é o que parece?
JORGE, Lídia, Em todos os sentidos, Alfragide, 2.ª edição, Publicações D. Quixote, 202015
Ave cujo voo persigo, para que me leve ao porto dos teus lábios
A liberdade é a liberdade de afirmar que 2 mais 2 são 4. Tudo o mais decorre da admissão dessa verdade.
ORWELL, George, 1984, Alfragide, D. Quixote, 2019, p. 92.
sexta-feira, 1 de abril de 2022
As curvas aparentes da memória

Marina de Faro
Mais: o tempo não teima, não se alonga,
antes ondeia como mar doente
e aceita ventos. Os caminhos que o fazem:
fio de seda tecida sem cuidado.
Depois de tantos anos, a memória
rompida de um anel,
mas nesse anel ver cheiros,
nele fulgirem coisas
os alfabetos fáceis de brinquedo.
Mas, seda pelo meio:
feita de bichos leves, sonolentos,
de um perigo de ruir marés e luas.
Anel como das fadas,
dedos de carne firme, os seus póros abertos
a tudo, a tudo, a tudo.
(...)
AMARAL, Ana Luísa, Imagias, Gótica, Viseu, 2002, p.18
Abril dentro de ti
Esconde as guitarras e Abril
que trazes dentro de ti
prende os cabelos teu vento
fecha a vida nos teus dedos
não vão teus dedos perder-se
que a vida também se compra
a vida também se vende
é simples mercadoria
nessa praça onde tu passas
tão sem preço como o preço
que o vento teria amor
se o vento tivesse preço
ALEGRE, Manuel, Praça da Canção, Lisboa, 5.ª edição, D, Quixote, 2015, p. 87.













