quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
Os computadores são estúpidos
Os computadores são estúpidos. Só fazem aquilo para que foram programados. As árvores os gatos as casas velhas são inteligentes.
LOPES, Adília, Bandolim, Porto, Assírio e Alvim, 2016, p. 205.
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
Maçã do mar
Eu seria o homem e tu a mulher
vestida de tormenta.
Dormirias
no aconchego do mar menos pensado,
diadema de outra luz nos teus cabelos,
e nas mãos remotas
a areia fugitiva
de nós, desertos e felizes.
Viveríamos longe, esquecidos
do tempo, agora, em que éramos escravos
do nosso próprio medo e deste mundo,
sicário absurdo a soldo da morte.
A ilha está em nós
aguardando
que a raiva amadureça e nos rapte.
Eu seria o homem e tu a mulher.
A memória seria uma maçã.
PIQUERAS, Juan Vicente, Instruções para atravessar o deserto - poemas escolhidos, Porto, Assírio & Alvim, 2019, p. 23.
Canção da beira-mar
Ó mar que és um leão,
com tua garra,
a vaga
despedaça a amarra
que nos prende à terra.
queremos partir mesmo sem mestre!
Estamos fartos do marasmo
deste balanço de lago
onde apodrece nossa carne dolorida.
FONSECA, Manuel, Obra poética, Alfragide, Caminho 11.ª ed., 2011, p. 61.
Nesta nossa vida não há começos
Nesta nossa vida não há começos, apenas partidas, denominadas princípios, envolvidos nas emoções formais consideradas apropriadas e frequentemente forçadas. Soturnamente aparece cada momento da vida que foi vivida e que não morre, pois cada acontecimento vive para sempre na cabeça pesada, à espera de se renovar.
SCHWARTZ, Delmore, Nos sonhos começam as responsabilidades, Lisboa, Guerra e Paz, 2020, p. 69.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Engenheiro o que aprendi contigo?
Teria aprendido com o caso do engenheiro que as aventuras amorosas não têm nada a ver com o amor? Que são leves e não pesam nada? Sentir-se-ia mais calma?
KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p. 202.
Quarto Crescente
A cheia!
Beleza
Crua.
Porque nunca mais cruzo contigo na rua?
Fraqueza
Minha ou tua?
Estou presa na tua teia...
Mas sinto frieza
Na tua veia...
A lua
Muda de face,
Assim como a tua
Loucura?!?
Crescente
É este quarto.
E tu sempre ausente,
Estarei eu algum dia no teu pensamento?. . .
Para ti
Crescente
Ou minguante
O amor é-te indiferente
(XPTO)
Quando me abraças?
| Porto de Portimão |
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o mar sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces (...)
PEDREIRA, Maria do Rosário, Poesia reunida, 2.ª edição, Lisboa, Quetzal, 2013, p.101.
domingo, 16 de janeiro de 2022
Procuro a tua imagem
| Malagueira, Évora |
Procuro a tua imagem nos espelhos
do meio-dia, nos campos em que os rebanhos
se perdem do pastor, nas horas que o sol fere
com as suas setas para que os minutos se soltem
das veias do tempo. E vens ao meu encontro,
com o teu vestido branco, com os teus colares
de pedra, com a tua pele suave como os nenúfares
que os cisnes desejam. Desfaço com os dedos a espuma
indecisa da memória, e encontro a tua boca
húmida, os lábios de onde provei um néctar
de fonte, os olhos que o desejo abre nas manhãs
em que as aves se calam para que a tua voz
atravesse os corredores do amor. E é dentro de mim
que a tua imagem ganha a forma que as minhas mãos
percorreram. E é como se batesse à porta do corpo
que tu me abres, com o lento fogo que arde
no sabor de um abraço, para que eu te diga
que és a flor que nenhuma retórica sonhou. E
entrego-te o coração em que pulsam os sentidos
que partilhamos, os braços que acompanham
o rito da ânsia que nos une, o peito em que bate
o êxtase que nos envolve sob
o perfume do amor.
JÚDICE, Nuno, Regresso a um cenário campestre, Lisboa, D. Quixote, 2020, p. 83.
Passaporte
sei que não permanecem sequer os grandes
versos, feitos de montes e de nunca. Este
aquilo, dito por muitas palavras, envelhece.
Morremos pelo nosso país, desportugueses,
e ressuscitamos demasiado. Amanhã, um dia,
quando esperarmos a devastação, teremos
apenas esperança e nada absolutamente mais.
Camões é uma atracção como o bem e o
mal. Fernando Pessoa é um homem doente
que empurramos nos transportes públicos.
Eu e nós sabemos que o oceano mudou de
nome quase. Deixámos de possuí-lo, nunca o
posssuímos e foi nosso, meu e nosso, sempre.
PEIXOTO, José Luís, Gaveta de papéis, 2.ª edição, Quetzal, 2011, p. 23.
Saudade
| Alto de São Bento, Évora |
do musgo; e o barro bebe a água; e o vento viaja rente
aos muros. Mas eu, sem ti, deito-me gelada sobre a cama
e digo palavras que queimam a boca por dentro - amor,
saudade, o teu nome e os nomes das coisas que tocaste
(e sobre as quais deixo crescer o pó, para que os dias
não se decalquem sempre de outros dias). Fecho os olhos
depois sobre a almofada e vejo o rosto branco da casa
desenhar-se à medida da tua ausência: as janelas abrem-se
para a solidão dos becos e há um farrapo de luz sob a porta
a que ninguém virá bater. Pergunto-me onde anda a tua
sombra [P] quando aqui não estás. E tenho medo. São estes
os solavancos de uma vida pequena - bordar uma toalha
para logo a manchar de vinho, sentir a ferida na distância
do punhal, viver à espera de uma dor que há-de chegar.
PEDREIRA, Maria do Rosário, Poesia reunida, 2.ª edição, Lisboa, Quetzal, 2013, p. 98.
"Ao inferno, senhores"
Ao inferno, senhores, ao inferno dos homens,
Lá onde não fogueiras, mas desertos.
Vinde todos comigo, irmãos ou inimigos,
A ver se povoamos esta ausência
chamada solidão.
E tu, claro amor, palavra nova,
que a tua mão não deixe a minha mão.
SARAMAGO, José, Provavelmente alegria, Lisboa, Porto Editora, 2014, p. 17
sexta-feira, 14 de janeiro de 2022
O mundo é uma praça e deus/ é um museu.
CARVALHO, Armando Silva, O País das minhas vísceras, Língua morta, 2021, p. 238.
Liberdade
O poema é
A liberdade
Um poema não se programa
Porém a disciplina
- sílaba por sílaba –
O acompanha
Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, O Nome das coisas, Assírio & Alvim, 1.ª edição, 2015, p 63.
Ano Mil
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| Pintura de Álvaro Pires de Évora, Museu Nacional de Arte Antiga 2019 |
quinta-feira, 13 de janeiro de 2022
terça-feira, 11 de janeiro de 2022
segunda-feira, 10 de janeiro de 2022
Só se tem uma vida
Censurava-se intimamente mas acabou por pensar que, no fundo, não se saber o que se deve querer é normal:
Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem rectificada em vidas posteriores.
(...) Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo "esquisso" é a palavra certa, porque um esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.
KUNDERA, Milan, A Insustentável leveza do ser, Alfragide, D. Quixote, 32.ª edição, 2015, p. 15
sábado, 8 de janeiro de 2022
De onde chegam os poemas?
Os poemas chegam de longe, não trazem
com eles nem sacos nem malas, pousam
as palavras no chão da estrofe, tentam
arrumá-las na página, dobram-nas como
tudo aquilo que pode caber na mala ou
no saco. Os poemas não têm tempo para
descansar, não fecham o caderno que
ainda tem folhas em branco, procuram
imagens onde elas estiverem, no céu,
na rua, nas paredes do quarto, no armário
de cabides tão estreitos como versos. E
quando os poemas começam a falar, é como
se aqui estivessem estado, sempre, sem
nunca terem saído de ao pé de nós, metendo
dentro de nós tudo o que vemos sair
de dentro deles, para que os deixemos
partir com os seus sacos de palavras
e as suas malas de imagens, até onde
os esperam.
JÚDICE, Nuno, Regresso a um cenário campestre, Lisboa, D. Quixote, 2020, p 49
Que batalha é esta, a dos pássaros reunidos ao pôr do Sol?
Que batalha é esta, a dos pássaros reunidos ao pôr do Sol
antes da hora do amalho? Quem lhes ensinou a alegria da reunião?
- Vou com cautela estudar o seu poiso, tentando compreender como
encontram o lugar para o sono. Quero surpreender
esta pausa das aves em pleno descanso.
JORGE, Lídia, Aos despidos, O Livro das tréguas, Lisboa, D. Quixote,2019, p.17.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
Antes, eu era uma pedra
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| Praia da Rocha |
e tudo em tudo estava reunido -
O silêncio e a sombra, a voz e a luz.
Antes, eu era uma pedra,
Depois o animal saiu da esfera dessa poeira
prensada pelos milénios e espojou-se na relva.
Veio uma luz brilhante e disse -
Esta é a tua vida, tens um prazo.
E eu quis que a alegria batesse palmas
e dissesse - Isto é a minha vida.
Sentei-me na relva e comi-a três vezes por dia.
Imenso é este mar de flores, o mundo.
Podem dizer o que disserem sobre a morte
haja o que houver para além desse portão -
Conheci o sabor das ervas verdes, dei-lhes nomes
não voltarei mais a ser a pedra das montanhas.
A luz brilhante pode proclamar - Não valeu de nada a tua vida.
Isso e muito mais. Mas não poderá dizer - Tu não aconteceste.
Aconteci, e essa é a minha honra desmedida.
JORGE, Lídia, Acontecimento, O Livro das tréguas, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2019, p. 13.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
A que espera
A tristeza sentou-se à minha porta
mas eu não a alimentei.
Cão de guarda por cão de guarda
prefiro a alegria.
A ela entrego os meus dias
e o abraço daquele que vem de longe
para me dizer que o amor que foi ontem
ainda é hoje.
JORGE, Lídia, O Livro das tréguas, Lisboa, D. Quixote, 2019, p. 38.
Ansiedade
Que ansiedade de mar largo,
ai que desejo de Vida!
Todas as noites a Lua nasce
e o mar se aquieta...
FONSECA, Manuel, Obra poética, Alfragide, Caminho 11.ª ed., 2011, p. 62.
Não interrogues o sentido/ agradece o passo lento/ entre as nuvens de pó
MENDONÇA, José Tolentino, Papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2019, p 152
Não tenhas medo do amor
Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e a genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia das raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão deum corpo. A vida nunca
foi só inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestadae que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.
PEDREIRA, Maria do Rosário, Poesia reunida, Lisboa, Quetzal, 2012, p. 155.
terça-feira, 4 de janeiro de 2022
Casas
| Santarém, 2018 |
Casas – casas roucas
Atentos muros – umbrais medidos e solenes
Quarto após quarto penumbra sequiosa
Tectos lentos
Como no espelho afloram
Lagos e magia: caminho
Submerso do possível
A paixão habita seu jogo mais secreto
Sua trágica e precisa
Perfeição
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Ilhas, Assírio & Alvim, 6.ª edição, 2016, p. 89.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
Bom dia!
Bom dia! é uma oração, um poema de amor, uma epopeia.
LOPES, Adília, Bandolim, Porto, Assírio e Alvim, 2016, p. 157.
domingo, 2 de janeiro de 2022
Leis felinas para a vida
1 Sê autêntico de coração. Não te preocupes minimamente com o que os outros pensam.
2 Aceita tudo com serenidade.
3 Faz uma pausa. Uma boa sesta minimiza os problemas.
4 Quem está atento encontra oportunidades em toda a parte.
5 Cuida bem do teu aspecto, nunca se sabe quem está a olhar para ti.
E, acima de tudo, ama-te a ti mesmo.
6 Sê flexível, mas não percas de vista quem és.
7 Nunca deixes de alimentar a tua curiosidade.
* Lição final dos gatos: Não precisas de sete - nem de nove - vidas. Podes ser feliz agora!
SÓLYMON, Anna, O Café dos gatos, Editorial Presença, 2021, pp.133-134.
sábado, 1 de janeiro de 2022
Sai de ti
Não fujas do que sentes. Não te escondas
no que dizes. Não digas mentiras.
Sê a tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.
Não sofras por medo de sofrer mais.
Não mendigues jamais o que mereces.
Por exemplo, o amor. Fá-lo e tê-lo-ás.
Funda no fogo firme da sua fogueira
o teu lar,o teu oficio. E agradece ao ar
que entre e sai de de ti. Sê a janela
do que vive. Olha com cuidado.
Há olhares que podem envenenar o mundo.
Não deixe que apodreça o que sentes
dentro de ti. Faz exame de consciência
de vez em quando mas nunca esqueças
que é possível que sejas inocente.
Abre o teu coração couraçado
à união do céu com o mar,
da luz com a sombra.
Do canto dos grilos com o das cigarras.
Pinta de azul a alma. Troca
o que foste pelo que não serás.
Limpa a tua casa. Diz o teu abismo.
Cozinha. Convida,. Canta. Dança. Abraça.
Tira o pó da tua voz. Rega as plantas.
As dos pés também, no mar, em marcha.
Não te detenhas. Diante de ti os teus passos,
as tuas pegadas do amanhã, esperam-te, chamam por ti.
Não olhes para trás. Não sejas a tua estátua
de sal. E sai de ti, do que pensas
de ti. Sai desse quarto
escuro onde escreves os poemas
que dizem o que tens de fazer em vez de o fazer.
Põe-te a andar. Faz. Trabalha. Não te queixes.
Vira a página. vê. Olha. Sê atento
e fica atento. Não te esqueças o que vives.
Não esqueças o que acabas de viver.
Não esqueças o que acaba. Acaba. Vai
em busca de uma voz nova, longínqua.
Não fujas do que sentes. Não permitas
que a vida se perca no vazio,
que a morte ao chegar encontre
já feito o seu trabalho. Olha o céu
como quem diz adeus,
como quem agradece.
PIQUERAS, Juan Vicente, Instruções para atravessar o deserto - poemas escolhidos, Porto, Assírio & Alvim, 2019, pp.105-107.




