quinta-feira, 4 de maio de 2023

Jardim paradisíaco










 Quinta da Madeira Velha, São Miguel 

Temos alternativas??

Queiramos ou não 

Só temos três alternativas: 

O ontem, o hoje e o amanhã.


E nem sequer três

Pois como diz o filósofo

O ontem é ontem

Pertence-nos só na memória:

À rosa que já se desfolhou

Não se pode tirar outra pétala.


As cartas por jogar

São apenas duas:

O hoje e o dia de amanhã.


E nem sequer duas

Porque é um facto  bem sabido

Que o presente não existe

A não ser na medida em que se faz passado

E já passou...

  como  juventude.


Em resumidas contas

Só nos vai restando o amanhã:

Eu levanto o meu copo

Por esse dia que nunca chega

Mas que é o único

De que realmente dispomos.


PARRA, Nicanor, Acho que vou morrer de poesia, Língua Morta, 2019, pp. 63-64.

Sempre sós






As árvores crescem sós. E a sós florescem.


Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.


Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.


Depois, por entre as folhas, vão-se esmorçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,

 e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.


E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.



GEDEÃO, António, Poemas - Uma antologia bilingue, Lisboa, Palavrão - Associação Cultural, 2015, p. 180.

Palavras

Há palavras suspensas no tempo

palavras que nunca foram ditas

palavras tão fáceis de dizer

porque o meu amor vem com o cair da noite

e eu espero

feliz por esperar

por saber que depois abraçado a ela

dormirei ao luar

e as palavras suspensas no tempo

as palavras nunca ditas

as palavras exemplares

as palavras tão fáceis de dizer

as palavras amor, as palavras noite,

as palavras tempo,

as palavras regresso

serão então beijos e abraços

serão beleza e ternura

até que do fundo da noite uma voz nos chame

desde o princípio do mundo

até ao fim do mundo

o amor.


PIMENTA, José António, Deixa entrar a noite na palavra, Coimbra, MinervaCoimbra, 2019, p. 50.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

terça-feira, 2 de maio de 2023

Praia vulcânica












Praia do Fogo - Ribeira Quente

SÃO MIGUEL
 

Primavera no jardim


ÉVORA 

 

Manada comilona


 ÉVORA

Santana do Campo
















 Santana do Campo é uma extinta freguesia do concelho de Arraiolos, distrito de Évora. A freguesia fpi extinta no início do século XX, estando desde então integrada na freguesia de Arraiolos.A antiga Igreja paroquial de Santana do Campo foi construída sobre as ruínas de um antigo templo romano (cujos vestígios ainda são visíveis nas paredes traseiras da igreja).

Fonte: Wikipédia 

Lamento do Demiurgo

Eu pertenço aqui onde ninguém se interessa 

(nem ama

ainda me lembro de ver partir os jovens

naquelas noites de loucura

levando a minha lua cheia os meus astros presos nos cabelos

fiquei só

sem lua nem estrelas em astros

apenas um vazio no coração

e no céu um apagar de eclipse

porque eu pertenço aqui

onde ninguém se interessa nem ama

e por isso não pude partir.



PIMENTA, José António, Deixa entrar a noite na palavra, Coimbra, MinervaCoimbra, 2019, p. 66.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

À sombra da azinheira


Quinta do Valbom, FEA

ÉVORA 
 

Não atiremos areia para os olhos

 Não atiremos areia para os olhos

O automóvel é uma cadeira de rodas

O leão é feito de cordeiros

Os poetas não têm biografia 

A morte é um hábito colectivo

As crianças nasceram para ser felizes

A realidade tende a desparecer

Fornicar é um acto diabólico

Deus é bom amigo dos pobres.


PARRA, Nicanor, Acho que vou morrer de poesia, Língua Morta, 2019, p.81.

Aberta a época de Verão


 Sangria na taska da su - Évora 

Eu sou o enigma? Tu a decifração?

Trago-te a rosa na ponta de uma espada.

Eu sou o enigma. Tu a decifração.

Por fabulosos signos amada

É a tua máxima significação.


Deixa o dia desparecer na curva

Das gaivotas que voam o que são

E devolve-te a ti em qualquer gruta

De carícias que abra a minha mão.


Deixa a noite escorrer até à alba

Do olvido da nossa duração.

E em meus braços aguarda que entreabra

A eternidade a chama da paixão.


Deixa em meu corpo teus dedos alumbrados

Serem o acorde da pura vibração

Da luz que em vertiginosa temporada

Nos pendeu à aragem deste chão.  


CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 75.

Poema de homem só

Sós, 

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.


Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros não se explicam:

arrefecem.


Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se dentro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.


Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.


Dão-se os lábios, dão-se os braços,

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;


GEDEÃO, António, Poemas - Uma antologia bilingue, Lisboa, Palavrão - Associação Cultural, 2015, p. 60

Hastear da bandeira


 Praia de São Bruno, Caxias