Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo
CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 70.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo
CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 70.
SIM, pudera eu gritá-lo a toda a gente,
Quero-te! - e o grito morre-me no peito.
Meu olhar se te esquiva contrafeito.
Morde-me a boca um riso de demente...
E nem tu própria o vês! e ninguém sente
Com que tremor te acerco, sigo, espreito....!
O fervor com que em sonho a mim te estreito,
Parece que o escondo facilmente.
Cegos! O riso que me morde aboca
Desce a dentro de mim, corrói-me a alma
Como uma chama oculta, verde e louca.
Mas eu, parece, eu mostro, eu fruo a calma
Dos que acham esta vida inane e pouca,
...Sonhando empunhar noutra a eterna palma.
RÉGIO, José, Biografia, 6.ª edição, Guimarães, Ópera Omnia, 2020, p.27.
Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estranho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária
aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.
Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.
Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.
Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.
CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 129.
Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto e o sabor
CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 54.
O universo está à beira da loucura
globalizado na riqueza de poucos
e egoístas e há tufões incêndios e maremotos
e desumanas guerras torturas e massacres
A língua venenosa da serpente os touros
de fogo os céus que estremecem e ameaçam
esmagar de todos os mais indefesos
A máscara destes horrores é a falsa
democracia que já foi árvore de sol
e agora por vezes é lama em que
se tropeça e quase se perde a esperança.
RODRIGUES, Urbano Tavares, Poesia - Horas de vidro, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2010, pp. 69-70.
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| Meia Praia |
No areal da solidão
Uma conchinha encontrei;
Guardei-a no coração:
É uma jóia de lei!
O' NEILL, Alexandre, Anos 70 - Poemas dispersos, 2.ª edição, Lisboa,. Assírio & Alvim, 2009, p. 34.
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna.
Dou-me arrepiando em tua face
uma amaragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
CORREIA, Natália, Antologia poética, Lisboa, D. Quixote, 2013, p. 51.
Túnel ferroviário da Ponte 25 de Abril
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Praia da Ilha da Fuzeta |
Azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que o azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu
O' NEILL, Alexandre, Anos 70 - Poemas dispersos, 2.ª edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 85.
O corpo nunca é triste;
o corpo é o lugar
mais perto onde o lume canta.
É na alma que a morte faz a casa.
ANDRADE, Eugénio de, Ofício de Paciência, Porto, Assírio & Alvim, 2018, p. 43.