segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Uma laranja

Uma laranja é uma bola de fogo incendiado na mão a

Manhã do mundo

É um rosto ardendo de boca cravada na

sumarenta luz do tempo


uma laranja incendeia nas mãos toda a ternura do gesto inicial 

é um astro diurno que ilumina na boca o sorriso amanhecido

(...)


RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 70.

As horas


As horas que em terno ofício emolduraram 

Essa face gentil onde o olhar se demora

Hão-de ser as tiradas de si mesmas, as horas,

Como da fealdade que a perfeição superar.

Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão 

Ao temível Inverno, para aí o lograr:

A seiva, enregelada, as folhas sem fulgor,

Soterrada a beleza, e em vez, desolação.

Assim, não fora a essência do Verão conservada,

Líquida prisioneira entre vítreas paredes,

O fruto da beleza por ela era roubado

E nem memória havia de beleza que fosse.



SHAKESPEARE, William, 31 Sonetos, Lisboa, Relógio de Água, 2015, p. 17.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Cobardia intelectual

A cobardia intelectual é o pior inimigo que enfrenta um escritor ou um jornalista neste país

ORWELL, George, O Triunfo dos Porcos, Alfragide, Publicações D. Quixote, 2021, p. 133.

Carta aos meus filhos sobre a guerra na Ucrânia

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso - sabemo-lo hoje?

A História sempre nos faz surpresas, sim,

mas diz-nos também que não mudam os nossos instintos

de presa, de morte, se guerra:

toda a beleza do mundo cabe na explosão de um morteiro,

no eco de uma bala.

E, no entanto, vivemos e dia a sia, acordamos 

para todo o esplendor e miséria do mundo.


Não há nem haverá jamais paz perpétua 

e a cobiça do lucro poderá destruir toda a Terra:

Mas não morre a beleza do clarinete que se levanta por dentro do 

concerto de Mozart

(...)

 pois enquanto formos capazes de dizer não 

continuaremos a rasgar clareiras de humana vida

na selva escura da obscura morte.


Assim o nosso maior poder é a recusa,

a recusa da comunidade no mal, da visão da morte como suprema beleza

e da guerra como destino.


poderá ser pouca coisa o nosso "não"?

poderá de nada servir face às multidões que morrem? Talvez.

Mas é o nosso grande poder, o nosso único poder,

aquilo que deixamos como penhor à vida.

Luís Filipe de Castro Mendes in A mais frágil das moradas - poemas à memória de Eduardo Lourenço, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, p.p. 89-90.