quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Vamos ter os pés assentes na terra?


 Jardim Marechal Carmona de Cascais 

O futuro

... O futuro era só mais uma história que

Me tinham ensinado a ler antes de tempo e

Sempre com silêncios diferentes entre

Cada parágrafo


VIEIRA, Alice, Os armários da noite, Alfragide, Editoral Caminho, 2014, p. 22.

Mudanças

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança,

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança,

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E, em mim, converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.


Andrade, Eugénio, Sonetos de Luís de Camões escolhidos por Eugénio de Andrade, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 48.

Ocaso


Praia de São Francisco, Santiago - Cabo Verde


Há muito pouco para além da

Vida perpetuamente reiterada na

Escuma que desmaia na

praia


as arribas dão-nos uma outra

imagem do mar que criámos

Ora azul ora verde


Ora cinzento

Quando cai a noite e lhe

voltamos as costas e sacudimos a

areia toda e aconchegamos o

corpo na maresia que

resta como mortalha

SOUTO, António, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 104.

Tu és a Rainha

Nomeei-te rainha.

Há maiores do que tu, maiores.

Há mais puras do que tu, mais puras.

Há mais belas do que tu, há mais belas.


Mas tu és a rainha.


Quando andas pelas ruas

Ninguém te reconhece.

Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém olha

A passadeira de ouro vermelho 

Que pisas quando passas,

A passadeira que não existe.


E quando surges

Todos os rios se ouvem

No meu corpo, sinos

fazem estremecer o céu,

enche-se o mundo com um hino.


Só tu e eu,

só tu e eu, meu amor,

o ouvimos.


NERUDA, Pablo, Poemas de amor, Lisboa, 2.a edição, Publicações D. Quixote, 2019, p. 13.

Sorrindo, me liberto


Mas já aprendi que, sorrindo, me liberto

E tão perto me fica o que está distante 

quando me chegas, forrado a instinto

nesse teu tom tão elegante...

Quando me trazem a madrugada 

E me levas, num tudo nada 

ao que senti e ainda sinto

por estes becos de abraços e de abrigo

em que sossegava contigo.

Por isso te sorrio

do fundo da nossa promessa secreta

e na metade cheia do nosso rio

vou chamar aquele nosso poeta 

Para ele te levar

Nesses olhos que vêm do mar

Um beijo com cheiro e do tamanho 

Da nossa rua com flores de jacarandá.

Essa mesma, no nosso outro lado de cá.

Olha, já vai longa a carta...

Fui ao espelho do mar 

E vi as águas do céu.

O meu dormir, mérito teu,

Vai ser hoje mais bonito e leve.

Até breve...


ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa,  Guerra e Paz Editores, 2022,  pp. 26-27.

Tu irás...

 I. Tu irás 

Cruzar-te com pessoas

Que simplesmente não conseguirão esperar

para te ver falhar.


II. vão existir muitas vezes

nas quais tu

vais falhar

(Miseravelmente),


III. mas os teus falhanços

são apenas coisas que acontecem  - 

Eles não têm de ser

Quem tu és. 


IV. Tudo o que podes fazer

é pegar nesses erros

E usá-los como fertilizante

Para te ajudar a crescer.


V. Tu tens de

Caminhar sempre em frente

A ignorar tudo

O que as vozes disserem.


- esta vida ainda vale a pena ser vivida.


 LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 188.