segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

As horas


As horas que em terno ofício emolduraram 

Essa face gentil onde o olhar se demora

Hão-de ser as tiradas de si mesmas, as horas,

Como da fealdade que a perfeição superar.

Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão 

Ao temível Inverno, para aí o lograr:

A seiva, enregelada, as folhas sem fulgor,

Soterrada a beleza, e em vez, desolação.

Assim, não fora a essência do Verão conservada,

Líquida prisioneira entre vítreas paredes,

O fruto da beleza por ela era roubado

E nem memória havia de beleza que fosse.



SHAKESPEARE, William, 31 Sonetos, Lisboa, Relógio de Água, 2015, p. 17.

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