As horas que em terno ofício emolduraram
Essa face gentil onde o olhar se demora
Hão-de ser as tiradas de si mesmas, as horas,
Como da fealdade que a perfeição superar.
Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
Ao temível Inverno, para aí o lograr:
A seiva, enregelada, as folhas sem fulgor,
Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
Assim, não fora a essência do Verão conservada,
Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
O fruto da beleza por ela era roubado
E nem memória havia de beleza que fosse.
SHAKESPEARE, William, 31 Sonetos, Lisboa, Relógio de Água, 2015, p. 17.
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