quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Sorrindo, me liberto


Mas já aprendi que, sorrindo, me liberto

E tão perto me fica o que está distante 

quando me chegas, forrado a instinto

nesse teu tom tão elegante...

Quando me trazem a madrugada 

E me levas, num tudo nada 

ao que senti e ainda sinto

por estes becos de abraços e de abrigo

em que sossegava contigo.

Por isso te sorrio

do fundo da nossa promessa secreta

e na metade cheia do nosso rio

vou chamar aquele nosso poeta 

Para ele te levar

Nesses olhos que vêm do mar

Um beijo com cheiro e do tamanho 

Da nossa rua com flores de jacarandá.

Essa mesma, no nosso outro lado de cá.

Olha, já vai longa a carta...

Fui ao espelho do mar 

E vi as águas do céu.

O meu dormir, mérito teu,

Vai ser hoje mais bonito e leve.

Até breve...


ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa,  Guerra e Paz Editores, 2022,  pp. 26-27.

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