quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Vinhas do mar


Cascais 


Vinhas do mar, na volta da onda maior

Onda redonda fechada de abraço...

Ia o Sol num sul de entardecer.

Vinhas depressa ao devagar do prazer

De me levares à noite, pelo teu regaço

Embalando as batidas do meu suor.


Vinhas ao instinto do hoje até ao dantes

Molhada pelas águas que se dão ao mar...

Brasava o baú das noites guardadas.

Vinhas do tudo o que foi ao todo dos nadas

À memória do que tínhamos de guardar

Deixado num testamento de amantes.


Vinhas do mar, deusa das águas, luz

Num corpo de rio, rainha do Tejo...

Nascida de um céu emprestado ao chão.

Vinhas num sorriso na palma da tua mão 

Tantos cheiros, outros cheiros

Nesse teu leito em que me pus.

(...)


ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa,  Guerra e Paz Editores, 2022,  p. 28.

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