quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Todos aqueles que amo vão embora
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 93.
A noite é escassa para tanta saudade
COUTO, Mia, Tradutor de chuvas, 3.a edição, Alfragide, Editoral Caminho, p. 74
Quando te levam/ alguém que amas
É estranho ver o mundo
A avançar
Quando te levam
Alguém que amas.
O pequeno espaço em teu redor
fica enredado,
paralisado num momento
de perda e choque.
As pessoas que passam, contudo
continuam no seu
ritmo normal.
Não sentiram a terra
tremer? Nem abrandar?
conseguirão ouvir os gritos
dos meus pensamentos?
O seu nome.
O seu rost
REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 233.
A vida
A vida é tudo o que nós temos e quase nada é
Não mais que uma breve eternidade um longo esquecimento
Um ombro desejado num ansiado corpo de partilha
Nada se sabe para lá da vida
mesmo se é ela que nos apresente à morte
e a morte é tudo o que nos resta e quase nada é
não mais que a incerta sombra
sombra numa esquecida memória:
a longínqua lembrança do que já não está.
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, p. 85.
Os anjos...
Os anjos, pelo som da voz, conhecem o amor de um homem; pela articulação do som, a sua sabedoria e, pelo sentido das palavras, a sua ciência.
SENA, Jorge de, Post-Scriptum, Porto, Assírio e Alvim, 2023, p. 22.
Há ocasiões
Há ocasiões em que ao final do
Dia pouco sobra para além das mãos que
Nos despem a roupa por caridade e nos
apagam a luz
Há ocasiões em que o balanço sabe a
nada ou sabe a nojo e o amanhã fica
refém de uma véspera de sargeta
Há ocasiões em que o sol se deixa
abraçar ao contrário e nos ensombra a
alma em entardeceres sucessivos
Há ocasiões em que o quebranto adormece
connosco e desaprende de
despertar
Há ocasiões
SOUTO, António, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 74.
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Nada
Afastar-me da multidão
Entrar num quarto vazio
e de repente esquecer o porquê de
Ali ter ido, para começar.
Não fazer nada
parar
puxar pela cabeça em busca de sinais
à espera que me digam o que fazer.
No lado receptor do rádio
estático.
Vaguear por aí, em passo lento
a tentar estimular o cérebro para
que se lembre da ordem.
Permitir que os meus olhos pousem em todas
as peças de tecido no armário.
Olhar os cabelos finos junto
ao cimo da cabeça no
espelho da casa-de-banho.
Nada.
REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 115.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
A maré nunca pára
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| Cascais |
A maré nunca pára
Para
Repousar
BUENO, A. B., O sentido litoral, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2023, pp. 87.
Dias de solidão
Tive dias de solidão
Em que quase nada disse
porque não tinha com quem conversar.
O som da minha própria
voz espantava-me,
Lembrando-me
De que não sou um fantasma
Que flutua pela cidade
E passa despercebido.
Eu estava lá,
Silenciosamente desligada, apenas
com a voz na minha cabeça
a tornar-me mais familiar
que qualquer dos rostos
ao meu redor.
REINHART, Lili, A arte de mergulhar, Alfragide, Edições Asa, p. 157.
domingo, 28 de dezembro de 2025
sábado, 27 de dezembro de 2025
Estou absolutamente farta
Estou absolutamente farta
De todos
Me dizerem
que forte
que sou.
eu?
forte?
apenas finjo ser forte
porque é
a única distração
que tenho dos
pensamentis sobre
a minha inevitável
vida sem mãe.
- uma pena disfarçada de aço.
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 76.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Como posso existir sem ela?
LOVELACE, Amanda, Aqui a princesa salva-se sozinha, Alfragide, Oficina do Livro, 2019, p. 79.
Sou hoje minha própria sepultura
Sou hoje minha própria sepultura.
Tenho deserto e alheio o coração.
PESSOA, Fernando, Poemas esotéricos, Porto, Assírio e Alvim, 2020, p. 105.
A vida se estilhaça
...
Dos comboios que chegam
Como os invernos
hoje não haverá sol
apenas chuva
chuva e muito vento
E eu que me nego a pensar nisto
Vou aprendendo como a vida se
Estilhaça muito mais
SOUTO, António, hoje não haverá sol, A Seiva dos dias e outros poemas, s.l., Europeus, 2021, p. 102.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
Olhei pelas margens do anoitecer
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| Rio Tejo |
Olhei pelas margens do anoitecer
Numa conversa com o mar
Com jeitos de o olhar
Devagarinho.
(...)
Conversei com o mar
Ou talvez com o rio
Chegado a esse cheiro que demora
Que nos abraça e nos namora
Já por esse cheiro que será saudade
Rio, mar e cidade.
ANTUNES, Fernando Machado, ... como quem lisboandando, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2022, p. 16.
Mercado de Natal
Em redor das mãos
Ouve
O tempo bate como um coração puro
Deixa que o odor velho do barro se misture com a noite
Enquanto a água em silêncio envolve os séculos
Pelo limo do mármore
Desliza ao fundo o barco abrindo água
O tempo imperceptível
E deixa ainda que a palavra repouse no teu colo
Enquanto em cima a noite explode
E as madrugadas navegam nas artérias todos os lugares
Os canais fluidos do amor
Agora que a manhã absorve os primeiros sussurros do fogo
E sobre as águas a morte sobrevém
Os corpos constroem no suor a última Atlântida
De pedra e água
Passa por nós a vida e apenas restam marcas
Alguns vestígios no olhar
Passa por nós o tempo e restam os amigos
Sempre iguais
Esqueceste o teu rosto de perfil para a noite
Onde efémeros lugares habitam a memória
E eu revejo interminavelmente todos os nomes
O teu olhar roubou pequenos brilhos às estrelas
Olho em redor das mãos
Sorris
E à nossa volta é tudo só vestígios.
RIBEIRO, Rui Casal, Escrever a água, Lisboa, Edições Colibri, 2018, pps. 20-21.
Sempre que chorares, nascerás uma outra vez
COUTO, Mia, Tradutor de chuvas, 3.a edição, Alfragide, Editoral Caminho, p. 23.



















































